Unidades militares transformadas em salões de festas

As unidades militares do Quartel-General das Forças Armadas Angolana, Base Aérea n.º 1 e parte das Oficinas Gerais de Reparações (OGR) do Exército foram transformadas em salões de festas e estabelecimentos comerciais.
As unidades militares do Quartel-General das Forças Armadas Angolana, Base Aérea n.º 1 e parte das Oficinas Gerais de Reparações (OGR) do Exército foram transformadas em salões de festas e estabelecimentos comerciais.

As unidades militares do Quartel-General das Forças Armadas Angolana, Base Aérea n.º 1 e parte das Oficinas Gerais de Reparações (OGR) do Exército foram transformadas em salões de festas e estabelecimentos comerciais.

Entre as três instituições militares, a Oficina de Reparações, localizada na rua Ngola Mbandi, destaca-se das demais unidades por ser a única que conta com salão de festa denominado ‘Club da OGR’ e por ceder terrenos àempresa privada Yideli.

A Yideli tem dois estabelecimentos instaladas na parte frontal da OGR.

A primeira tem um reclame publicitário com fundo azul e letras brancas anunciando serviços de decoração e construção de imóveis.

A segunda, localizada num dos imóveis anexo ao salão de festas, dedica-se à produção de janelas, portas e paredes de alumínios.

Os preços praticados no salão de festa variam em função dos serviços desejados pelos clientes. O simples arrendamento do recinto, com capacidade para 250 convivas, custa dois mil e 700 dólares. Inclui ainda o parque de estacionamento, energia alternativa e seguranças (no caso militares).

Se os clientes preferirem a decoração feita pela ‘casa’, têm de acrescentar mais 15 dólares por pessoa. O bufet com bebida custa 120 dólares por pessoa e sem bebida, 90 dólares.

Caso sejam requisitados os três serviços que o Club oferece, nomeadamente o aluguer do espaço, a decoração e o bufet, o preço fica estipulado em 140 dólares por cada convidado. Este valor pode ser acrescido ainda se em vez das tradicionais cadeiras brancas forem solicitadas outras, mais luxuosas. Para isso, serão mais 20 dólares norteamericanos por cada lugar requerido.

O PAÍS apurou que o dinheiro arrecadado da prestação destes serviços é depositado numa conta domiciliada no Banco de Fomento Angola, cuja titular se chama Madalena Bernardo Carlos.

Os gestores dos salões criados na Base Aérea e no Quartel-General das Forças Armadas preferem dinheiro à vista, contrariamente ao depósito admitido na Oficina Geral de Reparações. Apesar desta exigência, a procura é tão elevada que já não existem vagas para este ano nas duas instituições castrenses.

A equipa de reportagem de O PAÍS constatou que os espaços arrendados funcionam nos dias normais da semana como refeitórios para os militares.

“Já temos todas as sexta-feiras e sábados deste ano preenchidos. As pessoas não só marcaram o lugar como também pagaram 50 por cento do valor do salão”, explicou um dos funcionários que não avançou mais informações porque a secretária, identificada apenas como Esperança, não se encontrava presente.

O nosso interlocutor, que ostenta a patente de sargento, disse que para evitar quaisquer constrangimentos, os inquilinos são orientados a entregar a lista de convidados com três dias de antecedência. Quem assim não proceder acaba também por dificultar o trabalho dos seguranças e corre o risco de ter alguns convidados impedidos de entrarem.

Questionado se nunca registaram nenhuma anomalia devido ao “método rígido” com que fiscalizam à entrada e asseguram os momentos de convívio, o sargento salientou que estão preparados para agirem em todas as circunstâncias.

Por sua vez, Madalena Gomes, 28 anos, contou a este jornal que uma das suas irmãs celebrou, há cerca de três meses, o seu enlace matrimonial no salão dos sargentos da Base Aérea número 1, da Força Aérea Nacional (FAN), na Avenida 21 de Janeiro.

