Ao largo da ilha de Lampedusa

Imigrantes ilegais chegando à ilha de Lampedusa (DR)
Imigrantes ilegais chegando à ilha de Lampedusa (DR)
Imigrantes ilegais chegando à ilha de Lampedusa (DR)

À luz do que se foi construindo nas zonas mais sombrias da nossa imaginação, e após o que se foi sabendo sobre o que ocorreu ao largo da ilha de Lampedusa, dei-me a pensar como António Ramos Rosa (agora falecido) “não posso adiar o amor para outro século”.

Arrisco-me afirmar que teria sido um pensamento quase semelhante que obrigou Francisco a cobrir o rosto de vergonha. Aliás, eu mesmo, sinto-me tentado a rememorar outras tragédias de que o mundo também se devia envergonhar, como os episódios igualmente tristes da nossa história recente. Dia a dia, cada vez faz mais sentido repensar no que se passa neste mundo de que fazemos parte e que parece cada vez mais hostil aos humanos que lhe povoam.
Felizmente, nem toda a gente engrena nesta minha toada de de cacôxi, mais apropriada para enterramentos, e assumem atitudes vigorosas. Houve quem descobrisse  no que sucedeu ao largo de Lampedusa um horroroso massacre. Aliás, a tendência geral da opinião pública mundial (?) é de manifestar essa opinião e consequentemente manifestá-la com vaias. O presidente da União Europeia, Durão Barroso, que tem o ingrato papel de se fingir contristado em nome da sua organização, a quem se atribuem uma grande parte do peso da culpa do massacre, experimentou recentemente essa indignação.
Eu não vou até aí, embora tenha notado, como toda gente, que nos novos e duros procedimentos usados pela União Europeia contra os imigrantes deviam pretender atingir algo de muito pior. Isso, aliás, não é nada que ignoremos. Mesmo no nosso país continua por estudar e debater uma Política de Imigração. Arriscamo-nos também, qualquer dia, a dar motivos para nos denegrir, em virtude de eventuais naufrágios das canoas motorizadas que todas as semanas nos invadem, vindas de Ponta Negra com destino ao largo da foz do rio Dande. Imagine-se as emissões noticiosas dos espectáculos indecorosos de jacarés esfomeados a atacar imigrantes. Ninguém que pense que estou a exagerar. Mas regressando ao assunto, eu também penso que não houve a intenção de massacrar por parte da União Europeia, embora o problema dos vistos de entrada tenha resvalado, perigosamente, para as questões formais onde verdadeiramente se gizam os massacres.  No entanto, dos casos paradigmáticos de massacres que tenho conhecimento, dos quais não dou grande relevância aos cometidos durante as nossas guerras intestinas, o do Kuito, após após as eleições de 1992, foi, indiscutivelmente, o que me pareceu mais conforme com a caracterização de massacre, mas mesmo assim, ele não comoveu a comunidade internacional.
Não estou, pois, inclinado a aceitar a ideia de um massacre ao largo de Lampedusa, mesmo que se afirme que o simples socorro aos imigrantes teria sido punido como crime pelas autoridades italianas. Não obstante, nem sequer aceito essa ideia por me perseguir uma suspeita extremamente penosa, e que, de certo modo, me envergonho de exprimir. Às portas da Europa consumou-se um monstruoso suicídio colectivo. Aventa-se, cometido por imigrantes líbios. Perdidas as nacionalidades, uma vez que a sua Nação, destruída pela França e Reino Unido com o apoio dos drones made USA, se desagrega no caos, eles mostram-se como objecto de um derradeiro espectáculo televisivo para a EURONEWS.
Esta é a Humanidade que temos, mas não me atrevi a confessar esta impertinência a ninguém, até porque os corpos dos cidadãos líbios tendiam a virar espíritos nos porões submersos do barco naufragado ao largo de Lampedusa, e cada vez a complicar ainda mais os sobreviventes. (portalangop.co.ao)

Por Arnaldo Santos

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