CASA-CE nega descontentamento entre militantes e critica OGE 2013

Leonel GomesNa sequência de informação chegada ao Diário Global e divulgada na edição anterior, que dava conta de certo descontentamento no seio de dirigentes intermédios e militantes da CASA-CE, por alegada falta de atenção política e material do líder daquela Coligação, desde as eleições do passado dia 31 de Agosto de 2012, das quais elegeram 8 deputados, contactámos o deputado Leonel Gomes, Secretário Executivo daquela organização política, no sentido de apurarmos o contraditório da referida notícia. Sem papas na língua, o político disse que tais informações advêm de pessoas mal-intencionadas.

Diário Global (DG) –  Senhor deputado queira apresentar-se aos nossos leitores…?

Leonel Gomes (LG) – Chamo-me Leonel José Gomes. Sou o Secretário Executivo Nacional da Convergência Ampla de Salvação de Angola e fruto das eleições e da vontade popular.  Sou deputado à Assembleia Nacional.

Diário Global (DG) – A CASA-CE sente-se realizada com os oito assentos conquistados no Parlamento?

Leonel Gomes (LG) – Nós temos recebido do país e da diáspora, felicitações, pelo facto de, em tão pouco tempo de existência, termos conseguido implantação por todo o país e não só.

Quanto a nós e por aquilo que nos propusemos realizar, no sentido de conseguirmos um maior equilíbrio no Parlamento angolano, o que conseguimos ficou aquém das nossas expectativas. Mas temos que assumi-las de facto,  do que imputar responsabilidades, pese embora a sociedade angolana, saiba o que realmente aconteceu nas eleições do dia 31 de Agosto de 2012.

Impende sobre nós a responsabilidade e o dever de criarmos para o país, os equilíbrios necessários, que permitam efectivar aquilo que são os interesses nacionais. Questões pelas quais se bateram nacionalistas, como Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi, na perspectiva de trazerem para Angola e para os angolanos, a dignidade que nos foi roubada pelos colonos e agora pelos cidadãos que se dizem angolanos.

Só assim se justifica ouvirmos pessoas a questionarem quando é que a independência vai acabar. Quer dizer sente-se uma certa nostalgia do passado colonial, do que dos próprios governantes angolanos, que se encontram há mais de 38 anos no poder, sem satisfazerem as necessidades da população. Ou seja: fazem pior que o colono. Portanto nós surgimos para colmatar este vazio e trazer uma nova perspectiva política, económica e social para Angola e os angolanos.

Queremos aproveitar o nosso passado sofrido, como um trampolim e não como um sofá! Onze anos depois da paz, não queremos mais ouvir desculpas da guerra. Queremos sim fazer um país diferente, com novos discursos. Não é fácil porque com a maioria que temos no Parlamento, continuamos com uma máquina asfixiante, com um desequilíbrio total! Isto é o que nós tentamos evitar nas eleições passadas!

Não conseguimos pelas razões que o povo conhece, mas que continuamos a acreditar num amanhã melhor.

Infelizmente continuamos com grandes discrepâncias sociais. Milhares de crianças continuam fora do sistema de ensino. Faltam hospitais, casas para as pessoas, enfim. Os actuais governantes perderam o norte, daquilo que é o mais importante para as nossas populações. Optaram pelo betão e pelo asfalto, esquecendo-se das pessoas.

Optaram por investir em universidades, deixando para trás o ensino pré-escolar e de base. Enfim uma autêntica inversão das coisas, que deixa a nú, a incompetência e a  falta de visão da actual governação!

DG: Apesar disso fala-se num aumento significativo do orçamento para a área social no OGE-2013…

LG – Eles dizem e está de facto plasmado 33,5% do OGE para a área social, mas tudo é mentira porque a maior parte desses valores vão para subsídio de combustíveis e outros, que não têm nada a ver com a real vida social das populações. Quem se beneficia com o subsídio de combustível são os mesmos que já têm tudo! Não é o pacato cidadão. São eles que têm 30-40 carros; que têm frotas e frotas de camiões, os beneficiários.

Portanto, o aumento não terá nenhum impacto positivo na vida social das pessoas, mas sim nos seus negócios que precisam de combustível. Por isso é grave quando se tenta enganar mais uma vez, de que houve um aumento. Pura mentira! Porque para uma área como a Saúde e o Ensino, sectores fundamentais para o desenvolvimento humano e social vão apenas 5% a 8 %, respectivamente do total do bolo…

E não acredito que haja qualquer desenvolvimento da sociedade, em nenhuma parte do mundo, com este tipo de orçamentos. Daí dizermos que, isso de aumento de dinheiros no sector social é uma falácia!?

