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Egipto em busca do reencontro com a África
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Egipto em busca do reencontro com a África

Mona Omar (Foto: Morten Juhl)

Mona Omar (Foto: Morten Juhl)

Existe o pensamento errado de que há gente a viver em árvores, e o de que o Egipto não existe senão nos textos bíblicos.

Foi assim que Mona Omar, embaixadora emérita e membro do Conselho Egípcio para as Relações Exteriores, procurou ilustrar o descaso e a percepção estereotipada que tem afectado as relações do seu país com os países ao sul do Sahara, marcadas por um desconhecimento mútuo entre os povos das duas regiões do continente africano.

Para Mona Omar, que partilhou a mesa, no encontro com jornalistas de 15 países africanos, com outras figuras de referência da diplomacia egípcia do passado, como os embaixadores Elsayyed Shalaby, Rober Eskandare e Mohamed Mounir Zahran, urge que expressões como “África ao Sul do Sahara” e “África do Norte” passem à história e se encete uma nova era no relacionamento entre os africanos, numa perspectiva de cooperação, estabilidade e desenvolvimento do continente, com vantagens recíprocas.

Disse que, apesar da posição geopolítica que o coloca entre os países do Mediterrâneo, do mundo árabe, do mundo islâmico, da África do Norte e do Sul, o Egipto não negligencia a importância que esta última região tem para si, e defendeu mesmo o reforço das relações e a disposição do seu país de providenciar uma extensiva e multifacetada ajuda para o desenvolvimento do continente.

Enfim, estava assim lançado o início de uma parte importante de uma ampla campanha de reaproximação das novas autoridades do Egipto ao resto do continente, que iniciou com uma ofensiva diplomática cujo roteiro incluiu Angola ao receber um enviado especial do presidente Abdel Fattah Al-Sisi, em Julho de 2014, estava este pouco mais de um mês no poder.

Para o efeito, O Egipto conta com uma Agência de Parceria para o Desenvolvimento (EAPD), anunciada pelo presidente Abdel Fattah Al-Sisi, no seu discurso na 23ª Cimeira da União Africana, em Malabo, Guiné Equatorial, em Junho de 2014.

No seu vasto portfólio de acções, a EAPD que é presidida pelo ministro das Relações Exteriores do Egipto, Sameh Shoukry, conta com programas de cooperação técnica e apoio a países africanos e islâmicos.

Outras acções incluem a organização de programas de formação, seminários, promoção de cooperação com as Nações Unidas, países desenvolvidos, e organizações internacionais, no quadro de uma cooperação Sul-Sul, bem assim como a contribuição com fundos próprios e financiamentos angariados externamente para projectos de desenvolvimento no continente.

No seu objectivo de ajudar a ultrapassar os desafios sócio-económicos no continente, o Egipto considera que sectores como os da agricultura, saúde, educação e tecnologia de informação são pilares essenciais para o alcance do que chama de ”Renascença Africana”.

Aliás, falando a jornalistas africanos, o presidente Sisi reiterou o acima dito e reafirmou que o Egipto do pós-revolução está a trabalhar para o reforço das relações com todos os países do continente.

Sisi, que está no poder há cerca de seis meses, na sequência de eleições presidenciais que se seguiram à deposição do então presidente Mohamed Morsi, explicou que a estratégia das novas autoridades do Egipto, no seu relacionamento com os países africanos, assenta no que chamou “uma verdadeira participação e cooperação em todos os domínios”, visando a estabilidade política para todos os países do continente.

“É chegada a hora de a África ganhar o direito à estabilidade e prosperidade,” sublinhou, advertindo que esse direito “não será conquistado sem os valores da tolerância e do perdão comungados por todas as religiões.”

Por outro lado, Abdel Fattah Al-Sisi apelou a unidade entre todos os países africano no combate ao terrorismo.

Para ele, o fenómeno do terrorismo, que, segundo disse, no passado estava associado a regiões como o Afeganistão, ameaça agora estender-se a todo o continente africano e destruí-lo completamente, se este não estiver unido.

Os desafios que se colocam ao Egipto em torno do imperativo de reaproximação ao conjunto do continente africano passarão, seguramente, pelo esforço que as autoridades instituídas empreendem no sentido de melhorarem a sua imagem interna perante África.

É esta, por exemplo, uma magna oportunidade para o Egipto procurar uma solução sábia para o que ameaça ser um conflito entre si e países da Bacia do Nilo, particularmente a Etiópia.

A Etiópia reclama o direito de construir uma barragem sobre o mais extenso rio do mundo, contra reservas das autoridades egípcias que receiam que tal venha a afectar os seus interesses e necessidades hidroeléctricas.

Em conclusão, o Egipto assume-se como um país do continente africano que está aí, com grandes potencialidades em sectores como a indústria, agricultura, economia, educação e saúde (conta com duas unidades hospitalares com serviços avançados no combate ao câncer e doenças do coração abertos a custo zero para países africanos), com que a África pode contar, uma vez avaliadas, individualmente, as vantagens e desvantagens resultantes deste aceno.

A África parece estar, pois, neste momento, diante de um dizer seu, segundo o qual, “se quiser ir depressa, vá sozinho, mas se quiser chegar longe, vá acompanhado.” (portalangop.co.ao)

por Adão Leda

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