Guiné-Bissau: O triste olhar de António Aly sobre o país de Amílcar Cabral, 40 anos depois

António Aly (OPAIS)
António Aly (OPAIS)
António Aly (OPAIS)

Guiné-Bissau está a celebrar o 40º aniver sário da sua inde pendência nacional (proclamada a 24 de Setembro de 1973). Enquanto cida dão guineense, tem motivos para festejar?

Não! Não tenho. Não tenho e deixei isso claro hoje no meu blog, dizendo que não ia ser actualizado por protesto. Porque estar neste momento fora da Guiné-Bissau, e logo em Cabo Verde, um país que connosco fez a luta de libertação, e ver o desenvolvimento a que aqui se chegou mesmo com todas as dificuldades, o que só mostra que a estabilidade é essencial, deixa-me, por um lado, orgulhoso dos cabo verdianos, e, por outro, extrema mente triste por contraste com o que se passa no meu país. Porque vivemos permanentemente em ins tabilidade, criamos e fomentamos o ódio, passamos a vida na intriga e na matança, e o mais chocante é que não há responsáveis. E o descara mento total foi, agora, a tropa querer que um parlamento também ele ilegal, amnistiasse os crimes que ela própria cometeu. As pessoas que deram o golpe nunca foram à tropa e acabaram por ser incorporadas às pressas, para receberem a farda e o (António) Indjai poder manter a sua guarda pretoriana de analfabetos e assassinos.
Bandidos no poder

A que pessoas se refere especifica mente?

São muitas. Está lá a pessoa que me prendeu e cortou a orelha, no dia do golpe. Todos aqueles jovens que estão hoje em Cumeré para serem militares, nunca antes vestiram a farda. Um dos exemplos é o Madjá da Costa, um dos cabeças do tráfico de drogas que é a mão direita e o pé esquerdo do Indjai e que conheço bem porque foi a pessoa que me prendeu sem ser militar na altura .

Até tenho fotos dele em Cumeré, de boxer, corpo nu e kalashnikov na mão. Não consigo ver em que outro país se possa encontrar soldados assim .
O facto de estar em Cabo Verde acentua ainda mais, na sua per cepção, os contrastes que há nos percursos dos dois países?

Os contrastes são gritantes. A Guiné-Bissau tem um Ministério da Indústria e não sei para quê. Cabo Verde, em contrapartida, fabrica e produz bens e serviços em quase todas as ilhas. Na ilha do Fogo até fabricam vinhos reconhecidos in ternacionalmente, e sei, por exem plo, que o vosso primeiro-ministro foi recentemente à Itália e levou 10 caixas, justamente para promover o que aqui se produz, e bem. Pelo que conheço dos dois países, posso afirmar que a Guiné-Bissau, mesmo com estabilidade, nem daqui a 20 anos chegará ao patamar de desen volvimento que Cabo Verde já atin giu. Porque parece que, lá, ninguém deseja o desenvolvimento do país, que não se constrói com analfa betos no Parlamento, no Governo e nas Forças Armadas. E muito menos com bandidos no poder, pois bandido têm de estar é na cadeia. A diferença gritante é que, em Cabo Verde os traficantes são presos e, quando são condenados, todos os seus bens são confiscados a favor do Estado, enquanto, na Guiné, não se confisca um triciclo de um trafican te. Quando muito, a tropa liga e diz: acabou a audiência. E o Ministério Público e os tribunais obedecem e soltam os bandidos. Isso não é país, nem Estado .

O que é que chamaria, então, à Guiné-Bissau? Um Estado completamente anár quico, onde cada um faz o que quer .

A AGB (empresa de electricidade) chega e corta a luz, e quando dá as costas a pessoa coloca uma escada, liga de novo e as coisas continuam iguais. A pirâmide está invertida, os que sabem e os que são hones tos estão a ser esmagados aqui em baixo, e todos estão reféns daquela gente. Estamos reféns da tropa que faz e desfaz, e não sei para que é que a Guiné pede dinheiro para eleições e a comunidade internacional dá.
Dá razão, então, ao antigo Presi dente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, quando ele é citado pela imprensa a dizer que a instituição militar guineense caiu na delin quência e na tirania?