Mais do que estabelecer um tecto ideal para o Orçamento Geral do Estado, nós pensamos que o melhor ainda é saber distribuir as receitas, pelas despesas necessárias ao exercício económico 2013. Porque não adianta aprovarmos trilhões e trilhões, se não fizermos uma distribuição equilibrada.

Veja o quão caricato é o que se notou neste Orçamento, num país como o nosso tão heterogéneo como é, tanto do ponto de vista demográfico como geográfico? Até do ponto de vista da geração de riquezas fizemos alocação de verbas iguais a todos os municípios. Como teremos desenvolvimento integral e sustentável?

Quanto à distribuição e alocação de verbas, na nossa proposta de alteração ao OGE solicitamos atenção a três vectores fundamentais: o factor demografia, o factor geográfico e a importância de cada província na geração de recursos por províncias.

Não se pode compreender que, pela sua importância e peso na economia nacional, à província de Benguela seja retirada cerca de 73% das verbas que eles previam para sustentar o Programa de Investimentos Públicos. O que é que eles pensam sobre todo esse corredor de Benguela?

Outra coisa caricata: para o Bié foram menos de 1%. Portanto, alguma coisa não vai bem. Do nosso ponto de vista, esta política vai continuar e, quiçá mesmo, acirrar as assimetrias regionais. Enfim, as coisas continuam centralizadas, o que quer dizer que eles não têm confiança nos governadores provinciais e municipais que eles próprios indicam. Nós não concordamos com isso!

DG – Após  a conquista de oito assentos no Parlamento com que linhas políticas a CASA-CE, pensa coser-se, até 2017?

LG – A CASA-CE, projectou para este ano uma luta política multidimensional fora e dentro do Parlamento. Fora do Parlamento como sabeis, apesar de infelizmente continuarmos a ser barrados pela imprensa pública, estamos engajados na preparação do I Congresso Extraordinário marcado para os 2, 3 e 4 de Abril. Nesse âmbito depois das conferências municipais, estamos agora desde o dia 16, a realizar as conferências provinciais, que infelizmente, mesmo fazendo cobertura, a imprensa pública não faz eco.

Vamos continuar agora nos dias 22 e 23 de Fevereiro com as conferências no sentido de eleger e ratificar as escolhas feitas nos municípios, e assim chegarmos no dia “D” do Congresso com tudo organizado! É o Congresso Extraordinário que vai definir as grandes linhas políticas para os próximos tempos, ou seja; definir estratégias para as eleições autárquicas previstas para 2015, e linhas orientadoras para as eleições gerais de 2017.

Ainda no quadro interno estamos agora no meio da primeira fase de inscrição generalizada de membros que vai até Junho do presente ano, um processo que decorre da melhor forma possível ultrapassando mesmo as nossas expectativas.

Portanto: aqueles que aliciam os militantes da CASA-CE a irem para um certo partido, gostaríamos de convidá-los à seguinte reflexão: para uma CASA-CE que nunca existiu, eleger 8 deputados em menos de cinco meses de existência, quem são os actuais militantes da CASA-CE? Esses sim, são cidadãos nacionais, que reflectindo sobre o país que queremos para os nossos filhos e netos, vieram dar a sua contribuição nesse grande projecto, deixando alguns chamados históricos.

Há muitos militantes que estão revoltados dizendo que “nós viemos dalí e de acolá e não somos tidos nem achados”.  A  eles dizemos que este não é o nosso diapasão, não é a nossa forma de fazer política. Nós não “coisificamos” as pessoas. Queremos sim, dar dignidade e esperança para um futuro melhor às próximas gerações!”

Pensávamos que iríamos ser traídos pelos números preconizados, nessa campanha experimental. Mas ainda não estamos a meio do caminho, nesses seis meses e já podemos dizer que os resultados são positivos. Apenas para dizer que estamos em fase de crescimento progressivo, sempre com o objectivo de realizar Angola e os angolanos!

