Moçambique de novo à beira da guerra civil

(Foto: António Silva/Lusa)
(Foto: António Silva/Lusa)
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Renamo diz que o seu líder está bem e que este ataque põe ponto final aos Acordos de Paz de Roma que em 1992 conduziram ao fim da guerra

Cercado pelas forças governamentais no quartel que lhe servia de base há um ano, em Sadjundjira, o líder da Renamo – Resistência Nacional de Moçambique, principal partido da oposição -, foi ontem obrigado a fugir, encontrando-se agora em parte incerta.

O porta-voz do Ministério da Defesa Nacional, Cristóvão Chume, deu uma conferência de imprensa ao final da tarde de ontem na qual confirmou o assalto à base da Renamo em Sadjundjira, afirmando que as forças do governo posicionadas naquela zona tinham sido “atacadas pelos guerrilheiros” do partido de Afonso Dhlakama e que, por isso, houve uma resposta. Chume adiantou que, “neste momento, não há baixas verificáveis nas Forças de Defesa e Segurança nem nas populações que vivem lá”.

Fernando Mazanga, porta-voz da Renamo, disse ao que a intenção do governo é capturar Afonso Dhlakama, “vivo ou morto”, acrescentando que, na sequência do ataque, o líder do seu partido perdeu o controlo dos seus homens – que, “ameaçados de morte, naturalmente, tudo farão para escapar com vida à perseguição dos militares”.

O porta-voz da Renamo afastou, para já, a possibilidade da tomada da Academia Política no centro de Moçambique vir a desencadear um conflito civil de larga escala, isto depois de Jeremias Pondeca, um membro sénior do partido, ter declarado ao “CanalMoz” que “este ataque representa para a Renamo uma declaração oficial de guerra”.

A acompanhar a situação a partir de Maputo, Mazanga explicou que as consequências da operação realizada conjuntamente pelas Forças Armadas de Defesa de Moçambique e pela Força de Intervenção Rápida (FIR) são imprevisíveis, mas que a Renamo “não acredita na solução militar”, estando a organizar-se politicamente e a desenvolver contactos diplomáticos para negociar uma resolução pacífica para a escalada da tensão político-militar dos últimos meses. “Recurso às armas”, frisou, “só na eventualidade de termos de nos proteger”.

Ao final da tarde de ontem, o “CanalMoz” (publicação online moçambicana) conseguiu contactar Dhlakama. Confirmando que escapara ileso ao assalto que determinou a tomada da sua base no planalto de Gorongosa pelas forças governamentais, o líder da Renamo admitiu que, agora que os seus homens se dispersaram, poderiam ocorrer retaliações sem ordens suas. A mesma publicação adiantou que o quartel foi o palco de uma intensa batalha, com as forças ocupantes a sofrerem pesadas baixas. Uma fonte da FIR reforçou esta mesma versão, afirmando que o número de mortes foi elevado tanto de um lado como do outro.

Na quinta-feira, o exército tinha já ocupado a base de Mucodza, onde estava estacionada uma força da Renamo. No dia seguinte, os homens da Renamo retaliaram na tentativa de recuperar a base mas, diante do aparato militar, foram forçados a recuar. No sábado, o exército decidiu reforçar o controlo na região e montou três postos de verificação, revistando todos os que que entravam e saíam.

O país atravessa um dos momentos de maior incerteza desde que, em 1992, foi assinado o acordo de paz que pôs fim a 16 anos de guerra entre a antiga guerrilha da Renamo e o governo da Frelimo A Renamo recusa-se agora a participar nas eleições autárquicas marcadas para 20 de Novembro, em protesto contra a composição dos órgãos eleitorais que considera favoráveis à Frelimo – partido que mantém a maioria no parlamento desde o fim da guerra.

Ao i, Fernando Mazanga disse que “tudo está agora nas mãos do governo”, tendo o seu movimento adiantado, em comunicado ontem divulgado, que o ataque contra a sua base foi “um acto que tem como consequência a interrupção imediata do diálogo com o governo e que isso põe um ponto final aos Acordos de Roma (AGP)”. (ionline.pt)

Por Diogo Vaz Pinto

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