Bonga: “Hora Kota” para mim, não é apenas o “Kambuá”, que faz parte deste disco…É principalmente a simbologia fonética utilizada para chegarmos ao povo”

(D.R.)


(Video – Show com Cesária Évora)

No seu jeito peculiar de falar, Bonga aborda nesta entrevista, interessantes aspectos da sua mundivivência artística, não deixando escapar uma leitura à sociedade angolana, no que toca a comportamentos. Comportamentos esses que se encontram espelhados no seu mais recente álbum,  “Hora Kota”, que vendeu só em Angola 20 mil cópias, exceptuando o resto do mundo, onde a Lusáfrica, a editora que o sustenta, actua em grande. Depois de Cesária Évora, Bonga é das vedetas sonantes daquela casa de música lusófona em Paris.

O Cavaleiro das Artes e das Letras de França deixou-se invadir pela paixão da música, e viajou por Angola, sua eterna apaixonada, falando da essência do semba, o ritmo que o leva todas as semanas para os diferentes palcos do mundo. A entrevista a seguir:

Portal de Angola – O que  tem sido a vida do Bonga, depois do lançamento do último disco?

Bonga – Qual deles?

PA – O Hora Kota….

B – Continuo nas minhas andanças musicais. Sou dos poucos profissionais da música de Angola, que aos 42 anos de carreira ainda tem muita coisa para fazer. Portanto, continuo a ser solicitado! Tanto, como depois do primeiro disco.

Isso é muito importante para um artista como eu, sentir-se ainda desejado e promovido. Sobretudo por gente estrangeira, por falta de empenho e seriedade dos nossos empresários nacionais.

Não sendo assim, por conseguinte, continuo a estar lá fora, mas sempre dentro, através dos temas musicais a que vos habituei a todos…

A carreira requer manutenção. É o segredo! Se não há manutenção não há continuidade…

A Europa exige muito de nós. Principalmente quando temos uma música, que foi, em boa parte, vítima do preconceito.

Hoje em dia eu, como muitos outros artistas que existem e, que vivem no estrangeiro, temos consciência de termos dado a volta a essa situação do preconceito.

Bonga e a sua dikanza, um instrumento fundamental do semba, o carismático  estilo representativo da música angolana. (Foto: D.R.)
Bonga e a sua dikanza, um instrumento fundamental do semba, o estilo representativo da música angolana.
(Foto: D.R.)

Cantamos e tocamos em palcos nunca antes pensados pelos artistas africanos. Os lugares eram ocupados pelos europeus e pelos americanos, e acabou!

Não havia mais nada. Estamos agora aí a dar uma achega com as nossas músicas específicas. Estou a falar do Manú Dibango, Salif Keita, Mory Kanté, Cesária Évora (já falecida), etc..

Isso é muito bom.  O Betinho Feijó que o diga! Está aqui o grande testemunho, com a sua guitarra, compositor e intérprete, que me acompanha nas lides, quer nos ensaios, nas viagens, nos espectáculos, etc. Com agentes artísticos sérios e uma casa de discos de igual nível. Quando isso não funciona, o artista perde um bocadinho pela qualidade…

(Video Kambuá)

PA – Quer dizer com isso, que ainda continua ligado à Lusáfrica?

B – Continuo ligado à Lusáfrica  e à 3D Family, o agente artístico. Todos eles residentes em Paris. E não em Portugal como muita gente pensa!

Os miúdos quando vão a Portugal com algumas verbas (que a gente fica assim a pensar como é que são essas ajudas para espectáculos em Portugal) pensam que a gente pode dar uma força… Não, não, não!

O mercado português está um pouco limitado em relação à música africana. Já não existem aquelas aberturas que surgiram no tempo do Duo Ouro Negro, que brilhou em Portugal. O tempo do Bonga, em Portugal, quando fez os primeiros discos, o “Reflexão”,  o “Lágrima no canto do olho”,  o “Currumba”, etc, com a Discossete e a Vidisco,  já passou! Se fosse a contar apenas com Portugal, a esta hora, o Bonga já não seria artista…

Felizmente há Paris, a França, que é o único país da Europa que abre de facto os horizontes para a música negra, seja ela africana, ou americana.

PA-  Mas para isso concorre o grande investimento que os franceses fazem em termos de Cultura, certo?