Para conseguirem o espaço, segundo a jovem, tiveram o apoio de um familiar que é oficial superior da FAN e desembolsaram dois mil e 200 dólares.

O arrendamento da sala de oficiais custa dois mil e 500 dólares. A unidade garante apenas o recinto, energia alternativa, parque de estacionamento, mesas, cadeiras e seguranças.

 

Três dias de cadeia por indisciplina 

Dois cidadãos ficaram detidos numa das celas do QuartelGeneral das FAA, na Avenida Ngola Mbandi, por terem tentado resolver um pequeno lítigio pela via da força no interior daquele estabelecimento, no princípio deste mês, durante uma festa que ali decorria.

A confusão ocorreu no mesmo dia em que se comemorava uma festa de noivado no recinto.

Segundo Madalena Gomes, jovens foram detidos por terem violado o regulamento da corporação. Mas foram soltos sem muita burocracia.

A direcção do estabelecimento exige aos seus clientes que especifiquem a modalidade de acesso ao local da festa, para melhor controlar os convidados e excluir os indesejados, quer seja por meio de convite ou de uma relação nominal.

Neste caso, a lista deve ser entregue informatizada e com a assinatura de um dos noivos, no mínimo com três semanas de antecedência.

As regras da casa estabelecem ainda que todas as pessoas que trabalharem para a festa devem receber convites ou ter o nome na lista, sob pena de não entrarem se acontecer o contrário.

“Um dos exemplos que posso dar neste aspecto é o meu. Devido à atrapalhação, esqueci-me de dar convite ao fotógrafo e ele foi impedido de entrar mesmo estando com o equipamento de trabalho, o que provava que era a pessoas que estavamos à espera”, desabafou.

O profissional de imagem só foi autorizado a entrar depois de o noivo ter suplicado aos seguranças, temendo que ficassem sem registo daquele momento tão marcante para a vida do casal.

O Quartel-General das Forças Armadas Angola também está na lista das unidades militares que têm os seus três refeitórios, denominados de Clubes dos Oficias, dos Sargentos e de Praças, a arrendar para os mais variados tipos de festas.

De acordo com as fontes de O PAÍS, o preço dos salões varia em função de quem os solicitar. O valor estipulado pelo recinto exclusívo para os oficiais varia de 2500 a 4500 dólares. O dos sargentos e praças está entre 1200 e 1400 dólares, enquanto o primeiro está cifrado de 1500 a 2500 dólares.

Os salões desta unidade militar são reservados apenas aos seus efectivos e parentes mais próximos.

Caso o interessado não seja militar, deve solicitar a um dos seus parentes ligado à referida unidade que envie uma solicitação por escrito à direcção da mesma, descrevendo a patente, o cargo, número do passe e o objectivo do arrendamento do espaço. A resposta é dada no prazo de 15 dias.

Apesar de o montante cobrado pelo Club dos Oficiais não incluir a disponibilização de mesas e cadeiras, este é o mais concorrido devido ao luxo e requinte que apresenta.

“As pessoas que querem festejar naquele espaço devem solicitá-lo com dois ou três meses de antecedência. Comigo aconteceu desse jeito e só tive êxito porque tive a ajuda de uma das minhas tias que trabalha lá”, contou uma jovem que contraiu matrimónio há três semanas.

“Paguei três mil dólares só pelo salão e tivemos que alugar as mesas e cadeiras noutro sítio.

Eles disseram que não tinham estes meios disponíveis. Mas valeu apenas porque a beleza do recinto compensa o gasto feito”, adiantou.

Para se ter um maior controlo das pessoas que entram e saem, a direcção do Quartel-General mantém apenas um dos portões principais aberto para que as pessoas tenham acesso ao salão de festa.

Instituições como o BIC e BPC também instalaram agências em algumas unidades militares.

 

Paulo Sérgio
Fonte: O País
Foto: O País

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