Portugal da Euro copa, inverno quieto e túmulo de banqueiro mwangolé

Terreiro do Paço
Terreiro do Paço

O inverno, que tem a capacidade cinzenta de amargar a existência dos europeus, não se pode dizer que tenha já chegado a Portugal, ao menos a algumas das suas cidades mais escaladas por nós, angolanos, entre elas a eclética Lisboa, que continua a deslumbrar pela sua fabulosa vocação de concentrar tanta luz natural.

Assim a encontramos e assim a vivemos com a intensidade que sugerem os lugares desenhados com arte e paixão, de um lado a beleza espraiada pelo estuário do Tejo, espectáculo imperdível de cada manhã de sol, e do outro o mistério das colinas, sete ao todo, que a fazem sobranceira sem intimidar, ora parecendo buscar as nuvens e o azul celeste de mais acima, ora precipitando-se ladeira abaixo, como se os fantasmas encorpados nos rústicos caminhos do bairro Alto optassem por uma fuga em massa em direcção à baixa pombalina, deixando nas escarpas, a gemer, os tons iniludíveis do fado. Esta é a aguarela genérica que serve de cenário a uma cidade que se aponta como o segundo maior destino do turismo, em termos de recomendação dos entendidos, que parecem fartar-se dos pictóricos argumentos que há anos privilegiam as Maldivas ou Cancun, Egipto, Nova Iorque ou Rio de Janeiro. Lugar para encontrar gente que, por agora, resiste entre os sobretudos reforçados com cachecóis de cores discretas – cinza e preto quase sempre – e a ligeireza dos trapos de fim-de-semana, num aguerrido esforço por resistir às penas e agruras trazidas pelo frio do norte europeu.

Continuam aos milhares os lisboetas que galgam as calçadas, misturados com turistas que aportam do mundo todo, mas contam-se cada vez menos os que se fazem às esplanadas, aquela que foi sempre a imagem de marca de uma cidade onde Fernando Pessoa cultivava como ninguém a arte de observar caminhares alheios. E o não tomar o espaço dos apetecíveis espaços de contemplação ao ar livre só tem a ver com um elemento cíclico que está de regresso, a crise que atormenta, cruel duende que desperta entre todos um velho hábito lusitano: o de exaltar as misérias da vida, queixando-se com uma dor que muitas vezes é mais folclore que propriamente um desamparo insanável. Porque, pense-se nisso ou não, existem lá longe humanos com o destino bem mais intrincado e obscuro, como os somalis sem comida, verdadeiras almas penadas presas a peles curtidas e esqueléticas, que dificilmente viverão a experiência do retorno vital levadas pela parca cruel.

Luta-se por cá para que a situação não descambe e a fome negra de décadas antigas não regresse, batalha em que Cavaco Silva, o Presidente, parece interessado no protagonismo maior, com os seus alertas meio fugidios para não embaraçar quem anda na governação, sejam eles elementos da sua tribo partidária, os sociais-democratas, sejam eles da única alternância que se conhece, os socialistas.

O futebol, pois…

Não sendo em rigor o jogo da bola o ópio do povo, bem se pode dizer, contudo, que pouco falta para que os flagelados da Europa exaurida encontrem nele o único bálsamo.

Terça-feira à noite ficou-se com a percepção da necessidade extrema de Portugal e as suas gentes encontrarem tão de repente quanto possível motivação para desagravar os embates da crise, que é mais do que tudo falta real de dinheiro nos bolsos dos cidadãos.

A Bósnia, que cinco dias antes se tinha mostrado em sua casa atrevidamente hostil, pagou pela crise e pela imprudência, acabando goleada no ninho da águia encarnada que fez, no caso, a vez de estádio nacional, preferida pela sua condição de maior estádio do país. Foi com raiva que os portugueses receberam os eslavos sobreviventes do processo de fragmentação da velha Yugoslávia do lendário Broz Tito, porque na verdade também haviam sido desproporcionalmente inconvenientes, insultando Cristiano Ronaldo com um zumbido herético, ao ouvido, do nome que com certeza menos paz lhe infunde, o da “pulga” argentina do Barcelona, Messi.