B – Sim e de que maneira?! Por isso é que Paris continua ser a grande cidade cultural que é!

PA – Por falarmos deste último disco, como é que está o “Hora Kota”, em termos de vendas?

B – Sinceramente, não sei muito bem. Isso de contas dos discos, das vendas, das promoções, etc.,  é uma coisa que me ultrapassa, porque eu não tenho empresa.

PA – Seguramente foi um disco com vendas superiores a 20 mil cópias?

B – Oh, muito mais?! Seguramente! Inclusive, eu trouxe para cá, 20 mil CD´s e foi tudo vendido. Para não falar das cópias que ficaram no estrangeiro a reforçar o nome do artista, com muito boas vendas.

PA – E para quando o próximo?


(Video-Bonga Bernard Lavilliers)
B – Antes de falarmos do próximo disco gostaria de me pronunciar em relação ao CD Hora Kota, nos seguintes termos: nota-se a preocupação do compositor, do intérprete em enviar uma mensagem dirigida aos “Kotas”, que, infelizmente estão a morrer na desgraça e não são apoiados em vida. Há os choros com lágrimas de crocodilo nos cemitérios, mas não há acções concretas para apoiar ou garantir a assistência social (médica e medicamentosa) aos artistas que, através da sua obra sócio-cultural, deram muitas alegrias ao país.

O “Hora Kota” é a hora dos kotas, dos mais velhos. É a enciclopédia que tem de falar, são os exemplos que têm de ser dados, antes de entrarmos nessa da  imitação sistemática das coisas do estrangeiro. Esses mesmos estrangeiros que entram aqui do jeito que a gente sabe e que ganham melhor que os angolanos. Portanto, para mim é muito importante que as músicas que interpretamos com um teor sócio cultural e político tenham o seu peso na terra de origem.


(Video Água rara-RTP África)

Portanto,  o “Hora Kota” para mim,  não é apenas o “Kambuá”, que faz parte deste disco. É principalmente a simbologia fonética utilizada para chegarmos ao povo. A linguagem da televisão, que é para uma minoria, não traduz a mensagem de fundo para unir esse povo de norte a sul do país…

Eu estou a falar do calão, da gíria…

É certo que há as línguas nacionais que passam nos noticiários, mas onde é que está a vivência desse povo, um com o outro? Isso para mim é importante! E esses discos que têm essas músicas que aproximam as pessoas (viu-se agora no Fenacult. Com todos os defeitos e mais alguns, fez-se e está aí, muitos anos depois), o que é certo é que o pouco que eu vi (estive no Bié, pela primeira vez; fomos  a Benguela… Já lá estivemos  o  ano passado). Isso tem um impacto incrível e é duma profundidade tremenda. O que significa que a música continua a ser um elo de ligação dos povos, o que é fantástico.

Todas as verbas deveriam ser canalizadas para que o artista fosse defendido e as suas obras valorizadas…

PA –Essas viagens que fez ao interior do país produziram mais motivação para o próximo disco…?

B – Ganha-se sempre motivação para outras obras, como não podia deixar de ser. Quanto mais não seja, pela maneira como somos acolhidos, abraçados, respeitados. Ah Isso é fantástico! Não temos isso no estrangeiro.

 PA – Quer dizer que o calor está todo aqui…?

B – …Está todo aqui?! Só mesmo com a manutenção da amizade da familiaridade, da aproximação  e tudo mais, é que as coisas funcionam…

PA – Um grande senhor e seu amigo,  da música africana, com quem já fez um dueto, no projecto Wakafrica, veio a Luanda fechar o FENACULT. Como foi o reencontro com Manú Dibango?

B – É sempre caloroso o reencontro. O abraço fraterno com “aquela força da natureza”, que é Manu Dibango. Ele continua a ser aquela imagem de marca, que não esquece a sua África profunda.

Tem sido  uma presença corrente aqui em Angola. Ele vem cá várias vezes. Já participou em festivais de Jazz, etc. Mas desta vez a coisa ficou tremida, porque as preocupações do FENACULT fizeram com que não se prestasse muita atenção a este grande senhor da música africana. Pecou-se um bocadinho, mas o espectáculo saiu uns dias depois. Temos uma cumplicidade entre os dois, no âmbito da cultura.

