Intervenções dos EUA no estrangeiro

Belarmino Van-Dúnem (ANGOP)
Belarmino Van-Dúnem (ANGOP)
Belarmino Van-Dúnem (ANGOP)

Ao contrário dos países europeus que têm uma relação histórica com os Estados africanos, por via da colonização, a política norte-americana voltada especificamente para África só foi estabelecida em 1958, quando foi foi criado o departamento para os assuntos africanos.

Mas nessa altura, o interesse estava dirigido para os Estados directores, eleitos com objectivo de servirem de pivot na contenção do comunismo nas regiões africanas.
A base principal daquela política era conter o comunismo com o apoio aos líderes e governos pró capitalistas ou que tivessem declarado ser anticomunismo.
A queda do muro de Berlim, o fim da Guerra-Fria e a globalização do regime neoliberal criaram uma nova filosofia nas relações internacionais. O conceito de não ingerência foi substituído pela não indiferença.
A Organização das Nações Unidas foi chamada para o centro das discussões sobre os conflitos no mundo. Os grupos rebeldes que não se adaptaram ao regime democrático transformaram-se nos novos inimigos do Ocidente, sobretudo quando associados ao terrorismo internacional, à emigração ilegal, ao tráfico de droga e de seres humanos, assim como a  atentados, internos e externos, contra os interesses dos países industrializados.
As forças norte-americanas tiveram a sua primeira intervenção directa em África em 1993 no conflito da Somália, que se revelou desastrosa para Washington, de tal forma que o então Presidente norte-americano, Bill Clinton, jurou que os Estados Unidos nunca mais intervinham em África. Mas o tempo passou, o discurso mudou e mais uma vez houve militares norte-americanos em países africanos. Por sinal, na região mais complexa do continente, África do Norte e por coincidência na Somália.
A primeira tentativa foi a disponibilidade de assessores para a captura de Joseph Kony, do Exército de Libertação do Senhor no Uganda. Os ataques contra as Embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quénia nunca foram esquecidos pelas autoridades norte-americanas.
Por isso não surpreendeu o anúncio do governo dos Estados Unidos sobre o rapto no sábado, em Tripoli, daquele que os norte-americanos dizem ser o mentor dos ataques contra aquelas duas representações diplomáticas. Quase em simultâneo, as bases do grupo rebelde Al-Shabad na Somália também foram alvo de ataques das tropas dos Estados Unidos numa tentativa de capturar o líder daquele grupo que reivindicou a autoria do assalto ao centro comercial na capital do Quénia.
O retorno da intervenção directa norte-americana em África tem uma finalidade que beneficia a comunidade internacional, mas a forma como está a acontecer é que deixa muitas dúvidas e cria um sentimento de impotência nos governantes africanos. No caso das duas intervenções no fim-de-semana quase ninguém duvida ser pertinente a prisão dos terroristas, mas capturá-los sem qualquer aviso às autoridades dos territórios em causa é pouco aceitável.
Na Somália, o governo nem quer manifestou alguma preocupação por as tropas do Estados Unidos terem invadido o seu território para perseguirem o líder do grupo Al-Shabad, mesmo que os norte-americanos tenham garantido que não houve vítimas civis.
Mas na Líbia a situação é mais complexa, apesar de o governo ter manifestado preocupação pelo facto das autoridades norte-americanas terem realizado a operação sem autorização. Os grupos radicais exigiram a libertação do suposto terrorista e ameaçaram o governo.
A situação tornou-se mais grave quando os rebeldes na quinta-feira raptaram o primeiro-ministro que se encontrava num dos hotéis de Tripoli e mantiveram-no retido durante algumas horas em represália pela operação norte-americana.
Se o retorno da intervenção directa norte-americana em África é para continuar há duas ilações a tirar. Uma, os grupos rebeldes que se cuidem, como afirmou o secretário norte-americano de Estado, John Kerry, pois não vão poder continuar a esconder-se, o que pode inibi-los de perpetrar as suas acções. Outra, é desconfortáveis os países saberem que os norte-americanos estão dispostos a entrar pelos seus países para capturar ou atacar alvos que considerem ser um perigo para a segurança dos Estados Unidos. (jornaldeangola.com)

Por Belarmino Van-Dúnem

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