DG – Agenda para 2013?…

LG – No plano parlamentar, vamos apresentar propostas voltadas para uma Angola diferente! Rumo à diferença, audácia, características políticas aprovadas nas eleições de 2012. Significa que no parlamento vamo-nos pautar por uma postura característica, defendendo os interesses da juventude, dos velhos e velhas, assim como de todos os que confiarem em nós. Daí a realização do Congresso que vai caucionar o nosso modus operandi até 2017. Apesar da maioria existente no Parlamento, que já referi, o MPLA usa-a para impor tudo a todos. Porque infelizmente continuam a pensar que só eles são os donos da verdade e os outros simples serviçais, sem ideias e sem pensamentos.

Nós na CASA-CE temos ideias e pensamentos que serão trazidos em forma de de proposta legislativa para discussão e, quiçá, aprovação no Parlamento, durante essas cinco legislaturas! Essas ideias serão trazidas a debate público, para aprovação em primeira instância, e depois no Parlamento. Aqueles que votarem contra… o próprio tempo os julgará!

DG – Quantos militantes a CASA-CE tem registados actualmente?

LG – Pelo levantamento que temos e apesar do factor tempo e material, estamos a andar bem. Vencido o factor tempo estamos também a trabalhar no sentido de vencermos o outro factor, que além de ser importante é determinante para a vida de qualquer organização, e isso tem várias implicações. Entre elas, as burocráticas.

Já estamos mais organizados e a trabalhar no sentido de sabermos quantos somos, onde estamos e como é que estamos. Para dizer que, sem medo de errar, nesse pouco tempo de existência, em termos de militantes identificados temos à volta de 480 mil a 500 mil militantes comprovados, sem contar os amigos e simpatizantes que por razões materiais, ainda não se inscreveram na CASA-CE, que também é a nossa CASA Comum, por causa do handicap já referenciado.

Por outro lado, em virtude de termos que vencer o factor tempo, por causa das eleições que estavam à porta, tivemos necessidade de começarmos logo a nossa acção política nas grandes cidades e municípios. Por isso estamos bem nesses locais. Não estamos tão bem ao nível das comunas e muito menos nas nossas aldeias.

Por isso uma das grandes discussões no Congresso prende-se com a inversão das coisas, tendo em conta o tempo que temos disponível e a realização das eleições autárquicas em 2015. Ou seja, pensamos começar da aldeia para as cidades, para que até 2017 estejamos presentes em todo território nacional, até nos locais inóspitos (para alguns), a fim de, resgatarmos a dignidade do povo angolano há muito tempo perdido!

DG – Existe descontentamento?

LG – Desde logo nós trouxemos para o país uma forma diferente de fazer política. Nós não queremos (não vamos ser), de maneira absolutamente alguma, partido-Estado. Queremos ser um partido que representa um substrato social para realizar Angola e os angolanos. Isto que fique bem claro! Porque infelizmente, as pessoas habituaram-se ao sistema de Partido-Estado, onde não se percebia e não se percebe até hoje, os limites do partido e do Estado, chegando ao ponto do partido sobrepor-se ao Estado.

Na CASA, não será assim, até porque os nossos militantes são heterogéneos; vieram desde os tradicionais aos menos tradicionais. Esses cidadãos nacionais, que nunca haviam feito política, mas  viram na CASA-CE um espaço de realização. Não tendo resolvido os seus propósitos iniciais neste espaço de tempo, é natural que digam isso! Porque nós não temos política de alimentar pessoas economicamente, mas sim com ideias, perspectivas de vida e valores.

DG –  Não respondeu à minha questão, senhor Secretário. Militantes descontentes?

LG –  Não é verdade o que dizem por aí. Porque, de Outubro a Janeiro fizemos as conferências municipais, com vista à realização do Congresso. Naturalmente tivemos um interregno para respeitar o Dia da Família e do Ano Novo, até dia 15 de Janeiro. Mas no dia 26 de Janeiro concluímos  as conferências municipais, e agora estamos inseridos na realização das conferências provinciais. Portanto, só uma pessoa  distraída ou imbuída de outras intenções pode dizer que nós não estamos a realizar as acções, ou que estamos ausentes das nossas estruturas.

Agora uma coisa é aquilo que nós fazemos e aquilo que os outros não querem que o povo saiba. Estou a falar da manipulação da imprensa pública, que não divulga as nossas actividades. O exemplo mais prático é a conferência do Sumbe que até agora a imprensa nada disse apesar de lá ter estado! Por outro, penso que é por falta de cultura de investigação, por parte de alguns jornalistas, que não vão atrás dos acontecimentos, porque nós sempre convidamos a imprensa. Mas infelizmente, nem todos escrevem o que viram.

TELES DOS SANTOS (Diário Global)

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