Fomos ao estádio ver como se tortura um adversário erigido, por culpa própria, à secreta condição de inimigo de circunstância, num ambiente escaldante quase fora de controlo, em que até o hino nacional bósnio foi abafado por um pesado coro de assobios. Nenhuma elevação teve aquilo, é certo, mas no futebol, jogo de doida paixão que afasta a racionalidade da vida enquanto decorre, há provocações que não vale a pena nem tentar por temor ao troco.

Escolhemos um ângulo privilegiado para captar sem interferências os sentires alheios, enfiados entre as hostes que pareciam lembrar as valentes defesas da velha Lusitânia do rudíssimo Viriato contra mouros, espanhóis, visigodos, corsários, vikings, romanos e toda a sorte de conquistadores antigos. O evidente ficava-nos à mão mas as subtilezas bem mais de casa, como a estranha indiferença de muitos benfiquistas para com a selecção, explicavamno-las “filhos do estádio da Luz” como o adolescente Tiago Quaresma, filho do meu maior amigo: “Não vibro tanto com a selecção porque não estão lá jogadores do Benfica, basicamente é isso”, diz, com indisfarçável amargura. Ainda assim, junta-se aos quarenta mil outros portugueses que pedem, eufóricos, maior castigo para os bósnios, aos gritos de “só mais 1, só mais 1”.

Quando o jogo enfim termina, com gordos 6-2 no placard, Portugal inteiro acredita que avançou muito na frente ampla aberta do Minho ao Algarve para triunfar sobre os estragos da crise. Canta-se, de novo, o “Heróis do Mar/Nobre Povo, Nação valente/Imortal…”. Não entrou dinheiro com a vitória, mas alguém faz ideia de como ficaria este povo se perdesse a hipótese de estar representado no Euro de 2012 na Polónia e Ucrânia?

O day-after

Dispersa a multidão, dormido um sono sereno com sonhos de grandeza e conquista como nos velhos tempos da descoberta de novos mundos, a manhã atira as pessoas, de novo, para o real da vida sem dribles. Os mais atingidos da escala contentam-se penosamente com o galão que agora se pede a meias no café do bairro e os outros, habituados a um infalível café ao longo de décadas, contam as sobreviventes moedas escondidas no bolso arruinado a ver se há ainda como satisfazer o velho vício. Dói saber que as moedas só completam trinta sofridos centavos que não servem para a minúscula chávena Delta e aceleram o passo desviando os pensamentos para urgências existenciais menos prosaicas, como tomar o transporte público para chegar a tempo ao emprego.

Pelo meio, uma espreitadela nas notícias para ficar a saber que um angolano caiu nas malhas da justiça, e logo quem? Álvaro Sobrinho, o homem forte do Banco da família Salgado em Angola, o Espírito Santo.

Sentem-no como um consolo, percebe-se pelos comentários no metro e na camioneta (o machimbombo de cá) porque, dizem eles, apesar de todas as suas chatices existe gente com o imediato mais negro. Foram sete horas a prestar declarações ao juiz.

No Correio da Manhã, o jornal das muitas páginas a anunciar garotas prontas para açucaradas doidices de alcova, a capa tem a força de um vulcão para o executivo bancário agora caído em desgraça: “Casas de luxo tramam banqueiro”.

E a jornada assim se vive, com o retomar das discussões acesas na Assembleia da República às voltas com o OGE, enquanto que nos jornais o velho dinossauro da política, o patriarca do clã Soares, o velho Mário, faz o que sempre gostou de fazer: atrair as luzes da ribalta. Desta vez anuncia um escaldante livro saído do próprio punho – “Um Político Assume-se”em que diz o que pensa de figuras como Álvaro Cunhal, Cavaco Silva, António Guterres, José Sócrates e Francisco Louçã. Sobre muitas delas, passa como um verdadeiro bulldozer. Sem compaixão!

Luís Fernando em Lisboa
Fonte: O Pais
Foto: O pais

DEIXE UMA RESPOSTA