Escassez de dólares deixa indústria nacional em alerta

(Foto: D.R.)
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A escassez de moeda estrangeira, segundo apurou o Expansão, afecta sobretudo as indústrias do sector diamantífero e do das bebidas, colocando em risco, nalguns casos, a sua capacidade de produção. Banqueiro apela à calma e diz que a situação dos cambiais ainda não é estável, mas tem vindo a registar melhorias.

Algumas sociedades industriais começam a manifestar-se preocupadas face às dificuldades que enfrentam na importação de peças de reposição para as maquinarias e no pagamento de contratos de serviços de assistência técnica a fornecedores não residentes cambias, devido às restrições no acesso a moeda estrangeira que lhes estão a ser impostas pela autoridade monetária, fruto da queda do preço do petróleo, a maior fonte de arrecadação de cambiais.

A escassez de moeda estrangeira, segundo apurou o Expansão, afecta sobretudo indústrias dos sectores diamantífero e de bebidas, colocando em risco a sua capacidade de produção, pelo menos nalguns casos. José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), não só confirma o facto como avança que as dificuldades são gerais.

O presidente da AIA entende que as medidas de coordenação para a crise cambial, anunciadas desde Junho de 2014, foram “tardias”, e destaca uma proposta pela ‘sua’ organização, ainda no consolado de José Massano, que tem que ver com a desvalorização da moeda nacional – que conduziria a uma redução do volume das transacções cambiais.

Para compensar o sector produtivo, caso se começasse a aplicar tal medida, Severino refere que bastaria retirar taxas aduaneiras e Imposto de Consumo às matérias subsidiadas (quando não produzidas cá), eliminar as isenções dadas pelas tutelas a materiais de construção importados e retirar o Imposto de Consumo aos materiais intermédios de produção nacional.

Com isto, considera, teríamos bens acabados ligeiramente mais caros, ajudando desta forma a aumentar a competitividade nacional e o interesse em investir no País, e haveria estímulo para os industriais investirem na produção de matérias-primas locais, em vez de importarem.

O presidente da AIA defende que, para o sector diamantífero e qualquer outro gerador de cambiais, por força das exportações, se deveria adoptar uma política de “operações paralelas”, de modo a que uma percentagem das receitas fosse gerida pelas próprias empresas, no quadro da demais regulamentação. “Tratar-se-ia de um estímulo à eficiência e orientado para peças de reposição e outras urgências. Quem diz para os diamantes, diz para as rochas, o café, a madeira, as pescas e outros”, sublinha.

A manter-se este quadro restritivo de acesso aos cambiais, ironiza, “estará a gerir-se o problema como a tratar paludismo com aspirina e à espera de recursos cambiais oriundos do mercado financeiro externo”. De acordo com o líder associativo, o País ainda tem receitas cambiais consideráveis que, se bem geridas, podem dar garantias ao sector produtivo para o seu desenvolvimento.

Fernando Teles apela à calma

O presidente do conselho de administração do Banco Internacional de Crédito (BIC), Fernando Teles, reconhece que, de um modo geral, o volume de divisas disponibilizado pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para a banca comercial ainda não é suficiente, mas tem-se procurado acudir a situações mais urgentes. “Hoje, o BNA já está a vender um pouco mais do que vendeu no início do ano e as coisas começam a compor-se devagarinho. Não podemos dizer que já está normalizado, mas a situação já está melhor do que estava no início do ano. Por isso, é preciso ter calma e não entrar em pânico”, apela.

Dados disponíveis dão conta, que nos meses de Janeiro e Fevereiro deste ano, o BNA vendeu aos bancos comerciais, nos habituais leilões, 3 mil milhões USD, 218,3 milhões USD a mais do que nos dois primeiros meses do ano passado. Recorde-se que, em 2014, para além dos dólares comprados ao órgão regulador do mercado, em Janeiro e Fevereiro os bancos compraram também mais 2.467,4 milhões USD a clientes, na sua maioria do sector petrolífero.

Teles justifica a actual pressão sobre o dólar com o facto de, por um lado, haver este ano mais actividade económica, devido ao funcionamento de um número maior de empresas, e, por outro,por existirem pessoas que deviam importar daqui a três meses, mas que, devido ao pânico criado pela baixa do preço do petróleo, estão a querer importar já. “Quando se instalam situações como a deste ano, em que as pessoas começaram a vir dizer que o petróleo tinha baixado e que não iria haver divisas para as importações, toda a gente veio a correr. Inclusive aqueles que teriam só importações em Abril ou Maio, estão a vir também em Fevereiro. Isto é que é o problema. O que se passa é que há gente a antecipar as importações”, aponta.

