Vietname: Morreu o general Vo Nguyên Giap, o “Napoleão vermelho”

(Foto: Claro Cortes, Reuters)
(Foto: Claro Cortes, Reuters)
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Com 102 anos de idade, morreu um dos maiores cabos de guerra da História universal. Giap tinha no seu palmarés as façanhas únicas de enfrentar três grandes potências – o Japão, a França e os Estados Unidos -, e de derrotar duas delas sem apelo nem agravo. No pós-guerra vietnamita era uma lenda viva, mas também uma personagem incómoda para os dignitários do poder, que faziam os possíveis por silenciá-lo.

Filho de modestos agricultores de uma aldeia na província de Quang-Binh, Giap frequentou a escola em Hué e estudou mais tarde Direito e Filosofia, apoiado por professores que viam nele um talento prometedor e por isso lhe proporcionavam os meios para uma carreira académica impossível de custear para a sua família.

Grupos de autodefesa e guerrilha

Sem qualquer preparação militar, Giap tinha 19 anos quando o líder comunista e independentista Ho Chi Mihn, trinta anos mais velho, o ganhou para a causa. Por algum motivo, o “velho Ho” julgou ver no jovem intelectual um sexto sentido para as tarefas militares e começou por fazer dele o responsável de grupos de auto-defesa do partido.

Tratava-se de uma tarefa ingrata e difícil, levada a cabo com meios exíguos e com riscos pessoais elevados. Giap pagou-os também na sua vida familiar: casado em 1939 com uma militante de quem tinha um filho, sofreu a perda da mulher, capturada, torturada e morta pelos serviços secretos franceses. Depois veio a invasão japonesa e Giap participou na organização de uma guerrilha vietnamita contra os ocupantes.

Militarmente, a ocupação japonesa não se viu ameaçada pela guerrilha. Mas esta constituiu um capital político que Giap, ao lado de Ho Chi Minh, converte numa alavanca para uma semi-independência perante os colonizadores franceses. Mas os acordos estabelecidos com Paris não estavam destinados a durar.

Da guerrilha à guerra convencional

Na guerra de libertação que depois se desencadeou contra a França, Giap foi várias vezes criticado pela sua tendência para substituir a táctica de guerrilha pela criação de grandes unidades, vocacionadas para decidirem a sorte da guerra em grandes batalhas. Desaires sangrentos vieram na altura dar razão aos críticos, pelos pesados custos humanos que sofreram as forças vietnamitas, dizimadas por metralhadoras francesas nas batalhas de Vinh-Yen, Dong-Trieu e Ninh-Binh.

Mas até no rescaldo desses desaires o especialista militar Jean Lacouture reconhecia já a estatura histórica do adversário e comparava-o com Leon Trotsky, o outro grande cabo de guerra do século XX que nunca pusera os pés numa academia militar.

Ora, dois anos depois chegaria verdadeiramente um dos grandes triunfos de Giap: a batalha de Dien Bien Phu, que durou 50 dias contra tropas francesas superiormente armadas e treinadas e que terminou com a captura do Posto de Comando dessas forças.

Considerado um verdadeiro génio da logística, Giap fez desmontar as peças de artilharia para transportá-las através da selva, até ao local de concentração das forças inimigas.

Sobre a importância da logística, explicava o próprio Giap: “Em Dien Bien Phu, para fazermos chegar um quilo de arroz aos soldados que matinham o cerco, era preciso consumir quatro durante o transporte. Utilizámos 260.000 carregadores, mais de 20.000 bibicletas, 11.800 jangadas, 400 camiões e 500 cavalos”. Era o mesmo génio que na década seguinte viria a revelar-se na criação da “pista Ho Chi Minh” – o dédalo de caminhos que alimentariam as forças vietnamitas operando no sul do país contra a ocupação norte-americana.