PA –Falaram do estado actual da música africana, das tendências que ela tem  seguido?

(Video Vaya con Dios – Illia)

B – Fala-se sempre. Infelizmente existe ainda aquela ingerência abusiva do europeu,  que ainda não entendeu, que o africano tem a sua cultura própria,  a sua maneira de estar no mundo. E não tem que respeitar necessariamente este ou  aquele business.

Eu lembro-me de muita gente que fazia soukouss, rumba e outros estilos de música africana, e que de repente passou a misturar tudo aquilo,  até perder a essência africana. Seis meses depois deixou de ser artista. Estou a falar de Bovik Bodongala, grande maestro congolês democrático; estou a falar do François Niombo, grande e exímio guitarrista. De repente pegou na música clássica. Ficamos tristes!

PA – E que soluções é que aponta para este fenómeno?

B – Isso tem a ver com a personalidade do próprio africano. O africano tem que vincar a sua personalidade.

Custe o que custar temos que preservar aquilo que é nosso e não termos que estar sistematicamente a ter atenção naquilo que o outro diz ou faz..

PA – Falando no caso concreto da nossa música, sabe que há uma nova geração que está, por um lado a tentar explorar e vincar a personalidade do  semba e há outros que enveredaram para outros estilos e ao mesmo tempo a reclamar a internacionalização das suas carreiras. Que comentários é que pode tecer?

B – Eu acho que em todas as épocas surgiram músicas dessa juventude trepidante, cheia de imaginação criativa. Inclusive o rock. Já se tocou aqui o rock, o  R&B, música brasileira, do tempo do “kaprandanda”. Nos anos 50, os kotas africanos tocavam música sem harmonia, com pratos e  garfos,   cantando melodias brasileiras (remexe, remexe com as cadeiras, opa) e outras. Era assim, a música que saiu daqui,  e foi para o outro lado: os merengues, o tango (o angolano casava e abria o salão com o tango argentino)…

PA – Também havia o twist…?!

B –  O Twist … o Hoola up, tudo entrou aqui… E nós consumimos tudo isso! Estou a falar do tempo da outra senhora. Então se no nosso tempo era assim, agora,  não temos coragem de  dar a volta e privilegiar o que é nosso? Temos música, tradição, dança, línguas,  folclore…

É certo que no meio deste turbilhão todo, pode acontecer música jovem. Venham lá com os kuduros que quiserem! Têm lugar no contexto da música angolana. Mas privilegiar uma coisa em detrimento da outra, que já existia, antes mesmo de  nascermos, acho que não é correcto.

Há imensa irregularidade. Por exemplo dá-se muito mais dinheiro para os kuduros  e essas coisas todas que há por aí, do que propriamente para o semba, que tem identidade própria, com os seus autores, muitos deles, abandonados à sua sorte.

Num outro contexto encontramos uma parte da juventude à espera que alguém dê mais força para aderirem ao semba. Eu próprio sou contactado por gente que faz kuduro…

Bonga com a medalha ao peito, recebendo cumprimentos do embaixador de França em Angola, Jean Claude Moyret. (Foto: PA)
Bonga com a medalha ao peito, recebendo cumprimentos do embaixador de França em Angola, Jean Claude Moyret.
(Foto: PA)

PA – Há pessoas a defenderem que o semba corre perigo…

B – Não, o semba não pode correr perigo, se tivermos em conta a nossa identidade…

E qual é a nossa identidade? Nós começamos pelo batuque…! Então vamos  dizer que não tivemos avós, pais… Não tivemos história?

O que acontece é que a nossa prática é imediatista. Tem passado por fazermos coisas para agradar aos estrangeiros (e assimilados também), que gostam muito dessa tónica do filho que está em casa e já é compositor. Em duas semanas dum canto que ele inventou e… já fala de carreira artística! Considera-se superior ao “madié” que faz semba e que é seu vizinho, exibindo um currículo  que o apresenta como cantor há 5/10 anos. Pergunto eu:  o angolano não se está a ver ao espelho…? Está concerteza a contrariar o caminho normal das coisas, relacionadas com a sócio-cultura musical!


(Video)

PA – Fala-se por aqui dos artistas novos ricos. Há por aí jovens da nova vaga, que até já são milionários. O Bonga  é milionário?

