As Línguas Nacionais no contexto das geofonias insulares

JOSÉ LUÍS MENDONÇA Director do jornal CULTURA (Foto: D.R.)
JOSÉ LUÍS MENDONÇA Director do jornal CULTURA (Foto: D.R.)
JOSÉ LUÍS MENDONÇA
Director do jornal CULTURA
(Foto: D.R.)

A África Austral enfrenta, neste momento, uma crise de comunicação cultural que tolhe o curso normal do intercâmbio e da troca de produtos das indústrias culturais e corta pela raiz o diálogo e o conhecimento mútuo entre os agentes culturais.

Partindo de uma realidade por nós vivida (o espaço da SADC – África Austral e parte dos Grandes Lagos), verificamos que o panorama da cooperação cultural no seio do espaço lusófono – e nos países vizinhos de cada um dos PALOP – é determinado preferencialmente pelo nível das relações económicas e comerciais, mais do que pelo nível dos laços espirituais, histórico-linguísticos e geográficos.

A África lusófona, em detrimento do conceito de independência, continua ainda submetida a uma espécie de camisa de forças linguística, tresmalhada em ‘territórios insulares’ no seio das sub-regiões africanas, cada uma delas agrupadas segundo a cultura linguística ocidental. Estamos perante o fenómeno das insularidades eurolinguísticas, cujas fronteiras são as línguas de origem indo-europeia, no caso vertente, o português, o francês e o inglês.

Por exemplo, a juventude angolana não conhece quase nenhum dos génios da música congolesa ou gabonesa, para não falar dos artistas ou dos jogadores de futebol namibianos ou zambianos, mas muito facilmente nomeiam os europeus ou americanos. Para que um cidadão angolano possa ler Os Intérpretes, de Wole Soyinka, ou Tribalices, de Henry Lopes, terá de esperar pela tradução proveniente de Lisboa ou do Brasil. E é com uma certa frustração, que um cidadão angolano que adora a música africana, tenha de ir a Paris ou ir a Dakar ou a Abidjan para adquirir um CD de Alpha Blondy.

O drama destas geofonias insulares em África reside no facto de que, para podermos comunicar e, desse modo, conhecer os produtos culturais regionais, o cidadão lusófono da África Austral deve possuir ter uma tríplice competência linguística ocidental (português, francês e inglês), muito mais do que o Lingala, o Swahili, o Umbundo, por exemplo, línguas maternas originais.

Esta realidade euro-linguística, da qual é impossível nos abstermos, sob pena de perdermos o comboio da História Universal e a sua ementa de Progresso Tecnológico, impõenos que o ensino até aos doze anos das crianças angolanas deva forçosamente contemplar competências linguísticas eurofónicas, do português, do francês e do inglês que, depois, os alunos irão aprofundar até ao fim do ensino pré-universitário, para poderem dialogar com os países vizinhos e com o resto do mundo, com “Voz Igual”, como escreveu A. Neto.

Nesta era da Globalização unipolar, a inserção do cidadão angolano no universo dos benefícios civilizacionais do Planeta (estamos a falar da Ciência, da Tecnologia e até do Emprego ou do Desporto), requerem, muito mais do que a aprendizagem de uma língua nacional africana, a fluência do Português, do Inglês e do Francês, e esta exigência é extensível a todos os países da África Austral e, diria mesmo, de toda a África. Pedagogia da oralidade comunitária As línguas nacionais não são importantes? São muito importantes. São as línguas da nossa Cultura. Sãos elas que nos formatam enquanto cidadãos africanos, independentemente da cor da pele. Sem elas, perdemos a nossa identidade primária.

Mas estas línguas podem e devem ser ensinadas na comunidade. O exemplo vem dos falantes do Umbundo, cujos descendentes, mesmo nascidos e a viver na diáspora, se comunicam na sua língua materna. Devemos estudar este processo de transmissão da língua, o apego à identidade e os mecanismos de transmissão familiar e comunitária, e estendê-los ao Kimbundo e às outras línguas. O sistema de Ensino em Angola enfrenta inúmeros problemas de gestão administrativa e financeira que o tornam materialmente incompatível com a didáctica escolar das línguas nacionais. Para além de salários e da pedagogia para novos professores, põe-se a questão dos manuais de ensino formal.

Nós somos, portanto, adeptos do sistema de transmissão oral, tradicional, das línguas nacionais. Depois o cidadão, por si só, já na idade da grafia, irá aprofundar o conhecimento e a escrita da língua. A urgência é, pois, organizar uma pedagogia da oralidade familiar, autárquica ou comunitária. Uma questão de segurança nacional As línguas eurocêntricas são línguas da Ciência e da Tecnologia. São as línguas que formatam em nós a cidadania universal.

Devem ser aprendidas, com eficiência, na escola. Sua Exa. o Secretário de Estado da Cultura, Dr. Corné- lio Caley, no encerramento do Congresso sobre Humanidades promovido pela Universidade Agostinho Neto, no jantar-conferência em 18 de Abril de 2014, no Centro de Convenções de Talatona, teceu algumas considerações em torno do tema “Angola: História, cultura e desenvolvimentos – Desafios”.

Quando abordou o nono desafio, o Dr. Caley considerou que “os angolanos têm um nível baixo de enfrentamento das capacidades externas.” E, pensamos nós, uma dessas debilidades de enfrentamento é o fraco domínio das línguas de trabalho universais. No nosso caso, a primeira língua de trabalho burocrático é a língua portuguesa. O Ensino é o elemento natural de preservação da língua como veículo e padrão axiológco de uma cultura e recurso da comunicação internacional.

O ensino da língua veicular tem uma enorme repercussão na vida social e cultural nacional. Esta questão que aqui levantamos é de importância capital. Para nós, ela insere-se na questão da segurança nacional, pois não podemos substituir os técnicos angolanos nos diferentes sectores da indústria e dos serviços, por técnicos mais abalizados em termos linguísticos, imigrantes de Portugal ou doutros países da CPLP.

A escola angolana deve ensinar a literatura através do estímulo à sensibilidade, criatividade e criticismo e da formação do gosto pela leitura, como factor importante de desenvolvimento do pensamento crítico. É urgente fazer evoluir a eficiência e a equidade pedagógica da escola pública. E essas prioridades passam pelo domínio da língua veicular, o português, que leva alunos e professores à assimilação intelectual das outras matérias, sejam elas do domínio das ciências humanas, quanto das ciências exactas. O hábito da leitura torna-se um investimento individual que produz, na idade da razão universitária, os grandes pensadores e pesquisadores, domínios em que Angola ainda se mostra deficitária. (jornalcultura.ao)

DEIXE UMA RESPOSTA