O comandante Pedro Pires tem autoridade moral para falar como falou. Ele foi combatente da liber dade pelos dois países, foi gover nante dos dois países logo após a independência e, posteriormente, primeiro-ministro de Cabo Verde, país de que veio a ser eleito, por duas vezes, Presidente da Repúbli ca. Neste momento, ele fala como um simples cidadão mas tem toda a legitimidade para criticar a situa ção actual e os seus protagonistas, acima de tudo porque ele gosta da Guiné-Bissau e nós também gostamos muito dele. Existe até, na Guiné, quem discuta sobre a tribo a que pertence: uns dizem que é manjaco, outros que é papel, e há ainda quem pense que ele é balanta. Isso ilustra bem a empatia que existe entre Pedro Pires e povo guineense, e demonstra o quan to ele é querido no meu país. Por isso, acho que o comandante não disse o que disse por mal, e de uma conversa que tive com ele depre endi que até que foi mal interpre tado, intencionalmente ou não .

Mas como tem autoridade moral para isso, aquilo bate e cai e tanto faz que ele tenha dito como não .

Assim como o primeiro-ministro cabo-verdiano terá afirmado que, em Cabo Verde, não se brinca aos Estados, e está muito bem dito .

Porque nós não temos um Estado. E só temos fronteiras porque existem.

1980: O Fim do sonho de Cabral

“O golpe de Estado de 1980. O dia 14 de Novembro de 1980 marca o fim do sonho que Amílcar Cabral idealizou. Eu não sou um saudosista que pensa que a unidade Guiné-Cabo Verde, concebida por Cabral, poderia ter-se concretizado .

Não podia. Mas os dois países tinham tudo a ganhar com uma cooperação estreita e saudável”

Não se pode falar do percurso histó rico da Guiné-Bissau dissociando-o do caminho feito por Cabo Verde. A Guiné-Bissau fez a luta de libertação de maior sucesso em África…

…do mundo. Tivemos a melhor guerrilha do mundo .
…seja, do mundo, e libertou pelas armas o seu próprio território, após o que proclamou unilateralmente a independência, imediatamente reconhecida por toda a comunidade internacional. Unido a Cabo Verde fez a primeira parte do percur so, e depois aconteceu a ruptura .

A Guiné-Bissau desfez a unidade preconizada por Amílcar Cabral, e na última década e meia tem vivido em constante instabilidade. Qual foi, para si, o momento crítico que terá conduzido à actual situação?

O golpe de Estado de 1980. O dia 14 de Novembro de 1980 marca o fim do sonho que Amílcar Cabral idea lizou. Eu não sou um saudosista que pensa que a unidade Guiné-Cabo Verde, concebida por Cabral, poderia ter-se concretizado. Não podia. Mas os dois países tinham tudo a ganhar com uma cooperação estreita e sau dável. Temos, com Cabo Verde, mais afinidades que com qualquer outro país do mundo, mesmo com Portu gal, que esteve presente na Guiné Bissau durante 500 anos, e com os países com os quais temos fronteiras terrestres. O Senegal, por exemplo, é o nosso maior inimigo, e este golpe de 12 de Abril não foi para depor o Cadogo (Carlos Gomes Júnior, antigo primeiro-ministro). Foi por causa do trabalho que Angola vinha fazendo, por exemplo no Porto de Buba (a cerca de 200 km de Bissau), que seria certamente o maior da África Ocidental e viria naturalmente a eclipsar a importância do Porto de Dakar. É um projecto antigo que se ia concretizar com a cooperação An golana, e os senegaleses, sempre que ouvem falar disso, começam a “dar ataques”. O Senegal nunca quis isso, e fez intrigas para provocar o golpe de Estado e, assim, comprometer os investimentos angolanos e promover a saída da MISSANG (Missão Militar Angolana na Guiné-Bissau) do país .