B – Ah,ah, ah! Não! Nem pouco mais ou menos… Aqui há honestidade! A gente trabalha. Estou inscrito na sociedade de autores e compositores. As obras todas estão inscritas aí, pela defesa do compositor e do intérprete e com isso não dá para ser rico.

A menos que vendam as quantidades de disco que os brasileiros ganham quando fazem novela ou então os homens do R&B, que vêm aqui  e realizam shows com grandes cachets.

Mas repare numa coisa: nós ainda não estamos naquela da valorização do que é nosso. Quando assim for veremos os artistas que vivem fora, a serem bem acarinhados e tão bem pagos como os estrangeiros que chegam aqui e batem recordes nas vendas de discos.

PA – Voltemos à questão anterior: o Bonga, em termos de valores  aproxima-se por exemplo, a Anselmo Ralph, que se diz por aí ter fortuna avaliada em 4 milhões de dólares?

B  – Não acredito que esses valores sejam verdadeiros! E isso é mau, porque estão a indiciar que outros artistas sigam o mesmo caminho, pensando que vão adquirir fortunas fabulosas. Não é assim que acontecem as coisas.

Você está a falar com um profissional de 42 anos de carreira, que tem uma idéia do negócio das artes, da música, etc.

Eu tive discos de ouro, de platina e sei o que isso representa. Fiz os maiores espectáculos, nos maiores sítios do musichall internacional; sei quanto é que isso representa. Com a música a gente não ganha o totoloto. A menos que haja um boom tipo americano, que são os únicos (Maria Carey, Beyoncé, etc, etc.), que lançam dois milhões, oitocentos milhões, etc.. Aí está bem. ..

(Video)

PA– Sendo o Bonga um artista bastante experiente, diga-nos como é que a Europa e outros cantos do mundo, vêem a música que você tão bem representa lá fora?

B – Olhe, a música de Angola tem que ser vista sobretudo fora do âmbito do petróleo e dos interesses que há aqui.

Pelos lugares onde passei, e realizei espectáculos e vendas há matéria suficiente para vários livros, que acontecerão um dia, por minha iniciativa, relacionados com o meu currículo real, que os angolanos já não conhecem.  Até agora foi preciso um homem da Guiné Bissau, um filósofo, escrever, a partir de Roma, os ditos do Bonga, em livro que, aliás,  saiu cá, depois de ser apresentado em Roma e Paris. Alguns angolanos torceram o nariz, por ser um estrangeiro a escrever uma obra daquela envergadura.

A nossa juventude que tenha cuidado com esse aspecto, de não precipitarem os acontecimentos. O facto de irem lá fora cantar em discotecas, nas boitezinhas ou restaurantes, não dá direito a vangloriarem-se, sem pretender desfazer alguém. Uma coisa é cantar nesses sítios e outra é a exibição para os povos europeus ou americanos,  no contexto empresarial, em que há posters elaborados e a mídia envolvida. Isso é promover a música angolana. Porque quando é no barzinho, restaurante, as coisas não têm o mesmo impacto.

O Anselmo Ralph está a ser promovido por Portugal, neste momento. Está na televisão, a fazer trabalhos, etc. Eu quero mais é que ele suba. É um mwangolê. Por solidariedade suba, miúdo! Tenha toda a coragem. Não deixe que  deturpem a tua música, nem percas a tua jovialidade.

PA- Como é que classifica a música de Anselmo Ralph?

B – O tipo de música que ele faz não é semba, claro. Eu sou do semba, da velha guarda, com consciência de estar a pôr uma pedra neste grande edifício que é a música da minha terra e que tem identidade própria. Isso é muitíssimo bom e vou continuar a bater-me, aliás.

A música do Anselmo Ralph tem a ver com a juventude que está aí, estridente, informada, dando shows espectáculos. Isso é óptimo! Ele dará o  seu contributo, pela  música que produz.

...Com o colega Voto Gonçalves e admiradores. (Foto: D.R.)
…Com o colega Voto Gonçalves e admiradores.
(Foto: D.R.)

PA– Ultimamente temos assistido a sua participação em vários álbuns de artistas angolanos. Normalmente qual é a mensagem que passa a esses jovens, que o procuram?

B – Primeiro tomo em conta a minha experiência. Depois é auscultar as pretensões dos jovens e orientar a assumpção de uma linha.

