Instantes de Kinshasa

(OPAIS)
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Sobre os congoleses sempre se tiveram ideias préconcebidas mal assentes em estereótipos. As suas cidades, os seus bairros não escaparam a esta visão distorcionária de uma realidade vivente com os seus problemas intrínsecos, como acomete a qualquer sociedade.

Houve quem amplificasse a questão, deixando perene a expressão “isto não é um Congo”. Visão eurocêntrica que, na verdade, só teve razão de ser, porque Patrice Lumumba dirigiu o movimento nacionalista que proclamaria a independência deste portentoso país do coração de África, aos 30 de Junho de 1960, deixando os antigos colonos com o travo amargo da revolução libertária dos filhos do Congo.

Mas, na verdade, nem é preciso um processo contínuo de desmistificação do facto. A RDC, doravante Congo, apenas, está ao alcance de quem queira, sobretudo a sua cidade capital, Kinshasa, já que o Leste deste país, endémico em termos de instabilidade, está uma vez mais mergulhado no turbilhão da violência militar.

Neste texto alternaremos a abordagem situando-nos em Kinshasa, quase sempre, extrapolando algumas ideias para outras áreas, outras vezes.

Tivemos a oportunidade de conhecer Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, na última semana. O alojamento foi num hotel situado na vizinhança da residência oficial do presidente Joseph Kabila, de quem se falou ser comummente visto a conduzir pessoalmente o seu carro sem um aparato de segurança ostensivo.

Monsieur (messiê) Paul, o motorista de serviço, é um cidadão de origem angolana, embora tivesse nascido, crescido, estudado e casado na RDC. Calmo, parco nas palavras, porém, nota-se-lhe nas respostas às perguntas algo muito natural, nada forçado.

E, à propósito do episódio acima reportado, ele foi claro em dizer que “ele é um bom presidente. O primeiro-ministro também, mas as pessoas que lhes rodeiam é que são más”. Depois veio a lista das maldades feitas contra a sociedade que vão desde a falta de pagamento dos salários a tempo, encarecendo o custo de vida do cidadão, a corrupção e outras muitas falcatruas.

Ele próprio diz-se uma das vítimas destas “anomalias” na área do arrendamento da sua casa. “Aqui os senhorios só aceitam um adiantamento de a partir de 10 meses, caso contrário não consegues uma casa”, precisou Monsieur Paul.

Enquanto dirigia pelas boulevards (isso Kinshasa tem) e outros atalhos mais atulhados de carros, que nem por isso engarrafa o trânsito, Paul foi mostrando as principais instituições do Estado, de ensino, cultura e não e só. E uma destas foi a escola de Beaux Arts (Belas Artes) de Kinshasa. Aí tive o pensamento perpassado por conhecimentos adquiridos na universidade sobre os vários centros do saber científico de nível superior existentes no Congo. Sobrevieram nomes como o do académico Valentin Mudymbe, entre outros génios da cultura e das artes como os cantores Franco, Tabu Ley “Rochereaux”, entre tantos. O Congo foi um dos principais centros de produção de conhecimento científico da África Central, em que se destaca a Universidade de Lumbumbashi, onde académicos europeus realizaram muitas experiências científicas e estudos aturados sobre as ciências sociais e humanas.

Depois, apontou o dedo a um imponente edifício e disse “aqui é o Banco Central, é aqui onde se faz a nossa moeda”. Aqui mesmo? “Oui”, respondeu afirmativamente perante o olhar atónito dos acompanhantes, que provavelmente ainda se achavam acorrentados à ideia da desordem, dos caos total, do “pensa que isto é um Congo?”.

De seguida foi respondendo calmamente às perguntas, dizendo que o dinheiro é fabricado ali mesmo por técnicos congoleses e a segurança também é inteiramente assegurada pelos seus concidadãos. Questionado com curiosidade sobre uma hipotética falsificação da nota, Paul garantiu que não eram reportados casos de falsificação da moeda e lembrou que “no tempo de Mobuto, isto sim, é que era um verdadeiro caos. Havia mesmo ministros que tinham em casa máquinas de falsificação de dinheiro”, deixando escapar um leve sorriso.

Aliás, pessoas que lá viveram a era mobutista comentam com frequência um tal de artigo 15 da Constituição que dizia mais ou menos “desenrrasquem-se”.
Sem contentores, mas sempre limpa

Kinshasa é uma cidade com muitas curiosidades para observar atentamente. Nela circulam os mais distintos tipos de viaturas, mas nem por isso se verificam longas filas de engarrafamento. Pelo menos nas grandes avenidas e boulevards tudo flui lenta ou rapidamente. E isso ocorre numa cidade em que não se vêm muitos semáforos.

