Aos poucos, mídia russa revela intervenção na Ucrânia

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Desde o início da crise, Kremlin nega sistematicamente ter soldados no país vizinho. Mas relatos na imprensa comprovam como militares russos actuam na linha de frente e procuram passar despercebidos.

Em uma entrevista publicada na segunda-feira (02/03) pelo jornal de oposição russo Novaya Gazeta, um motorista de tanque russo ferido confirmou o que muitos já afirmavam há muito tempo – e que o Kremlin nega sistematicamente: que soldados russos actuam contra o Exército ucraniano, ao lado dos separatistas no leste da Ucrânia. E eles, provavelmente, são muitos. Um dia após a publicação da entrevista, o general americano Ben Hodges afirmou em Berlim que os militares dos EUA avaliam o número de russos em cerca de 12 mil.

E esta não é a primeira história do tipo. O jornal russo Kommersant publicou em 19 de Fevereiro uma reportagem surpreendentemente reveladora sobre o envolvimento de soldados russos com separatistas pró-russos no leste da Ucrânia.

O mais surpreendente é que o artigo foi publicado na versão online do jornal, que pertence ao oligarca pró-Kremlin Alisher Usmanov. No texto, o correspondente Ilya Barabanov descreve como conheceu três militares que eram até recentemente soldados temporários do Exército russo, mas que, supostamente por pura convicção, foram combater no leste da Ucrânia na segunda quinzena de Janeiro.

“Ex-mineiros”

Eles contaram que combatem desde 20 de Janeiro ao lado dos separatistas da “República Popular de Donetsk”. Os três afirmam que, antes de viajar, pediram a rescisão do contrato temporário e uma dispensa oficial do Exército russo. Não é conhecido se eles realmente deram baixa nem o status actual dos combatentes. Eles dizem que a ida deles fora aprovada pelos oficiais russos. Numa entrevista ao canal de notícias russo Business FM, Ilya Barabanov disse que teve a impressão de que os jovens foram “voluntariamente” para a guerra.

O jornalista descreve as tácticas dos combatentes profissionais russos no leste ucraniano. Eles lutam na linha de frente e procuram passar despercebidos por jornalistas e outros observadores.

“Somente aqueles que realmente combatem saem de suas bases. Eles cumprem sua missão e retornam em seguida, deixando a ocupação de uma localidade para os membros da milícia local (como os separatistas se autodefinem). Eles gostam de se apresentar como ex-mineiros”, escreve Barabanov.

A táctica visa deixar a impressão que no leste da Ucrânia apenas a população local actua ao lado dos rebeldes, mais ninguém. O presidente russo, Vladimir Putin, também divulga esta mesma versão dos fatos. Recentemente, foi sarcástico em Budapeste ao falar do Exército ucraniano. “É, certamente, sempre ruim perder, especialmente se você perde ao lutar contra ex-mineiros ou motoristas de tractor”, afirmou.

Dados difíceis de obter

“Mas isso não corresponde aos fatos”, disse, em entrevista à DW, Dmitri Pyslar, do Comité das Mães dos Soldados da Rússia. Segundo ele, soldados russos estão lutando, sim, no leste da Ucrânia. E eles também estiveram presentes durante o ataque a Debaltsevo, mesmo após o cessar-fogo acordado.

“Mas já que tudo acontece de forma tão secreta, que é muito difícil obter dados precisos e abrangentes. É impossível determinar o número de soldados que participam de tais operações”, diz Pyslar. “Temos tentado e não conseguimos. Alguns vão, outros voltam. Não é que haja lá na Ucrânia uma tropa o tempo todo estacionada.”

No entanto, activistas russos de direitos humanos duvidam da versão divulgada de que os soldados russos passam suas “férias” no leste ucraniano, indo voluntariamente e sem um contrato válido com o Exército russo.

Valentina Melnikova, da Federação dos Comités de Mães de Soldados, conversou várias vezes com soldados e não achou evidências para essa versão. Ela conta que alguns disseram que foi prometida uma “recompensa” para os que fossem. “Eles se queixaram para nós que não querem ir uma segunda vez para a Ucrânia, porque eles não iam ganhar mesmo nada do tipo”, conta Melnikova, em entrevista à DW.

Soldado russo capturado

Um desses casos foi documentado, através de Melnikova, pelo New York Times. Um órfão chamado Petr Chochlov assinou em 2014 um contrato temporário com o Exército russo. Um dia, de repente, desapareceu de sua base militar sem se comunicar com sua noiva e com seu irmão.

Algum tempo depois, ele apareceu em um vídeo das autoridades ucranianas, como um soldado russo capturado. Mais tarde, o irmão de Chochlov soube que ele foi trocado por soldados ucranianos e que acabou com os separatistas. Mas os representantes do Exército russo afirmam que, oficialmente, Chochlov é um desertor. Em seguida, ele desapareceu Apenas alguns meses depois, um jornalista do New York Times o encontrou em um posto de controle dos separatistas no leste da Ucrânia. Ele disse ao repórter que estava ali voluntariamente.

O governo em Moscovo afirma repetidamente que “não há tropas russas regulares” na Ucrânia. E, de fato, isto pode ser verdade, já que até agora não foram avistadas tropas russas no leste do país. Apenas uma vez, no final de Agosto do ano passado, foi visto um grande grupo de soldados russos na Ucrânia. A justificativa das autoridades russas na época é que eles tinham se perdido cruzando a fronteira sem saber onde estavam. (dw.de)

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