Angola e o nosso futuro

Luanda (Foto: D.R.)
Luanda (Foto: D.R.)
Luanda
(Foto: D.R.)

Há futuro para as empresas portuguesas em Angola? Há menos de um ano, a resposta a esta questão seria inequivocamente positiva.

No entanto, a queda do preço do petróleo está a empurrar Angola para uma nova situação e para fazer face às dificuldades cambiais, o governo angolano decidiu avançar com uma série de medidas que poderão dificultar a viabilidade da atividade de todas as empresas portuguesas que têm negócios no país.

É o verdadeiro efeito dominó: com a queda do preço do petróleo a economia angolana e as suas peças que vão começando a cair, uma por uma, arrastando consigo milhares de empresas portuguesas que têm interesses no país. Face a tudo isto, a questão do futuro das empresas portuguesas em Angola não podia ser mais pertinente. E para dar resposta a esta questão há que fazer muitas contas de cabeça, tentar realizar alguns exercícios de futurologia e, acima de tudo, cruzar os dedos e fazer “figas”, especialmente os menos preparados.

Como representante de uma das quase nove mil empresas portuguesas com presença, atividade e investimentos em Angola, sei bem o que está em jogo. A nova “Contribuição Especial” sobre operações cambiais vai dificultar a vida a muitas empresas que encontraram em Angola e no repatriamento de dividendos ali obtidos uma forma de sobrevivência em Portugal. O aumento exponencial dos custos associados a estas operações elimina grande parte da mais-valia do processo de internacionalização e, no limite, pode mesmo matar as empresas, mesmo as que têm sede em Portugal.

Então, se a descida do preço do petróleo e as medidas aprovadas para a combater reduzem o resultado dos negócios, aumentam os custos operacionais e reduzindo a competitividade, impõe-se a questão que coloquei no início: ainda haverá futuro para as empresas portuguesas em Angola? Ainda que complexa, a resposta é sim, há.

Em primeiro lugar porque, apesar de o petróleo ser ainda um alicerce importante da economia angolana, ao longo dos últimos anos temos assistido a um grande esforço por parte das autoridades no sentido de diversificar as fontes de rendimento doméstico. E porque não nos podemos esquecer que esta é, acima de tudo, uma situação conjuntural e, muito provavelmente, temporária. É um facto que o preço do petróleo está em mínimos nunca antes vistos, mas a verdade é que a tendência natural será sempre para aumentar, embora se perspetive que nunca volte aos valores máximos que atingiu no passado.

Se tivermos em conta que a queda do preço do petróleo se deve essencialmente ao aumento da produção de petróleo de xisto, particularmente nos EUA (o estado do Texas já produz mais petróleo do que o Iraque), o que aumentou exponencialmente as reservas mundiais do “ouro negro”. No entanto, além de os custos associados à produção do petróleo de xisto serem cerca de 2,5 vezes superiores ao custo da extração convencional, os pontos de extração são menos ricos em quantidade do que as habituais bolsas do petróleo de poço. Ou seja, uma vez consumido o excedente produtivo alcançado com o aumento da produção de petróleo de xisto, assistiremos a um aumento muito rápido dos preços. Os principais especialistas estimam mesmo que, no final de 2015, o preço do barril estará novamente acima dos 90 dólares.

Se este cenário se verificar, aquela que é ainda a maior fragilidade da economia angolana poderá vir a ser a arma mais eficaz para ultrapassar este momento. E muito rapidamente. Quando isso acontecer, as empresas que durante este período mantiverem a calma e a aposta em Angola, seguramente colherão os devidos e merecidos frutos. (jornaldenegocios.pt)

Por Fernando Amaral (Managing Partner da Sendys)

 

1 COMENTÁRIO

  1. A sua crónica estava perfeita até ao momento em que abordou o tema petróleo, concretamente sobre o petróleo extraído do xisto. Afirma que o petróleo extraído do xisto apresenta custos de produção 2,5 (!!!) superiores aos dos custos do petróleo tradicional. Não esquecendo que existe muito a dizer sobre o significado de “petróleo tradicional” (onshore ? offshore?) o número que apresenta é totalmente irrealista, nem sei onde o descobriu. Desde Dezembro 2014/ Janeiro 2015 que se preconiza o fim da exploração do petróleo do xisto provocado pelo esmagamento das margens. Bom, estamos a iniciar Abril e a produção norte-americana não pára de aumentar, com o barril firme entre os 50 e os 60 USD. Quando analisam a questão da produção do petróleo do xisto, os analistas cometem o erro primário de esquecer que este é produzido pelos norte-americanos, pessoas que têm a impressionante virtude da pesquisa contínua e incessante da maximização e racionalização de todos os processos industriais ou de outra natureza qualquer. Sentados a ver as coisas a acontecer não encaixa com os norte-americanos. Percebo que quem esteja em Angola gostasse que o petróleo “disparasse” de novo, mas tal não vai acontecer tão cedo, aliás as perspectivas até apontam para nova baixa, considerando o volume anormal de stock de segurança que alguns países (China, por exemplo)estão a constituir e o eminente acordo USA-Irão. Para concluir, vivo e trabalho em Angola desde 2007, tenho dupla nacionalidade e compreendo as “aflições” por que passam as empresas portuguesas em Angola.

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