‘Eleição mostrou a verdadeira face de Israel’, diz jornalista

Jornalista do Haaretz Gideon Levy. (Foto: Tomer Appelbaum)

Considerado uma das principais vozes dissonantes em Israel em relação aos palestinos, o jornalista Gideon Levy é categórico: “Essa eleição mostrou a verdadeira face de Israel.” Premiado por entidades de defesa de direitos humanos, já foi acusado por um parlamentar de traição à pátria. Hoje, anda com seguranças e insiste: “Israel comete crimes nos territórios ocupados.”

O que o senhor achou do resultado destas eleições?

Fiquei feliz. Mostrou uma clara imagem da sociedade israelita. Foi uma surpresa a vitória de Netanyahu. E vai ser muito fácil ele construir maioria de direita: 67 cadeiras já serão o suficiente.

Ao mesmo tempo que o Likud levou 30 assentos, isso representa apenas 25% dos votos…

Mas é necessário contar todo o bloco da direita: eles têm a maioria. Não foram suficientes os votos na centro-esquerda. Efectivamente, o que a eleição mostrou foi a verdadeira face de Israel.

Com 30 anos de cobertura dos territórios palestinos, o senhor se tornou um dos principais críticos da política de Israel nessas regiões. Na véspera das eleições, Netanyahu afirmou ser contrário ao Estado palestino, para voltar atrás após a vitória. O que o senhor viu ao longo destas três décadas reportando de Gaza e Cisjordânia?

Eu vi Israel fazendo uma brutal tirania militar, não muito longe da nossa casa. A realidade não é uma guerra proporcional. A realidade é muito brutal e cruel já há 48 anos.

Qual foi a pior coisa que viu?

Não existe o pior: a rotina é o pior. O pior é a falta de direitos humanos, de dignidade. O pior são crianças acordando sem poder se juntar à mãe durante a noite, vendo soldados entrando no quarto. O conflito é o pior, matando crianças, derrubando casas.

Temas como preço das moradias e o custo de vida dominaram a campanha eleitoral. Por que esse aparente desinteresse pela questão palestina?

Você gostaria de saber que crimes são cometidos em seu nome? A maioria dos israelitas não quer saber, nem ouvir que soldados estão matando na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Quem quer saber? Então, fecham os olhos.

O senhor fala numa “máquina de lavagem cerebral” em escolas, universidades, sinagogas, propagando governo…

Maior do que esses que você citou, a mídia faz a maior lavagem cerebral em Israel: demonizando árabes e palestinos, desumanizando-os. Eu conheci palestinos. Mas os únicos palestinos que aparecem na mídia são dados como terroristas. Nunca são mostrados os rostos das vítimas, nomes, características humanas. Se você chama todos de terroristas, se usa a terminologia da ocupação, molda a mente das pessoas com muito ódio ao longo dos anos.

Uma vez o senhor disse que “a notícia de um cachorro de um israelita morto por um foguete foi publicado na primeira página, enquanto a morte de um palestino saiu numa nota, na página 16.” É o exemplo do que aponta?

Isso é a desumanização. Você quer vender jornais. A história sobre o cachorro, uma companhia amável, que desperta empatia, solidariedade, emoções positivas, é bom ler isso. Não querem ler sobre morte de palestinos, de crianças.

Não existe a mesma lavagem cerebral do lado palestino?

Os palestinos não precisam disso: abrem a janela e vêem soldados israelitas. São humilhados. Não precisam de máquina de lavagem cerebral porque a realidade é bastante ameaçadora, cheia de ódio. Você odeia quem humilha uma mulher grávida em frente a você, quem faz prisões durante a noite, prende crianças.

O Hamas governa a Faixa de Gaza há quase uma década. Na carta de fundação, prega a destruição de Israel. O senhor concorda que o Hamas é uma organização terrorista?

