Líbia tarda em reencontrar a tranquilidade

(envolverde.com.br)
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Passados que são dois anos sobre o desaparecimento físico de Muammar Kadhafi, assassinado por força da intervenção coligada de forças ocidentais a coberto da OTAN, a Líbia continua a ser um país que tarda a reencontrar a tranquilidade perdida e, mais grave, ainda serve para abrigar toda uma série de elementos terroristas que ali buscam refúgio seguro para a sua continuada actividade criminosa.

Pelo país continuam impunes inúmeros grupos de milícias armadas que desafiam uma lei e ordem precárias que os diferentes governos, nos últimos dois anos, foram incapazes de defender. Essa impunidade tem incentivado numerosos grupos terroristas a instalarem-se na Líbia e, a partir de lá, tentarem acções de desestabilização em países vizinhos, como a Argélia e a Tunísia.
Antigos seguidores de Kadhafi continuam a ser um dos alvos mais apetecidos dos diferentes grupos de milícias, havendo mesmo quem ofereça chorudas recompensas para quem conseguir apanhar, vivo ou morto, responsáveis ou familiares, do antigo Governo.
No início do mês, por exemplo, foi anunciada com pompa e circunstância o rapto de uma das filhas  de Abdullah al-Senussi, antigo chefe dos serviços de inteligência do Governo de Muammar Kadhafi e que neste momento está a ser julgado, correndo sérios riscos de ser condenado à morte por enforcamento. Esta situação de instabilidade generalizada está a provocar sérios danos nas infraestruturas da Líbia. Pela primeira vez em muitos anos, a cidade de Trípoli esteve privada de luz durante duas semanas, o que causou a paralisação dos serviços públicos, uma vez que a cidade não está preparada para este tipo de situações.
Durante esse período de trevas a capital líbia foi sacudida por uma série de atentados bombistas, dois dos quais no aeroporto internacional, o que levou à suspensão de saídas e chegadas de aviões. Com a falta de luz também a água começou a escassear na cidade capital da Líbia.
Esta situação não se confina somente a Trípoli, uma vez que em cidades como Benghazi e Sirte, por exemplo, as dificuldades e a insegurança aumentam a cada dia que passa. Perante a incapacidade do exército em manter a ordem interna, alguns países ocidentais, com a França na linha da frente, estão a tentar elaborar um programa de cooperação que possibilite uma assistência em termos de formação de oficiais instrutores.
Porém, essa tarefa não se afigura fácil, pois no seio do recém criado Comité Supremo de Segurança – uma espécie de estado maior general das forças armadas – existem membros de diferentes grupos de milícias representando interesses diversos e raramente coincidentes.
Esse Comité Supremo de Segurança, que deveria dirigir todos os aspectos ligados às forças militarizadas da Líbia, foi constituído na esperança, muito vaga e já adiada, de que pudesse significar algum tempo de compromisso entre as milícias, de modo a engajá-las no esforço conjunto de se atingir a estabilidade. De acordo com observadores internacionais que vivem na Líbia, a classe política não possui a capacidade de obrigar os militares a respeitarem, nem a lei e ordem, nem também as próprias instituições civis.
Por via disso, tanto os membros do governo como da oposição vivem permanente com o medo de um dia serem vítimas de intenções militares, seja em razão de um qualquer posicionamento ou mesmo de uma intriga palaciana. É este estado de medo permanente que impede a Líbia de se dotar de uma governação forte, capaz de elaborar planos de acção que permitam entreabrir uma janela de oportunidade e de esperança num futuro melhor. Os países ocidentais que, a coberto da OTAN, destruíram a Líbia,  perderam a autoridade moral para impor àqueles a quem deram a importância que ainda julgam ter, a participação num processo que consiga inverter a actual situação.
Há duas semanas, o chefe de actual junta militar que liderou o golpe de estado no Egipto, o general Abdel al-Sissi, visitou a capital líbia tendo-se reunido com o primeiro-ministro Ali Zidan. Embora desse encontro não tenha transpirado nada que seja a verdade, ele foi motivo suficiente para que diversos grupos de milícias reclamassem a demissão imediata de Zidan, ameaçando com actos de desestabilização caso teime em permanecer no poder. O interesse dos militares egípcios em relação ao que se passa na Líbia resulta do facto de existir no pais uma forte congregação religiosa dos Irmãos Muçulmanos que chegou a manifestar-se em solidariedade com o deposto presidente Morsi, levantando mesmo a hipótese de acolher na Líbia alguns dos confrades que estão agora a ser perseguidos no Egipto.
É evidente que tudo isto é absolutamente determinante para que a economia líbia tarde em recuperar o fôlego de antigamente, um facto que está bem expresso no crescente aumento do número de desempregados que são aproveitados para engrossar as fileiras dos diferentes grupos armados.
Os investidores estrangeiros, que logo a seguir à queda de Kadhafi se dispuseram a ajudar a Líbia, desistiram já das suas intenções, virando as suas atenções para outras paragens, eventualmente menos ricas, mas muito mais seguras.Uma das poucas companhias que decidiu investir dois milhões de dólares num projecto ligado ao sector petrolífero teve que pagar mais 10 milhões para criar um sistema de segurança que lhe desse algumas garantias de que não seria afectado pelos grupos de milícias armadas.
Um projecto para a criação de condições conducentes a um diálogo de âmbito nacional está agora em cima da mesa para ser avaliado por algumas organizações internacionais de diferentes continentes. Trata-se de uma ideia que já havia sido levantada há um ano e que só não singrou pelo facto de não haver uma suficiente representatividade por parte dos que detêm o uso das armas e que funcionam de acordo com a “lei do mais forte”.
Sem essa representatividade será muito difícil qualquer tipo de diálogo construtivo capaz de fazer silenciar as armas e dar ao governo, seja ele qual for, a possibilidade de convencer a opinião pública interna de que tem capacidade para impor um programa político adequado aos problemas da Líbia. (jornaldeangola.com)

Por Roger Godwin

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