Crítica: A Opera Negra

Real e sonho encontram-se de forma violenta em O Mundo de Fora, confirmação de Jorge Franco como um dos nomes mais sólidos das letras sul-americanas (Foto: D.R.)
Real e sonho encontram-se de forma violenta em O Mundo de Fora, confirmação de Jorge Franco como um dos nomes mais sólidos das letras sul-americanas (Foto: D.R.)
Real e sonho encontram-se de forma violenta em O Mundo de Fora, confirmação de Jorge Franco como um dos nomes mais sólidos das letras sul-americanas
(Foto: D.R.)

Real e sonho encontram-se de forma violenta em O Mundo de Fora, confirmação de Jorge Franco como um dos nomes mais sólidos das letras sul-americanas

Jorge Franco (Medellín, 1962) pertence a uma geração com a tarefa ingrata de escrever na mesma geografia depois de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes ou Juan Rulfo. Quem apareceu depois destes nomes que foram capazes de inventar e exportar um imaginário criador de identidade parece condenado a comparações e, com elas, a sair perdedor. Não se pode escrever à maneira de Márquez, Llosa, Fuentes ou Rulfo porque eles foram os melhores e a imitação acabará derrotada. E o que fazer de novo sem ser rejeitado? Isto poderia ser condição quase suficiente para qualquer aspirante à escrita baixar os braços, mas tal não tem acontecido e está a assistir-se a uma reescrita do continente latino-americano que parecia literariamente condenado ao cliché do realismo mágico, com melhores ou piores praticantes, ou a um experimentalismo inconsequente. Escritores como Juan Gabriel Vásquez (outro colombiano, autor de O Barulho das Coisas ao Cair, original de 2011, também vencedor do Prémio Alfaguara), os argentinos Andrés Neuman e Ana María Shua, o mexicano Jorge Volpi ou o peruano Santiago Roncagliolo são alguns exemplos da capacidade de renovação desta literatura, onde se reflectem as aspirações, o medo e os desafios de sociedades contraditórias em e em grande mudança. O livro que valeu a Jorge Franco o mais recente Prémio Alfaguara está nessa lista.

Autor de Rosário Tesouras (1999), livro considerado de ruptura com o realismo mágico, ou de Paraíso Travel (2002), uma metáfora do continente americano na sua errância e busca de identidade, Jorge Franco reflecte agora sobre o embate entre o universo íntimo e fantasioso de uma rapariga criada num conto de fadas com a realidade violenta, inclemente, da Colômbia que nos é apresentada no início da década de 1970, quando um homem poderoso é sequestrado. Moro, o chefe dos bandidos, apresenta-se como uma vítima, alguém com uma existência antes do mal, mas em que o mal surge como condição para a sobrevivência. “Antes de ser um homem mau…”, começa por se identificar ao sequestrado num discurso sobre dignidade e subversão de valores, contraponto ao universo puro de Isolda, a que ainda nada sabe desse mal, mesmo crescendo num bairro suburbano de classe média aonde vão chegando notícias, “histórias de bandidos e de roubos, do assalto a uma casa de onde levaram o faqueiro de prata, ou do assalto a um banco, de zaragatas nos bares, de infidelidades, de um pai que deu um tiro a um rapaz que lhe fugiu com a filha, de um demónio que apareceu a alguém ou de um feitiço com que alguma mulher conseguiu arrebatar um marido”. Está sintetizado o ambiente de El Poblado, onde ocorre o rapto de Dom Diego Echavarría Misas, o senhor de El Castillo, nome da fortaleza wagneriana onde vivia com a mulher Dita, e a filha, Isolda, e construída para as proteger do mundo de fora.

É de sobrevivência que Jorge Franco fala neste O Mundo de Fora. Os vários tipos de resistência exigidos em condições-limite. Dom Diego é o herdeiro rico de uma família burguesa. Nos anos 50 não consegue viver fechado na Colômbia, o país onde não há Inverno, que “floresce todo o ano”, mas onde não encontra “cultura e joie de vivre”. Apaixonado por ópera, e sobretudo por Wagner, conhece Benedikta zur Nieden, uma alemã com quem dançou uma valsa de Strauss depois de assistir à ópera de Wagner Tristão e Isolda, cantada por Maria Callas. O episódio que narra o encontro fortuito entre o colombiano e a Divina, quando ela lhe pede abrigo da chuva para entrar no teatro, é exemplar da contenção poética de Franco e revelador da sua formação em cinema. Benedikta, que será Dita, mesmo sem saber nada da Colômbia — ou por nada saber da Colômbia —, casa com Dom Diego e é deles que nasce Isolda, a rapariga que Moro idolatra, espiando-a na sua inacessibilidade. Ambos querem “fazer dela uma mulher de bem num país selvagem”, como nota Hedda, a preceptora alemã, mais consciente do que eles de que os muros que a protegem e a rodeiam de afecto são um cárcere.

Intercalando tempos, narrado a várias vozes, O Mundo de Fora é habitado por personagens de uma enorme densidade que vão fugindo ao padrão que se espera delas, escapando à aparente tipificação inicial, numa escrita rápida, com bom domínio do poético e do calão, e uma ou outra derrapagem em metáforas óbvias ou infelizes. “Nuvens fofas que flutuam em bando” não é coisa que assente bem a um conjunto capaz de fazer com que Wagner e Medellín sejam possíveis num mesmo palco quase sem falas a mais, como nota um artigo do suplemento Babelia, do El País. (publico.pt)

Por: Isabel Lucas

 

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