Esses investimentos e a MISSANG eram uma forma de Angola demons trar gratidão pelo que deve à Guiné Bissau, algo de que muita gente não tem sequer noção. A Guiné foi um dos principais palcos logísticos da guerra em Angola, para onde enviou milhares de homens para combate rem os sul-africanos .
Quer dizer que a MISSANG era uma forma de Angola demonstrar a sua gratidão para com a Guiné-Bissau…

Nem mais. E o Fidel Castro disse isso mesmo ao Carlos Gomes Júnior em Cuba. Derramou-se sangue guineense em Angola, assim como se derramou sangue cabo-verdiano na Guiné. A verdadeira vocação da MISSANG era a reforma das Forças Armadas guineenses, um problema que se arrasta desde a independência e nunca foi resolvido, e é por isso que o país vive a situação que todos conhecem, protagonizada pelos militares. Portanto, nós só teríamos a ganhar se puséssemos de lado esse orgulho de merda que nem sei onde fomos buscar e aceitássemos a ajuda que nos chegava de Angola. Os militares criaram um ódio visceral, não só em relação a Angola mas, até, com Cabo Verde, mas felizmente esse ódio não é retribuído. Existem mais de 9 mil guineenses a viver em Cabo Verde, 8 mil dos quais em situação perfeitamente legal…
E as autoridades cabo-verdianas têm promovido frequentemente campa nhas de legalização de emigrantes guineenses indocumentados, o que ainda não aconteceu com qualquer outra comunidade presente no país .

Isso, certamente, não pode ser visto com um sinónimo de ódio em rela ção aos guineenses…

Muito pelo contrário. Por isso, se os militares pensam que tudo o que têm feito e dito contra Cabo Verde e Angola pode pôr em causa as afi nidades e a amizade entre os nossos povos, estão completamente enga nados. Mas devo ser justo e dizer que não é toda a instituição militar que está envolvida nestes desmandos. Há oficiais sérios e honestos, que apenas compactuam porque têm medo .

Existem outros, que acabaram por abandonar o país e não estão envol vidos nas intentonas nem no tráfico de drogas .
O Zamora Induta é um deles?

O Zamora Induta foi deposto, e o que se passou foi um autêntico filme de comédia .
Heróis mortos um por um

Porquê? Ter-se-á tratado de uma encenação?

Foi tudo por ordem do Malam Bacai Sagná, o presidente que mor reu. Aliás, a ordem que ele deu foi para matar o Carlos Gomes Júnior. E quando ele telefona para o Estado maior a informar-se se o Cadogo já estava morto, pergunta onde está o Induta. Quando lhe dizem que estava aí ao lado, ele dá ordens para o deixarem ir embora. Há por aí, a circular, muitas versões, e todas mal contadas, de como se passaram as coisas. Com o Zamora Induta, que foi meu colega de tropa, foi o que aconteceu. Fomos incorporados jun tos em 1986, e ao contrário do que fazem hoje, indo à Tabanka escolher os futuros militares, foram buscar nos aos liceus, numa tentativa de introduzir sangue novo e gente com potencialidades de formação nas Forças Armadas. Éramos jovens com o 11º e o 12º anos de escolaridade .

 

Então, já houve tentativas sérias de reformar as Forças Armadas Guineenses…

Sim. Houve essa tentativa, mas o Nino Vieira foi travado. Mas é preciso entender uma coisa: isso aconte ce porque os militares que hoje se armam em donos do país são gente que nem fez a guerra de libertação .

O António Indjai tem 50 anos e não pode ter participado. O Daba na Walna, que é o disparatento-mor do Estado-Maior, tem quarenta e tal anos e também não pode ter feito a luta de libertação. Por isso pergunto, então, como é que pode ser general? Como é que essa gente pode ter a pretensão de querer falar em nome dos combatentes da luta de liberta ção e reclamar para si privilégios que resultam dessa condição, se nunca, como militares, fizeram nada pelo país?
Então, o mito dos grandes guerri lheiros que habitualmente se associa às Forças Armadas guineenses não passa, hoje em dia, de uma mistifi cação?

Os grandes guerrilheiros guineen ses acabaram por ser todos mortos nesta última década e meia. Estou a falar do Ansumane Mané, do Tagma na Wai, do Tchambú Mané, do pró prio Nino Vieira e de vários outros .