Sim, é uma organização terrorista, mas também de libertação. Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano foram considerados terroristas. Essa não é a questão, mas sim: o Hamas pode ser um parceiro para discutir essa realidade? Escute, você deve tentar a paz com os inimigos. Também vejo o Hamas como a liderança de pessoas que querem empreender algo em suas vidas. Israel, durante anos, nunca falou com a OLP, que pregava a destruição de Israel. Falar nunca vai criar qualquer tipo de destruição.

A própria ONU acusa o Hamas de usar escolas em Gaza para esconder armas. Como negociar com quem não respeita suas próprias crianças?

O que sei é que Israel matou 500 crianças e mulheres na última operação em Gaza. O que você pensa disso? Ambos precisam mudar: Hamas e Israel. Depois disso, precisa conversar. Israel fez muito pior aos meus olhos. Existe um apartheid nos territórios ocupados: os colonos têm todos os direitos do mundo, e os palestinos não têm direitos.

Entendo o seu ponto, e entendo as pessoas que sentem medo do Hamas…

Mas o medo não é realmente um grande conselheiro. Muitas vezes o medo é exagerado e não está conectado à realidade. Israel é forte, superpoderoso, possui todas as armas disponíveis no mundo, sendo o mais próximo aliado dos EUA. Você deve duvidar de alguns medos.

O senhor classificou as conversas de paz como uma besteira. Por quê?

Muito simples: é a mais longa conversa de paz da História. Há dezenas de planos de paz na gaveta. Se realmente houvesse a intenção de falar sobre as ocupações, as negociações iriam tomar poucos dias. E se não houver a intenção, as negociações podem consumir anos, e levar a nada.

Muitos falam que as negociações de paz não avançam pelo fato de o Hamas querer destruir Israel…

Não engulo essa propaganda. Muitas vezes dizem que “isso não é mais possível” (em tom sarcástico), “o Hamas vai destruir Israel”. Como? Com os primitivos Qassams (foguetes caseiros de baixo poder, alcance e precisão) deles? Realmente? Acho que deveríamos ser um pouco mais realistas, um pouco mais inteligentes. Quem pode acreditar que o Hamas vai destruir Israel, que tem todas as armas disponíveis no mundo?

Novos historiadores afirmam que a maioria dos árabes que viviam em Israel durante a Guerra de Independência foi expulsa pelos israelitas. Anteriormente, dizia-se que eles haviam saído voluntariamente. Como isso pode influenciar em negociações?

Eu acho que há hoje, como há 70 anos, na criação do Estado de Israel, alguns milhões de refugiados, e esse problema deve ser resolvido. Se foi “voluntariamente”, apavorando, ameaçando… E muitos dos que saíram, quiseram voltar, e não foi permitido. Se vou para Gaza, posso voltar: ninguém vai me parar.

O senhor diz que Israel deve mudar para melhorar a relação com a comunidade internacional. Por que as pessoas o vêem como um “self-hating-jew” (judeu que se odeia)?

Negar é um caminho muito fácil. Sou afiado, provocativo nas críticas, mas todas vêm da minha ligação muito forte com Israel. De outra maneira, iria embora daqui. Acham que me atacando, encobrirão as verdades. A verdade é que Israel tem cometido muitos crimes, e deveria ser responsabilizado.

Durante a Operação Limite Protector, Yariv Levin, parlamentar do Likud, pediu que o senhor fosse acusado de traição, crime punível com a pena de morte em tempo de guerra. Hoje o senhor anda com seguranças contratados pelo jornal “Haaretz”, onde trabalha. Como se sente sendo odiado em seu país?

É muito desagradável. Mas não é todo mundo que me odeia. Tenho muitos simpatizantes em Israel. Não é confortável nem para mim, nem para minha família, mas não tinha outra opção.

Já pensou em deixar Israel?

Não. Nunca.

Acredita que as coisas podem piorar para o senhor?

Completamente.

Em que nível?

Em todos os níveis possíveis: familiar, de segurança. Novas leis, novas regras podem ser feitas.

E o que o senhor vai fazer se essas coisas acontecerem?

Eu vou ficar aqui. (

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