Para além disto, acrescenta, em todos os anos, no primeiro trimestre e às vezes até quadrimestre, há sempre falta de divisas. “É assim, porque temos as vendas do final do ano. Angola é um país que paga o 13.º e o 14.º meses”, o que gera “o consumismo do Natal”. “Toda a gente vende muito mais em Dezembro e isto são importações que foram feitas e que têm que ser pagas em Janeiro e Fevereiro, ou até Março ou Abril”, explica o banqueiro, quando questionado sobre as causas da ocorrência deste fenómeno no início do ano, todos os anos.

A juntar-se a isto, afirma, está o facto de o Estado, ao gerir o seu Orçamento, fazer mais pagamentos da sua dívida no último trimestre do ano, o que faz com que os depósitos dos bancos todos cresçam muito neste período. Neste momento de crise de cambiais, Fernando Teles indica que o BIC tem tentado privilegiar os sectores de actividades escolhidos pelo banco central, como são os casos dos produtos alimentares, medicamentos e matérias-primas. “Não vou esconder que não estamos a conseguir resolver o problema de toda a gente. Mas a verdade é que estamos melhor do que estávamos em Janeiro”, diz.

O Expansão soube junto de alguns bancos comerciais que o BNA lhes tem dado instruções informais, definindo, dia-a-dia, os sectores que devem ser priorizados na realizarem transferências para o exterior. Questionada pelo Expansão sobre estas ‘instruções’, fonte oficial da instituição não respondeu até ao fecho da edição.

E terá a decisão tomada pelo BNA, no último quadrimestre de 2014, de proibir os bancos de comprarem directamente divisas às petrolíferas contribuído também para as actuais dificuldades? Segundo Teles, para alguns bancos, incluindo o BIC, seria melhor que as empresas lhes vendessem os dólares directamente.

Porém, reconhece que, para a economia nacional, é muito mais útil que seja o banco central a adquiri-las. “Isto permite ao BNA uma gestão melhor. Vai tendo o ‘bolo’ na mão e vai gerindo. Imagine que o banco central não tivesse este dinheiro das petrolíferas. Seria mais complicado ainda”, realça.

Kwanza acompanha passada

Para além das restrições em relação ao dólar, gestores de algumas grandes superfícies comerciais queixam-se, sob anonimato, de estarem também já a ter algumas dificuldades para aceder a kwanzas – o que tem dificultado o pagamento a fornecedores e gerado suspeitas sobre uma eventual falta de liquidez na banca.

Fernando Teles diz não ser este um problema do BIC, mas confirma haver “rumores” no mercado sobre a existência de uma minoria de bancos com alguma falta de liquidez, que, sublinha, pode estar ligada à recente decisão do BNA de obrigar a aumentar as Reservas Obrigatórias de 15% para 20%, podendo até 5% ser cumpridos sobre a forma de Títulos do Tesouro de emissões de 2015.

No início do ano, o BNA havia já feito alterações às Reservas Obrigatórias, com o período de cálculo e de cumprimento a passar de uma semana para um mês.

A título de exemplo, o banqueiro aponta que, quando se aumenta a reserva obrigatória aos bancos maiores, retira-se cerca de 150 milhões USD de circulação. “E, às vezes, as pessoas que têm as suas disponibilidades aplicadas em dívida pública, como Obrigações do Tesouro, ou Bilhetes do Tesouro, têm que esperar que vençam ou então pedir o que está no BNA ou em outros bancos”, concluiu.

As estatísticas de 2014 demonstram um aumento das operações de cedência de liquidez (contra garantia de títulos) e de redesconto por parte do BNA a partir de, respectivamente, Setembro e Outubro, o que, eventualmente, na opinião de um especialista ouvido pelo Expansão, poderá ser um reflexo da falta de liquidez referida pelos gestores. “Não havia operações de redesconto de Abril de 2012 e de cedência de liquidez desde Setembro de 2013”, refere o especialista em assuntos financeiros. (expansao.ao)

Por: Francisco de Andrade

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