Uns morreram na guerra civil que se seguiu ao golpe de Estado de 1998, outros acabaram por ser eliminados nas sucessivas intentonas que ocor reram depois. Foram sendo mortos um por um, e estes que lá estão agora não passam de impostores .
Quer dizer que a actual institui ção militar guineense não pode ser considerada herdeira do que durante muito tempo foi designada como “as gloriosas FARP” (Forças Armadas Revolucionárias do Povo), do tempo de Amílcar Cabral e dos primeiros anos da independência?

Não. Os que pertenceram às “gloriosas FARP” estão todos sete palmos debaixo do chão. A ac tual hierarquia militar é formada por impostores, que chegaram ao poder porque pegaram em armas e derrubaram os antigos. Tomaram de assalto a instituição militar, e estão a estragar o nome da tropa guineense.

MISSANG era acto de gratidão

“E quando se viu que a reforma era mesmo para valer, os problemas começaram a aparecer e alguns militares, com medo de perder o seu protagonismo, ilegítimo porque conquistado à força, e movidos por interesses completamente diversos dos da Guiné-Bissau, começaram a acusar Angola”
Esta entrevista, sendo uma conversa de evocações que envolve necessa riamente sentimentos e emoções, não pode seguir um rumo linear, e somos obrigados a voltar atrás quando necessário. É o caso agora, porque lhe vou pedir que retome mos a questão da MISSANG. Na sua opinião, o que é que correu mal? A MISSANG resultou de um acordo assinado entre os dois países, e o próprio António Indjai esteve envolvido no processo. Previa a reforma das Forças Armadas, na sequência do fracasso de um general espanhol que a União Europeia mandou à Guiné-Bissau com o mesmo objectivo. Os angolanos chegaram, fizeram um levanta mento e começaram a deitar abaixo quase os quartéis para construírem, de raiz, novas e modernas instala ções militares, onde não chovesse dentro das casernas, que tivessem água corrente e que oferecessem condições dignas para a tropa. Para se ter uma ideia da dimensão do projecto, basta dizer que a MISSANG gastava na Guiné-Bissau, só para o funcionamento da própria missão, entre 40 a 50 mil dólares por dia. Até alimentavam os militares guine enses, o que não estava no acordo .

É claro que esse dinheiro não era nada para o Estado angolano, uma vez que só o orçamento anual do exército daquele país cobre três anos do Orçamento do Estado da Guiné Bissau. Por isso, quando digo que não existe Estado na Guiné-Bissau, este dado confirma o que digo .

Voltando ao assunto da MISSANG, demoliram-se o quartel da marinha e outras instalações militares, e até as instalações da Divisão de Trân sito foram deitadas abaixo para se construir uma nova infra-estrutura .

E quando se viu que a reforma era mesmo para valer, os problemas começaram a aparecer e alguns militares, com medo de perder o seu protagonismo, ilegítimo porque conquistado à força, e movidos por interesses completamente diversos dos da Guiné-Bissau, começaram a acusar Angola. As imputações eram que Angola levou armas e outros equipamentos militares, mas tudo o que a MISSANG desembarcou na Guiné estava previsto no acordo, e tudo foi apresentado ao Estado Maior. Mostraram as armas, os tanques e os meios aéreos e navais, e disseram aos guineenses que iam receber formação para operarem aqueles equipamentos que, poste riormente, reverteriam a favor do exército guineense. Havia inclu sivamente helicópteros, e para a sua utilização foi dada formação a pilotos que já não voavam há anos .

Do acordo constava igualmente o fornecimento de 8 aviões caça MIG, completamente novos, que seriam entregues ao exército da Guiné-Bis sau. Foi nessa altura que MISSANG teve conhecimento de que se estava a preparar um golpe de Estado, e o embaixador angolano confrontou com essa informação os que viriam a ser os autores .

Estes negaram, naturalmente, mas pouco tempo depois aconteceu .

Angola já tinha, inclusivamente, avisado o Carlos Gomes Júnior e o presidente Malam Bacai Sagná, na convicção de que este último não sabia de nada, o que não corres pondia à realidade, como se veio a provar. O Cadogo só não se dirigiu à embaixada de Angola para se prote ger para não criar mais problemas .

