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Um conservador (televisivo) confessa-se
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Um conservador (televisivo) confessa-se

NUNO SANTOS Jornalista (Foto: D.R.)

NUNO SANTOS
Jornalista
(Foto: D.R.)

O título, caro leitor, é uma provocação, mas – estou certo -, prendeu a sua atenção. É uma provocação, sim (na verdade sou liberal nos costumes), mas quem tem responsabilidades no espaço público e concretamente na programação televisiva não pode, pura e simplesmente, ignorar essas responsabilidades e isso significa ter em conta o contexto em que faz o seu trabalho criativo e o público a quem se dirige. Vem tudo isto a propósito da saída de cena (e rápida) entrada da novela Jikulumessu na TPA, a Televisão Pública de Angola – e que a RTP vai exibir – por causa de um beijo gay que culmina o envolvimento de duas das personagens masculinas da história. A TPA retirou a novela do ar começando por alegar razões técnicas, mas a prova de que hoje falar de censura numa sociedade como a angolana faz pouco sentido é que o tema foi amplamente discutido na imprensa, nos blogues e nas redes sociais. A produtora defendeu o seu trabalho artístico, ainda que aceitasse as críticas dos espectadores, e dias depois a novela, com aparentes “acertos”, estava de novo no ar.

Foi um incidente desagradável? Com certeza que sim, mas todos os envolvidos o resolveram com uma maturidade que merece ser sublinhada sem juízos morais. A democracia leva tempo a construir e a consolidar. Basta andarmos menos de 30 anos para trás e lembrarmos da maneira como Herman José viu as suas entrevistas históricas banidas (censuradas) da RTP por um conselho de gerência que respondia à pressão da sociedade. Na época, Humor de Perdição saiu do ar quando faltavam exibir três programas. O diferendo resolveu-se pouco tempo depois. Herman era já uma primeira figura da televisão, então monopolista, e o caso foi um verdadeiro escândalo num tempo muito diferente daquele em que vivemos hoje, mas já com Portugal a viver em democracia há 14 anos e membro de pleno direito da então Comunidade Europeia.

O que sucedeu em Luanda talvez tenha sido um passo maior do que a perna. No seu caminho, aqui já assinalado, para se aproximar dos produtos feitos nos grandes mercados, os argumentistas de Jikulumessu não contaram com a reação dos setores mais conservadores (e talvez maioritários) da sociedade angolana. Ora, quem faz faz televisão para todos nunca se pode esquecer de quem é o público que tem pela frente. A televisão é muito importante para introduzir novos temas que levem à discussão, mas deve fazê-lo com conta, peso e medida. (dn.pt)

 

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