Horizontes: O futuro que se joga na Síria

Uma eventual guerra civil na Síria pode abalar toda a região. Reuters/Shaam News
Uma eventual guerra civil na Síria pode abalar toda a região. Reuters/Shaam News
Uma guerra civil na Síria pode abalar toda a região.
Reuters/Shaam News

Desde Março de 2011, quando se iniciaram os confrontos na Síria, ninguém se preocupou realmente com o futuro. Como ninguém se preocupou com o futuro da chamada “primavera árabe”. Esta semana, com um pouco de optimismo, poder-se-á acreditar que uma porta está entreaberta.
Moscovo e a Liga Árabe parecem ter-se posto de acordo. A solução política é incontornável porque não há saída militar para o conflito. Será suficiente? Até agora Governo e insurrectos, dentro e fora da Síria, têm sempre colocado condições inimagináveis, que sistematicamente inviabilizaram os esforços das Nações Unidas e da Liga Árabe.
Entre o final da semana passada e o início desta, aparentemente, poderão ter ocorrido desenvolvimentos positivos para a solução negociada, mas, mesmo que assim tenha realmente sido, um longo e complicado caminho está ainda por percorrer. Sergei Lavov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo, foi inequívoco ao afirmar que a guerra não ia levar a nada. A Liga Árabe, que ao longo de décadas de existência se tem mostrado incapaz de fazer mais do que críticas a Israel, saltou para o comboio que já há algum tempo havia arrancado do Kremlin a uma velocidade suficientemente lenta para que terceiros o pudesses apanhar.
Moscovo manifestou-se a favor de conversações directas entre as partes sob a tutela da Rússia e da Liga Árabe. Se alguma coisa foi possível aprender ao longo das últimas décadas é que da Praça Vermelha só saem afirmações destas quando existem garantias de que uma das partes, pelo menos, aceitou abandonar a posição que impedia o processo diplomático.
No início desta semana, segunda-feira, o titular sírio dos Estrangeiros avistou-se em Moscovo com funcionários do Governo russo com quem discutiu a necessidade de por um fim político à guerra. Pela primeira vez o ministro sírio não levantou a tradicional condição de deposição prévia das armas pelos rebeldes antes do início do diálogo. Porém, nada se sabe da posição da oposição, quer no exterior quer a que no terreno combate o Governo. Pouco antes do encontro o ministro russo Lavrov advertia que o tempo escasseava, que não havia solução militar, que a situação se “encontra numa encruzilhada” e que a continuação da luta pode destruir o Estado sírio.
A oposição continua dividida, já o estava em Março de 2011 e a autoproclamada coordenação política no exílio continua a não ter grande ascendente sobre os combatentes. No terreno, o general Salim Idriss, comandante do chamado Exército de Libertação da Síria, não recusava as negociações. Salim é, porém, apenas uma das partes envolvidas, não sendo claro quanto à manutenção ou não de condições para o início do diálogo.
Na Síria vai aumentado o número, peso e influência dos fundamentalistas, financiados por alguns Estados árabes e que se tornam a grande incógnita em torno da iniciativa da Rússia. Para grupos como o Jabah al Haq (Frente da Justiça), a Síria é apenas o início de um movimento que depois de se estender pelo Norte de África e o Magreb, pretende, a partir da Síria, alcançar o Líbano, Jordânia, Iraque e até Israel. Nas zonas de influência deste grupo, liderado por Abu al Homan, rodeado de conselheiros religiosos fundamentalistas, aplica-se rigidamente a lei da Shária. E este é apenas um dos grupos islâmicos estrangeiros que se instalou no país desde o início da revolta.
Já não se trata, ou devia tratar-se, internacionalmente, de uma luta contra o Presidente Assad, contra o seu regime, mas de uma questão muito mais vasta que em nada estabiliza a região e as áreas anexas. Trata-se também, e até em primeiro lugar, de conseguir pôr fim a um conflito que causou já 70 mil mortos, números da ONU, e de não deixar que o Estado e o seu poder central desapareça como está a suceder dia a dia no Afeganistão. Trata-se de, ao contrário do que sucedeu na Líbia, conseguir uma fórmula que mantenha o domínio do Exército, mesmo que sob outro poder político.
Ninguém até agora deu muita importância, pelo menos publicamente, à existência, assumida pelo Governo sírio, de um arsenal químico que até hoje tem estado seguro nas mãos de um Estado e que pode ser dispersado por organizações menos recomendáveis.
Os Estados apoiantes dos revoltosos políticos, internos ou no exterior, têm uma tarefa imensa: obrigar os seus protegidos a sentarem-se a uma mesa de conversações para negociar. Como se isso só por si não fosse uma tarefa fácil, os Estados ocidentais têm de pressionar os seus amigos ou aliados árabes envolvidos no financiamento dos grupos radicais islâmicos a torcer o braço aos seus amparados, cortando-lhes o fornecimento de armas e levando-os para a mesma mesa. E desta vez o Irão não serve de desculpa porque não está ao lado dos radicais, mas empenhado em mudar de imagem.
O caminho até à mesa de conversações nem é fácil nem curto. Vai ser exigente. Num mapa negocial traçado por Moscovo não é difícil acreditar que as armadilhas vão ser múltiplas por quem não pretende ver o Kremlin como actor principal na cena internacional. Mas ao mesmo tempo, se as conversações falharem, Vladimir Putin fica com uma excelente acusação e arma de arremesso contra os países ocidentais numa altura em que a Guerra Fria parece estar presente. (jornaldeangola.com)

Benjamim Formigo

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