Ele permaneceu em casa, deu or dens ao seu corpo de guarda-costas para não reagir se viessem prendê lo e, assim, evitarem ser mortos, e o golpe aconteceu com as incidências que todos conhecem .
E assim morreu a reforma das Forças Armadas guineenses e se abortou a MISSANG .

Foi o que aconteceu. E garanto lhe que o que os militares iriam re ceber como pensão de reforma nem eles tinham ideia. Precipitaram-se e deram o golpe, colocando o país na situação caótica em que se encontra e ficando privados de uma reforma digna e uma aposentação tranquila .

E quando o último homem da MIS SANG deixa o Hotel Palace, compra do para alojar a missão, instalou-se aí a embaixada angolana e, nas antigas instalações desta última, a Bauxite Angola, a empresa que ia explorar as jazidas desse mineral em Farim e que já tinha construído uma cidade para os trabalhadores da futura exploração viverem. Tudo isso morreu, assim como o Porto de Buba, cuja concessão já estava feita e a desmatação da área concluída, e que já ia começar a ser construído .

Neste processo, o que as pessoas não conseguiram ver é que, indepen dentemente das posições que se pudesse ter em relação à MISSANG, o resto eram negócios, e que, se algum dia as parcerias acabassem, os angolanos não levariam o porto de volta para o seu país. Mas tam bém, lá está: quando quem dirige as Forças Armadas são analfabetos, é o que acontece .

Guineenses passam fome

O que é que move o António Aly Silva a ter este discurso de amargu ra, tristeza e crítica contundente em relação ao que se passa na Guiné Bissau?

Politicamente, nada. Já tive in tervenção política na Guiné-Bissau quando pertenci ao PRS. Nas eleições de 2009 eu era do partido, mas vi coisas de que não gostei e saí. Por exemplo, à saída da casa do Kumba Yalá para acções de campanha, em todos os carros havia kalashnikovs e isso chocou-me. Disse-lhes que no meu carro não entrava arma nenhuma porque eu não ia para uma guerra e, sim, para uma campa nha política. Por isso, apresentei a minha demissão e saí. Politicamente, nada me move, não quero cargo nenhum na Guiné e nunca vou ser nada, em termos políticos, naquele país. Agora, ser cidadão e lutar por direitos, isso ninguém me tira. No dia em que me derem um tiro, morro e acabou. Mas enquanto for vivo vou reclamar em nome do povo, porque o que me interessa não é aquela meia dúzia de disparatentos que lá estão .

As minhas verdadeiras motivações estão enraizadas no sofrimento do povo, que hoje em dia até passa fome, o que é inconcebível. Como é que se pode falar de fome num país como aquele? As nossas potenciali dades marinhas são enormes, mas as nossas riquezas são roubadas todos os dias; temos muito mais terras cultiváveis, por exemplo, do que o Senegal; temos mais área de água do que de terra; temos uma centena de ilhas; temos 300 quilómetros de costa; e temos um arquipélago que foi declarado Reserva da Biosfera e Património Mundial. A Guiné apenas precisa da ajuda da Comunidade Internacional para se reerguer e afirmar-se, mas terá que ser uma ajuda efectiva, firme e consistente .

Defendo uma força de estabiliza ção com um mandato por tempo indeterminado mas com a duração necessária para o país arrefecer. Isto não pode ser feito em menos de 10 anos. Nesse período, seria possível colocar à frente dos destinos do país os que sabem, e dar instrução aos que não sabem para poderem contribuir de forma útil para o bem-estar comum. O que devíamos todos fazer era reconhecer, clara e humildemente, que falhámos, e aceitar a ajuda necessária para nos recompormos .
Qual é, neste momento, o estatuto legal de António Aly Silva?

Sou um guineense revoltado. Saí da Guiné um mês depois da minha prisão, com problemas de saúde, e fui para Portugal. Tive de fazer três cirurgias para debelar as seque las dos maus bocados que passei enquanto estive preso, altura em que fui espancado e levei coronhadas na cabeça. Depois de ter estado em Portugal regressei à Guiné, um mês depois .