Outra boa coisa de se ver em Kinshasa é que não há contentores ao longo das estradas sejam elas boulevards ou outras quaisquer. A cidade, no entanto, está sempre limpa. E porque está mais próximo do Equador, região abundante em chuvas, a capital da RDC só podia ser verde e com plantas e árvores da flora da região equatoriana.

A cidade também regista obras estruturantes no capítulo viário, havendo ainda a assinalar a construção de novos edifícios por empreiteiros chineses. Aliás, o Presidente Kabila está a implementar o que ele chama de “revolução da modernidade”.
Um rei perdido nas entranhas de Matongué?

Também nos pareceu tão hilariante quanto improvável acontecer que um rei, muito jovem no entanto, pudesse sucumbir aos encantos do famoso bairro do subúrbio de Kinshasa, o conhecidíssimo Matongué, celebrizado já em músicas de maledicência.

A conversa sobre esta curiosidade tem lugar num local apropriado para encontros de kambas. Nesta, reuniram-se amigos que já estiveram juntos aqui, em Angola, e se reencontraram lá. Era uma tremenda algazarra, a conversa. Chez Ntemba, tida como a melhor discoteca da capital da RDC, onde se pode encontrar o género de todos os géneros, entra no prato que tem como entrada o Matongué. As questões vão sendo colocadas com foco na segurança do lugar. “Olha, saiba que se forem lá, quem vai proteger-vos serão mulheres”, disse um dos congoleses em meio a uma sonora gargalhada.

E o exemplo paradigmático, presume-se que seja repetido até à exaustão para quem queira aventurar-se pelas vielas do famoso bairro, vem do rei de Marrocos. Contam que numa visita à RDC, Mohamed V dribla a segurança, toma um táxi e pede que seja levado até ao Matongué. Chegado ao local deixa o telefone com o taxista e pede para não se retirar do local. Cumprido. Onde se metera o Rei… Depois de dar pela ausência de sua majestade, a segurança liga para o telefone do jovem rei e atende o paciente do motorista a quem é colocada a primeira questão nos termos “onde está o homem branco?”. Lá a segurança é dirigida até ao local e quando pedem que o rei deixasse o local ele terá respondido “estou bem aqui com as minhas irmãs”, congolesas, é claro.

Repetidas vezes questionados sobre a veracidade da estória, em meio a largas gargalhadas foram dizendo que isso aconteceu no Matongué.

Mais gozões ainda dizem que o rei marroquino “perdeu a coroa no Matongué”. “Querem lá ir também?”, perguntavam às gargalhadas, os amigos de lá que antes estiveram cá.

Sem resposta… Verdadeiro ou não o episódio do rei marroquino, em Kinshasa constitui, entretanto, motivo de conversa quando no menú das palavras entra o termo Matongué.

Favelas, ou o que quer que se lhas chamem as há em todo o mundo.

Numa próxima ocasião, não perderemos para conhecer a noite kinshasina, cujo olho do furacão situa-se na famosa discoteca Chez Ntemba.

Angolanos orgulhosos da sua embaixada Debate Sugestão
Como bons cidadãos, visitamos as instalações da embaixada angolana na RDC, situada na Boulevard le 30 Juin. Recebeu-nos, na ausência do embaixador, o cônsul Velasco, que numa breve troca de impressões pontualizou-nos sobre o funcionamento da área sob sua responsabilidade.

Garantiu que o consulado agora funciona melhor, depois de um processo de reorganização. “Antes vinham aqui muitas pessoas obter os seus documentos, mas agora podem ver que só estão aí 50 pessoas e todas serão atendidas”, disse com alguma satisfação, lembrando os dias tristes em que a embaixada estava constantemente apinhada de gente dentro e fora à espaera da vez para obter a sua identificação.

O diplomata não pôde precisar o número exacto de angolanos controlados pela embaixada, mas garantiu que são milhares os nossos concidadãos que ainda vivem na República Democrática do Congo.

Alguns utentes dos serviços da embaixada, reconheceram as melhorias registadas no trabalho dos serviços consulares, avançando ainda como preocupação premente a reabertura, o mais depressa possível, da ligação aérea que a TAAG mantinha entre Luanda e Kinshasa, para facilitar a mobilidade de pessoas e bens. (opais.net)

Por Eugénio Mateus

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