PA – Tem dado muito relevo a um instrumento típico, que é a dikanza. Porquê?

B – Ela faz parte do semba. Atenção meninos, não se faz semba sem a dikanza e o batuque. Tem-se exagerado imenso no uso dos claviers, “pianadas” e violinos… O semba, não deve ter nada disso!

Bonga e o seu companheiro de estrada, Betinho Feijó. (Foto: PA)
Bonga e o seu companheiro de estrada, Betinho Feijó.
(Foto: PA)

PA – Mas o semba precisa  de se renovar…

B – Não se pode renovar deturpando… O tango só é se tiver o bandolim. O samba brasileiro se não tem o pandeiro é outra coisa. Fizeram o bossa nova,  e o samba-reggae… Deu em quê? Nada, porque perdeu consistência!

PA – O semba também é ritmo e animação não é só dikanza e o batuque…

B – Antes de mais nada, o semba é um ritmo e uma dança, que é apresentado pelos velhos e daí a gente sentir. Com o nosso sentimento nacional, sem nenhuma influência e sem sobretudo haver desvios de linha.

PA – Mas a introdução de novos instrumentos deu ao semba outra projecção. Não concorda?

B – Porquê sistematicamente os instrumentos europeus? Nós já temos na rebita o acordeon que introduziu muito bem (até está a desaparecer)… Ninguém fala da rebita, nem do Kabetula. E principalmente o carnaval com aqueles instrumentos que a gente conhece, que faziam parte desta tónica cultural que é importante… Mas esquecem-se que há outros instrumentos que nós podemos introduzir ou  valorizar: a marimba, a cacocha, o hungu, o quissange, etc..

Nós estamos um pouco  desfasados no tempo e no espaço e somos muito complexados.

PA – Então quer dizer  que o semba precisa de escola?

(Video Damia)

B – O semba não precisa de escola. O semba precisa de viver com gente que reconhece, que faz e que executa. Tal qual ele estava a ser feito. Agora, eu também não estou a cantar o semba do folclore, do género Kituxi, aliás um grande abraço para ele aqui, não sei onde é que ele pára, o que se passa com ele. É um grupo que faz falta. Desaparecendo esses grupos e outros aparecerão, sem tomarem em conta que isto tem uma identidade própria, que deve ter  continuidade!

PA – Em termos de organização, o panorama musical não está muito famoso. O que é que Bonga, com a sua experiência, aconselha?

B – Nós temos que ser trabalhadores. Como se trabalha para construir um prédio, devemos ser trabalhadores para construir uma música. Isso é fundamental. Para edificar os nossos ensaios…

PA – Também não há recolha…

B – …E a  programação…Isso envolve uma série de pessoas e coisas que têm a haver. O historiador… Onde é que ele está para nos contar a história e inspirar o compositor? E mais: não nos encontramos amiudadas vezes. Estamos na situação de cada qual por si, Deus para todos.

E nessa correria desenfreada, onde é que estão as entidades encontradas, onde é que estão as pessoas próprias? Eu tenho saudades, por exemplo de um Domingos Van-Dúnem, que desapareceu e era na UNESCO, uma pedra basilar da cultura. Quero falar dum Carlos Lamartine (que ficou no Brasil, uma data de tempo… Cheguei a perguntar-lhe: eh pá, Carlos Lamartine você foi da massificação cultural, então foi para o Brasil, fazer o quê? Foi uma abordagem com harmonia, com plenitude, com graça, com profundidade, com reconhecimento do seu valor. Existe hoje uma inversão dos valores culturais. Enquanto no meu tempo, os velhos, tinham os filhos à sua volta e tocavam música, ou contavam histórias,  hoje os televisores prendem-nos 24/24 horas, com telenovelas, que influenciam sobremaneira, o comportamento das pessoas.

Não temos a TV Escola e isso condiciona as pessoas.

No aspecto social e cultural, dificilmente a gente vê uma negra penteada com o seu cabelo original. O menino lá de casa já não nos cumprimenta com a bênção. Diz-nos: olá e é tudo. Quando se fala da música, ela não está sozinha. Requer todo esse apetrecho que acabei de descrever.

Bonga, um comendador das artes angolanas.

Por: Dias dos Santos 

 

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