BNA vs bancos comerciais: A orquestra vai bastante desafinada

BNA. interiores. (Foto: D.R.)
BNA. interiores. (Foto: D.R.)
BNA. interiores.
(Foto: D.R.)

O que parecia ser um estratagema implementado com vista a evitar o branqueamento de capitais, a limitação de exportação e importação de moeda tem estado por detrás de uma forte polémica cujo desfecho se adivinha imprevisível. Pelo meio, assiste-se a um perigoso jogo de “empurra-empurra” entre as instituições que, em condições normais, deveria explicar melhor o que se passa de concreto. No final, numa luta de elefantes (os bancos), é o capim (clientes) que acaba por sofrer danos maiores diante da babel que se assiste.

E m Janeiro último, um cidadão angolano, que se apresentou como cliente do Banco Internacional de Negócios (BNI), manifestava o seu desagrado com o desempenho dos mesmos da seguinte forma: “é grande a aflição em que os nossos bancos empurraram os cidadãos que carregam os seus cartões de crédito em Angola. Suponho que nesta altura haverá milhares de angolanos que não sabem como pagar as contas dos hotéis ou de tratamentos médicos”. Um outro, com a conta domiciliada no Banco Angolano de Investimentos (BAI), não menos revoltado, disparou: “estou revoltado e indignado.

Fui ao banco de que sou cliente há anos para saber se era possível a compra de dólares. Foi-me informado que para a compra teria que ter bilhete e visto do destino, o que até aceito! Ao dizer que tinha o que pediam, ridiculamente foi-me adiantado que também necessitava ter os salários domiciliados naquele banco, e que tal regra era antiga! O engraçado é que há um ano fiz a mesma operação sem qualquer questão”. Um terceiro elemento foi mais longe na sua intervenção quanto à actuação dos bancos comerciais a operarem em Angola. Agastado com o que passava, simplesmente não teve meias medidas: “o gato continua (…) existe uma máfia bem montada a nível de todos os bancos, começando pelo banco central! Todos eles querem arranjar um culpado, criaram uma embrulhada à volta disto”.

As três exposições apresentadas partilham, na verdade, de um mesmo denominador comum: ninguém, entre o cidadão comum, sabe, de facto,  quem estará a dizer a verdade ou a faltar com ela no jogo do gato e do rato que se assiste actualmente entre o Banco Nacional de Angola e as suas congêneres comerciais. Nos últimos dias, um número nada desprezível de angolanos tem-se deslocado aos bancos comerciais para comprar ou levantar dólares mas têm esbarrado com o nariz na porta: essas instituições, sem qualquer explicação plausível, simplesmente alegam a indisponibilidade de dólares, facto que tem suscitado nos dias que correm uma série de interrogações com vista a melhor compreender o que se passa de facto entre o Banco Central e os comerciais. Com a moeda nacional, o Kwanza, novamente de “tangas”, tem sido uma espécie de corrida ao ouro a busca pelo dólar.

O curioso é que com o passar do tempo ver a cor verde da moeda americana para os mais variados fins julgados legais tem se revelado um exercício hercúleo; um privilégio de alguns, muito poucos, afortunados. A limitação da exportação e importação da moeda tinha sido implementado em Janeiro do ano passado alegadamente tendente a evitar o branqueamento de capitais. Porém, a situação atingiu um quase descontrolo, ao ponto dos discursos apresentarem-se desencontrados.

Ou seja, há uma total falta de sintonia entre o BNA (o gato) e os seus apêndices comerciais (os ratos). É que cada uma das partes procura empurrar a culpa para o outro. O primeiro, o Banco Nacional de Angola garante ter autorizado os bancos a operarem no país a voltar a importar, exportar e reexportar, sem autorização prévia, medida entendida como uma forma de travar a desvalorização do kwanza no mercado informal. Em condições normais, este expediente serviria de um sério aviso para a normalização da situação que se vive actualmente.

Isto é, proceder-se-ia ao retorno das operações à forma como se processavam há precisamente um ano. Aliás, num recente pronunciamento o novo Governador do Banco Nacional de Angola (BNA) deu a entender que o problema não está precisamente no edifício rosa da Marginal de Luanda. Para José Pedro de Morais, os bancos têm divisas disponíveis para as operações por que são solicitadas, visto que a instituição que dirige disponibilizou os tão procurados dólares.

E disse mais: Pedro de Morais destacou também que “antecipações erradas” da actual crise petrolífera por parte de agentes económicos estão na origem das dificuldades no acesso a divisas, deixando subjacente a inexistência de motivos para as dificuldades que se assistem no acesso aos dólares a partir dos bancos comerciais. “Não houve nenhuma redução da oferta de divisas no mercado cambial, vendidas pelo BNA aos bancos comerciais”, garantiu o governador.

E reforçou: em 2014, por exemplo, as vendas de dólares através de leilões aumentaram 34 por cento em relação ao ano de 2013, cifrando-se, em termos médios, em USD 1500 milhões mensais. “Foi exactamente este valor que vendemos durante o mês de Janeiro, 1500 milhões de dólares ao mercado bancário. Significa isto dizer que não há nenhuma redução de oferta de divisas no nosso mercado”, sustentou.

Para o homem forte do banco central o problema está, isto sim, nas medidas de protecção adoptadas pelos bancos com o aparente propósito de constituírem reservas para prevenir eventuais dificuldades, face aos efeitos da crise. O que o Governador do BNA pretendeu dizer com isso? Tão somente que os congestionamentos que se assistem ao nível dos bancos comerciais “explica-se porque alguns agentes económicos fizeram antecipações erradas, desenvolveram expectativas negativas em relação ao nosso país, devido a queda do preço do petróleo e resolveram eliminar o risco que tinham de crédito sobre entidades angolanas”. (A Capital)

Por: José dos Santos

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