Uma originalidade – até aparecer Giap

O triunfo de Dien Bien Phu constituía uma extraordinária originalidade histórica. Outros confrontos de grandes dimensões tinham terminado de forma semelhante, como a tomada do Posto de Comando de Von Paulus em Estalinegrado ou do bunker de Hitler em Berlim. Mas era a primeira vez que um grande exército colonial era derrotado por K.O., em contraste com a maioria das lutas de libertação contemporâneas, que triunfavam com uma combinação de factores politicos, económicos e militares, sem decisão clara no campo de batalha.

Nesse sentido, obtinha uma confirmação tardia a tão criticada preferência de Giap pelas batalhas decisivas, que se atribuía ao seu estudo empenhado e admirativo do génio militar de Napoleão Bonaparte. E viria a obtê-la novamente nos anos seguintes, quando o colonialismo francês já saíra de cena, irremissivelmente derrotado, e dera lugar à superpotência norte-americana.

Também aí a recusa, por parte de Giap, de uma estratégia exclusivamente guerrilheira, e a sua audácia de apostar a certa altura o desfecho da guerra em grandes batalhas não ficou isenta de críticas. A ofensiva do Tet, em 1968, foi, por um lado, uma vitória política dos vietminh sobre os norte-americanos – mas uma vitória política alcançada uma vez mais por um preço humano exorbitante.

Giap sofreu então o seu primeiro exílio, de quatro anos, passado em países do Leste europeu. Só voltou a ser chamado quando os bombardeamentos dos B-52 sobre Hanoi criavam uma verdadeira emergência nacional e voltavam a exigir uma direcção militar com as mais altas credenciais. E essa só podia ser a de Giap.

Foi então sob o seu comando que o regime pró-norte-americano de Van Thieu foi varrido do mapa político. Em 1975, as forças do vietminh entravam triunfalmente em Saigão. O desaire norte-americano só não foi tão humilhante como o francês, duas décadas antes, porque a Casa Branca já retirara as suas forças e deixara a guerra entregue aos seus mandatários locais, com poderoso apoio material, mas irremediavelmente desmoralizados.

Resumindo o significado dessa vitória, que teve sobre a superpotência um efeito traumático, e inibitório de outras invasões nas décadas seguintes, Giap afirmava o seguinte: “Tivemos de usar pequenos contra grandes [meios], armas atrasadas para derrotar armas modernas. No final, foi o factor humano que determinou a vitória”.

Persona non grata no pós-guerra

Sobre a tomada de Saigão já correram quase quatro décadas. Nesse lapso de tempo, Giap manteve-se politicamente muito activo, mesmo como nonagenário, e sempre lúcido.

Entre as muitas peripécias que recheiam a sua biografia política posterior aos dois momentos de maior glória – Dien Bien Phu em 1954 e Saigão em 1975 – conta-se o seu afastamento forçado do comando da Forças Armadas, logo em 1976, e a sua demissão de ministro da Defesa, em 1980. Segue-se o V Congresso do Partido Comunista do Vietname, em 1982, em que Giap não é reeleito para a Comissão Política.

Entretanto, mesmo no Comité Central, de que Giap continuava a fazer parte, a sua independência crítica criava incidentes, por vezes no limite da violência física. Segundo relata um outro membro do CC, general Pham Xuân Ân, chegou a ser arrancado o microfone das mãos de Giap para calá-lo. Em 1996, Giap foi finalmente afastado do CC e demitido do cargo de vice-primeiro-ministro.

Destituído de todos os seus cargos, Giap era no entanto quase intocável para os interesses instalados e teve, por isso, a ousadia de falar contra a devastação ecológica que causava a mineração de bauxite pelos chineses nas regiôes do sul do Vietname. De uma extraordinária violência, a sua crítica colocava a acção anti-ambiental dos empresários chineses vários degraus abaixo da que tiveram, em tempos, as empresas mineiras francesas ou soviéticas instaladas na mesma região.

Esta campanha ambientalista, detalhadamente descrita por Al Jazeera, foi a última de Giap, levada a cabo ainda em 2009. O “Napoleão vermelho”, como era conhecido, fechava assim, em beleza, uma carreira singular. (rtp.pt)

 

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