Privatização de praia deixa pescador com trombose

Paulo Pascoal de 72 anos de idade, 49 dos quais vividos no Morro dos veados, comuna do Benfica
Paulo Pascoal de 72 anos de idade, 49 dos quais vividos no Morro dos veados, comuna do Benfica

Paulo Pascoal de 72 anos de idade, 49 dos quais vividos no Morro dos veados, comuna do Benfica, no município da Samba em Luanda, sofreu uma trombose na sequência do desalojamento forçado a que ele, a sua família e vizinhos foram sujeitos, de acordo com os filhos deste.

Dizem que foram retirados compulsivamente daquela área costeira por elementos da Polícia Militar (PM).

“O velho agora está aqui paralisado, de tal maneira que até para se virar  para um ou outro lado precisa da nossa ajuda”, disse Rosa Pascoal, a filha que acolheu o pai em sua casa, alertando que “o velho já não consegue andar e muito menos falar”.

A casa de Rosa localiza-se na rua da Kangala, próximo da 8ª esquadra policial, no bairro do Prenda, na Maianga.

A senhora albergou o velho num compartimento pequeno adaptado como quarto. A residência possui apenas dois quartos, uma sala, cozinha e casa de banho, partilhados por nove pessoas, antes da crise do seu progenitor.

Além do intenso calor que faz neste sector de casa, o que, na opinião da esposa Teresa da Cunha, 61 , contraria a recuperação progressiva do doente, os  filhos do velho Paulo têm de se ajeitar à pequena dimensão do compartimento quando se torna necessário tirá-lo daí para tratamento ou para o banho.

Entristecida, Mana Zita contou que o pai teve a queda fatal um dia depois de ter sido transferido para as casas azuis do Zango IV, onde começou a lamentar-se  acerca das novas condições de vida a que fora submetido.

“Meus irmãos e a mãe disseram que ele, após à crise, perguntava como ia viver aí sem mar, se ele e a sua família dependiam da pesca e da venda do pescado, para além do aluguer que os banhistas faziam das suas cabanas localizadas à beira mar”, contou.

Vale lembrar que Paulo Pascoal possuía três canoas e 32 barracas feitas de paus e capim, além de outras 11 pertencentes a quatro dos seus nove  filhos. Do aluguer, recolhiam uma receita diária que variava de mil a 2 mil e 500 Kwanzas por barraca, o que garantia à família Pascoal mais de 200 mil por semana, numa praia que todos os dias registava mais clientela do que os abrigos, segundo asseguram a O PAÍS os três  filhos presentes .  Rosa Pascoal informou também a este jornal que os meios de sustento, incluindo as barcas foram queimadas dias após à transferência dos moradores, uma notícia que agravou ainda mais o estado clínico de Paulo Pascoal.

“Os vizinhos do museu da escravatura nos informaram que os seguranças queimaram todos os haveres deixados pelos moradores”, informou a senhora, realçando que estes alegaram apenas terem cumprido ordem de seus superiores.

Em relação à consultas e tratamentos a que o pai foi submetido e ao seu estado de saúde,  a filha conta que já estiveram na clínica Espírito Santo, na Vila Alice e no Hospital do Prenda, onde recomendaram testes de neurologia. “Tem sido uma grande luta para chegarmos com ele aos hospitais, porque não temos carro, nem dinheiro para estar sempre a alugar viaturas,”queixou-se a jovem, anunciando o desejo de ver o pai voltar para as suas actividades no mar.

Quando Zita acabou de expressar tal desejo, Paulo Pascoal, que se encontrava deitado, esforçou-se para falar, tendo emitido apenas alguns sons incompreensíveis.”É sempre assim que ele reage, quando se apercebe que chegou a sua vez de falar”, emendou a esposa.

OCEAN DRIVE ERGUE-SE NA PRAIA

 

A julgar pela denominação contida nas três placas de publicidade colocadas na área que pertencia à praia do Morro dos Veados, Ocean Drive é o nome da organização que se vai instalar no referido espaço.

Alguns seguranças encontrados na tarde de Terça-feira, 25, no portão mais próximo da zona do Museu da Escravatura, informaram tratar-se de uma empresa de hotelaria e turismo. Eles trajavam uniforme de cor cinzenta com o timbre Ocean Drive, o que confirmava serem funcionários dessa organização.

Foram também determinados na proibição de entrada de pessoas estranhas, mesmo se forem apenas banhistas. Os guardas mostraram ter consciência de que a praia é um espaço público, mas emendaram com o facto de estarem a cumprir ordens de seus superiores, cujos nomes preferiram não revelar para não porem em risco o emprego.

Conscientes de que o espaço está vendido e a Ocean Drive vai trabalhar no Morro dos Veados, os habituais banhistas e turistas, encontrados a gozar a praia no Quilómetro 26, perto da floresta, a caminho do Ramiro, esperam que depois de construídos os supostos prédios seja aberta a praia ao público.

“Não vale a pena se meter no negócio dos grandes, eles vão construir prédios ou seja lá o que quiserem ali mesmo e a nós só resta rezar, para que finalizada a obra nos deixem fazer praia”, disse Manuel Pedro de 39 anos, funcionário público.

Para o banhista, a praia do Quilómetro 26 não oferece as mesmas condições que as deixadas no Morro dos veados, pois se revela mais perigosa, devido à intensidade das ondas e por possuir uma profundidade que exige muito cuidado.

Administrador adia esclarecimento

Contactado por O PAÍS, na manhã de ontem, Quinta-feira, 27, o administrador municipal da Samba, Adão Malungo, disse que não estava em condições de se debruçar sobre o assunto, porque se encontrava doente.

O administrador da Samba não se predispôs a indicar alguém da sua equipa para falar em seu nome, alegando que “os meus adjuntos que eu devia indicar para lhe darem algumas informações também se encontram indisponíveis até Sexta-feira, 28, visto que participam esta semana de um seminário”.

Adão Malungo prometeu falar para este jornal tão logo se sinta recuperado, tendo adiantado a sua disponibilidade para a próxima semana.

O terreno ocupado tem um cerco que se estende desde às imediações do antigo controlo do Benfica, até às proximidades do bairro do Museu da Escravatura. Recentemente, o Governo da Província de Luanda determinou o espaço como reserva do Estado, tendo colocado ai e em todo curso, à direita da estrada que dá para a Barra do Kwanza, placas com este indicativo e de chamada de atenção aos cidadãos para não construírem no local.

As referidas placas estão agora dentro do cerco que delimita o espaço ocupado pela empresa Ocean Drive.

Alberto Bambi
Fonte: O País
Foto: O País

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