Girl Rising: um filme perturbador

Museu da Cerveja (DR)
Museu da Cerveja (DR)
Museu da Cerveja (DR)

Conheci a Raquel há uns meses em Luanda, numa dessas reuniões marcadas pelo peso a mais do formalismo e que parecem desenhadas, de propósito, para impor barreiras de betão virtual entre as pessoas. É portuguesa, jovem e acelerada na fala, um sinal inequívoco de que pensa a mil e age a mil e picos. Tudo nela é rápido.

Nesse dia, trocámos cartões comerciais com a ligeireza habitual dos ambientes deste lado do mundo, muito diferentes do rigor asiático onde as reuniões só são levadas a sério se os participantes trocarem, previamente, nomes e endereços, que é essa a finalidade primeira e única dos cartões de visita. Nós por cá, devido a um mau e velho hábito qualquer, lemos o conteúdo do pequeno pedaço de papel quando já vamos a descer as escadas ou aguardamos pelo elevador travado algures.

E o passo seguinte é perde-lo por entre a confusão da agenda, bolsos do fato e porta-chaves do carro! Com a Raquel os cartões não se perderam, de parte a parte, auxiliados quiçá pela conversa inspiradora e franca que depois entabulamos primeiro na descida suave do elevador e prosseguiu ao longo de uns cem metros de passeio, pelos lados da Maianga.

A certeza de que conseguimos cuidar de nomes e endereços veio com a retomada dias mais tarde, já pela Internet, do diálogo sobre questões profissionais e as de ordem existencial, banais, pragmáticas e futuristas, numa mistura feliz que só poderia conduzir a um destino: o nascimento de uma amizade festiva, das que precisam do contributo do intelecto e da racionalidade doseada para não falirem.

Tempos depois destes momentos fundacionais em Luanda, abrimos em Lisboa, num verão esplendoroso e à beira Tejo, um segundo ciclo do compromisso feito por ambos de discutir a podridão do mundo. Almoçámos no Museu da Cerveja, com o Terreiro do Paço a dominar a vista, falando ela dos seus delírios reais sobre ajuda ao próximo e falando eu das minhas fantasias de querer um mundo como o idealizaram Martin Luther King, Mahatma Ghandi e Steve Jobs, entre outros visionários de alma e mente desprendidas.

Um dia, com voz serena e profunda, a Raquel confessou-me que achava que aquela reunião que nos fizera amigos teria apenas servido como porta do Destino para juntos fazermos coisas em benefício dos desafortunados da Humanidade. Foi quando soube da sua vocação intensa pelo voluntariado e da vontade que tinha de viajar até ao Haiti quando um terramoto colapsou a capital, Port-au-Príncipe, uma vontade que outros arruinaram porque só queriam por lá enfermeiras e médicas.

No último fim-de-semana a Raquel procurou por mim para vermos, só os dois, Girl Rising, um filme perturbador que, traduzido, dá qualquer coisa como “O Renascer das Raparigas”. Fomos estudá-lo – mais do que visiona-lo apenasna marquise da minha casa, depois de uma batalha com rituais herdados da longínqua cavalaria medieval para tentarmos afastar do acto sério e comovente a imparável Paulinha, que estava encantada com os cabelos compridos e lisos da minha colega de cine improvisado. Contivemos as lágrimas ao longo da cruel sessão, embora não tenha bem a certeza que eu o tenha conseguido e que aquele deslizar de dedos da Raquel pelo seu rosto não quisesse esconder algum quebrantar da coragem.

Nove raparigas de nove países, impedidas de diversas formas de acederem ao ensino e ao saber libertador, relatam experiências que são de partir a alma. Pertencem ao Haiti, à Coreia, ao Perú, à Etiópia, ao Nepal, à Serra Leoa, à India, ao Egipto e ao Afeganistão, devastadas pelo mesmo drama: sem direito à escola, por serem mulheres!

A luta que empreenderam e as conduziu ao triunfo no inferno da exclusão faz do filme não apenas uma superior hossana à dignidade humana mas também, e sobretudo, um ataque brutal à consciência cínica do mundo. No Dia Mundial da Rapariga (hoje, 11 de Outubro), ver Girl Rising é um lancinante apelo deixado ao dever individual de contribuirmos para a derrota da frivolidade e insensatez humanas.

O Memorial Dr António Agostinho Neto em Luanda que exibe esta sexta-feira o fascinante testemunho fílmico, o Grupo da Mulher Africana (GMA) e a ONG Sapana que trabalharam para tão elevado momento, estão, com o belo gesto, na rota dos que acertam nas opções que fazem verdadeiramente falta à Humanidade exaurida. (opais.net)

Por Luís Fernando

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