As relações entre Angola e Portugal

Bandeiras de Portugal e Angola (DR)
Bandeiras de Portugal e Angola (DR)
Bandeiras de Portugal e Angola (DR)

1. O secretário de Estado português dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Luís Ferreira, terminou na sexta-feira a sua curta estadia em Luanda destinada a preparar a cimeira Angola-Portugal.

O político português tratou de situar as relações Angola-Portugal no patamar da excelência e assim afastar quaisquer veleidades que possam afectar o seu bom andamento. Avançou mesmo que o objectivo da cimeira luso-angolana é o de “agilizar, optimizar e criar um sentido estratégico” para a cooperação bilateral e a sua extensão a novas áreas de interesse mútuo.
O governante luso fez ainda questão de sublinhar que a sua visita “decorreu num ambiente fraterno e de grande respeito entre os dois países”. É assim que queremos que as coisas sejam, é assim que as coisas vão continuar a ser – vincou.
“Trato de defender os interesses do Estado português e de defender a cooperação de Portugal com Angola e, nessa medida, a visita é um grande sucesso e deixa-me muito feliz”, concluiu Luís Ferreira.
Pode o leitor dizer que este jornal fez a devida cobertura noticiosa da presença do secretário de Estado Luís Ferreira em Angola e deu o merecido destaque às declarações por si feitas, pelo que era desnecessário reproduzir excertos neste espaço.
Acontece, porém, que Luís Ferreira não se limitou a dizer meras palavras de circunstância para que os jornalistas tivessem com que preencher espaços nos jornais ou tempos de antena na rádio e na televisão.
Resumidamente o que podemos inferir das declarações do governante português, com as quais estamos inteiramente de acordo, é que “as relações entre Angola e Portugal têm ainda um grande potencial de crescimento por explorar e elas devem desenvolver-se na base do respeito mútuo”.
Esperamos que não vá alguém em Lisboa entender que Luís Ferreira deve ir à Assembleia da República dar explicações pelo que disse – e bem dito -, pois não se concebe que as relações entre dois Estados não respeitem premissas básicas.
Uma visão e um discurso pragmático foram o que o visitante trouxe na bagagem. Com isso tratou de enviar um recado claro aos que ainda persistem em manchar as relações entre os dois países sublinhando, nas entrelinhas, que Angola e Portugal têm muito a ganhar e muito também a ensinar se souberem suplantar o subjectivismo que, de tempos em tempos, teima em constituir-se em escolho ao normal desenvolvimento da cooperação bilateral.
De Portugal, e não só, não é novidade que há actores habituados a maldizer Angola e os seus governantes. Alguém dirá certamente que é assim em democracia, mas se aceitarmos que a calúnia e a difamação são o alimento da democracia então ela está irremediavelmente a ser atirada ao caixote do lixo. Não podemos, como é óbvio, admitir que instituições públicas que têm por obrigação preservar os valores da democracia e do Estado de Direito embarquem nesse tipo de jogo.
Como já por diversas vezes foi dito, Angola não está contra as investigações que são levadas a cabo pelas autoridades portuguesas. Mas há que convir que quando um processo está em mãos do Ministério Público e há violação do Segredo de Justiça não pode haver dúvidas que há um grave erro que merece ser reparado e um pedido de desculpas. Não pode haver discussão nesse aspecto. É legítimo mesmo que várias indagações sejam suscitadas por essa violação do Segredo de Justiça, como por exemplo se não terá ocorrido fruto de um acto de corrupção? E porque razão os responsáveis pela violação do Segredo de Justiça não foram responsabilizados? Não devia ser assim, em nome da verticalidade?
A complacência e o tratamento jornalístico dado às matérias envolvendo governantes angolanos, em que o empolamento de números foi das notas de realce e evidenciou de modo claro a intenção de difamar, deixam na lama a moral de quem tem a obrigação de ser guardiã do Segredo de Justiça.
2. A Organização para a Proibição das Armas Químicas acaba de ganhar o Prémio Nobel da Paz, na esteira da proposta feita pela síria para a colocação do seu arsenal sob controlo da ONU e consequente destruição. Os inspectores das Nações Unidas estão já a trabalhar com o Governo de Bashar Al Assad nesse sentido e tudo tem estado a correr normalmente. A entrega do Nobel à organização traz à liça a seguinte questão: depois da Síria, qual será o próximo país onde a Organização para a Proibição de Armas Químicas vai desenvolver o seu trabalho? No Médio Oriente, a Síria não é o único a possuir armas químicas. Assim sendo, que calendário vai a ONU estabelecer para a destruição de armas químicas de outros actores influentes na região? Ou será que depois de toda esta envolvência o mundo volta a esquecer a problemática das armas químicas e as preocupações são atiradas para debaixo do tapete? Se assim acontecer, a entrega do Prémio Nobel não passa de um show off. (jornaldeangola.com)

Por Filomeno Manaças

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