E como é que foi acolhido?

Com respeito, porque não admito ser acolhido de outra forma no meu país. Ou me tratavam com respeito ou teriam de me prender e espancar novamente. Permaneci na Guiné Bissau até Outubro, quando decidi fugir por causa de ameaças, nome adamente d tiros de bazuca. Neste momento não sou exilado nem sou asilado, sou apenas um cidadão da Guiné-Bissau e da CPLP a tentar ver se retoma a sua vida. Se calhar, se tivesse dinheiro ia para Angola, onde até tenho família .

O melhor estadista africano

Isso depende do quê? De uma pro posta de trabalho?

Sim, e iria para lá de bom grado, até porque, como já disse, tenho lá família. Também fui casado duran te 10 anos com uma angolana, do Lubango, de quem tenho um filho .

Se surgisse essa tal proposta ia, sem pensar duas vezes. Vejo Angola com muita simpatia e digo-lhe porquê: porque é um país de futuro e porque, para mim, o presidente angolano é o melhor estadista africano. Chamem lhe o que chamarem, é assim que o vejo. Tem defeitos? Tem, certamen te, porque todos temos. Mas, para mim, o José Eduardo dos Santos tem-se revelado o maior estadista da actualidade, porque manteve o país a funcionar durante longos anos de uma guerra cruel e destrutiva, e conduziu Angola à fase actual, que é bastante auspiciosa. Ser estadista, na minha óptica, é fazer aquilo que o presidente angolano faz. Ele tem o pulso do país. E Angola revela ter uma capacidade de regeneração que nenhum outro país africano demonstrou. É um país fabuloso e tão grande que há sítios onde nem a guerra conseguiu chegar.
Para si, a paz em Angola é irreversível?

Completamente. É tão irreversível a ponto de o presidente angolano ter tido a iniciativa, que revela grande coragem e hombridade, de nome ar um ex-general da UNITA como Chefe de Estado-Maior do Exército .

Isto também mostra que a inclusão, que nunca chegou a acontecer na Guiné-Bissau, é uma realidade em Angola. Há aqui uma lógica de in versão. Angola começou muito mal mas, hoje, está no bom caminho. No meu país, onde tudo começou bem e onde a guerra de libertação foi a mais bem-sucedida do mundo, deu tudo errado, e é uma tristeza reconhecer isso. Mas temos de o fazer e de dizer em voz alta que falhámos em toda a linha, para podermos depois come çar do zero com alguma probabilida de de êxito .
Acredita que, nessas circunstâncias, a Comunidade Internacional não hesitaria em ajudar?

Falei recentemente com o Carlos Lopes, que é o guineense com maior projecção nas Nações Unidas, e ele disse-me que a Comunidade Inter nacional quer ajudar o país mas que não o faz porque, com o que se está sistematicamente a repetir, toda a ajuda resulta em insucesso…
Essa é a opinião de Carlos Lopes, que já foi Secretário-geral Adjunto da ONU…

Sim, e acredito que ele algum dia será Secretário-geral das Nações Unidas. Actualmente ele tem um handicap, que é o de ser cidadão de um país pequeno e insignificante onde, ainda por cima, acontecem reiteradamente estas situações. Isto é mais uma demonstração de como o país está a ser prejudicado pelos militares. Mas a Guiné-Bissau tem que ser ajudada como Timor-Leste foi. E espanta-me a atitude actual de Timor-Leste em relação à Guiné .

Saiu completamente fora do rebanho da CPLP e pôs-se ao lado dos gol pistas. Compra dívida soberana de Portugal, que não precisa tanto como nós, e dá à Guiné dois milhões de dólares. O Governo timorense está a gozar connosco, mas tem que dizer, no seio da CPLP, qual é o seu papel e a sua posição oficial em relação à Guiné-Bissau. A CPLP fala a uma só voz, exceptuando Timor-Leste que tem uma voz dúbia e uma atitude completamente desavergonhada .
As incongruências de Timor, ONU e CEDEAO
Acha que as posições de Timor-Les te, que considera dúbias, têm refle xos negativos no trabalho que Ramos Horta está a fazer como Represen tante Especial do Secretário-geral das Nações Unidas na Guiné-Bissau?

Completamente! Ramos Horta anda “aos papéis” na Guiné. Chegou com muita prosápia mas a tropa acalmou-o e ele baixou a bola. Mas eu alertei-o, numa carta que lhe enderecei no meu blog, para o que ia encontrar na Guiné-Bissau. Eu não tenho mais de 47 anos mas percebo mais daquele país do que qualquer um deles. Porque foi lá que sempre vivi, exceptuando o período em que estive fora a estudar. Agora, é bom que a CPLP pergunte a Timor-Leste qual é o seu papel na Guiné-Bissau .

Na última reunião da comunidade, Angola propôs a manutenção das sanções, e a proposta foi aprovada .

As próprias Nações Unidas, que mantém sanções à Guiné, chamam agora o presidente golpista para discursar na Assembleia-Geral. Isto é completamente incongruente .
A própria CEDEAO também é vista como tendo, em certa medida, legi timado o golpe de Estado…

A CEDEAO, num primeiro mo mento, condenou o golpe, mas no dia seguinte mudou de discurso, por causa da Nigéria que tem aquele quid-pro-quo com Angola. Costu ma-se dizer que dois galos não can tam na mesma capoeira, e é o que acontece entre a Nigéria e Angola. A Nigéria quer fazer valer um estatuto de potência em África que já não lhe pertence porque não conseguiu conservá-lo. Hoje em dia, Angola tem mais força e mais credibilidade que a Nigéria, que além da corrupção generalizada, enfrenta todo o tipo de problemas, como o fundamenta lismo religioso, o crime organizado e os grupos armados que matam, aterrorizam e assaltam petrolíferas .

Se os nigerianos não conseguem resolver esses problemas internos irão resolver os problemas da Guiné? Não vão! Quanto ao Senegal, tem os independentistas de Casamança que lutam num território que era guine ense, e nunca, tampouco, conseguiu resolver o problema, porque o exér cito senegalês veste saias. Não entra no mato para ir procurar os rebeldes .

Fica na estrada a chatear os guine enses que atravessam a fronteira, assaltando-os e roubando-os. Tudo isto prova que, com a CEDEAO, os interesses da Guiné-Bissau não estão em boas mãos, e que, em contrapar tida, a ajuda de Angola era uma boa solução para o país .
Disse há bocado que se dissociou do PRS de Kumba Yalá e da política guineense porque não queria pegar em armas. Pode-se dizer que a sua arma é o seu blog “Ditadura de Consenso”?

Exactamente. O meu blog é a minha arma, e a arma do PRS é uma ala militar que controla o partido .

Na rua do Kumba Yalá em Bissau, a partir das sete horas da tarde, nin guém entra e ninguém sai. Está tudo guardado por tropas armadas com bazucas e kalashnikovs. Ele tem um exército paralelo, como tem a RENA MO em Moçambique .
Vamos voltar a sangrar E as diferenças étnicas?

Como é que funcionam na Guiné-Bissau e em que medida contribuem para esta permanente instabilidade do país? Eu não gosto muito de falar de di ferenças étnicas porque entendo que o guineense não as valoriza muito .

Mudo então a expressão para especi ficidades étnicas .

Isso foi dito ao António Indjai na Costa do Marfim. Disseram-lhe isso mesmo: a tua etnia, que constitui 80 por cento do exército guineense, é que está a rebentar com as Forças Armadas .
Está a referir-se aos balantas, etnia a que também pertence o Kumba Yalá…

Sem dúvida. São os balantas. Eles é que estão a dar cabo das forças armadas e da Guiné-Bissau. Exis tem os do norte e os do Sul, que se diferenciam no nome. Os do Norte, por exemplo, têm no patronímico a partícula “na”, como são os casos de Tagma na Wai e Daba na Walna, e os do sul não. Mas eles têm os seus pac tos, e a canalha anda toda junta. Os bandidos estão activos e estão para durar. Se não for feito nada, teremos outro golpe não tarda. Eu sei isso, vamos sangrar novamente . (opais.net)

Por Orlando Rodrigues

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