Pescadores do Cabo Ledo insatisfeitos com a transferência do bairro

Pescadores do Cabo Ledo
Pescadores do Cabo Ledo

Os habitantes do bairro Cabo Ledo da Praia, município da Quissama, província do Bengo, revelaram a O PAÍS, Terça-feira, 8, a sua insatisfação com o plano de transferência da administração comunal que visa colocá-los em outra zona da comuna.

“Têm-nos dito que nos vão tirar daqui e vão colocar-nos lá ao lado do campo de futebol, mas o lugar fica muito distante do mar e isso vai dificultar muito as nossas actividades de pesca”, disseram alguns pescadores que consertavam as redes para mais uma empreitada de captura do pescado.

Importa referir que o bairro está localizado num ponto alto e a menos de 500 metros do mar, elementos que o pescador considera muito importantes para o controlo e decisão para pesca.

“Nós daqui em cima podemos controlar o mar e decidir se dá ou não para ir pescar”, informaram, assegurando-se no clima, coloração das águas marinhas e noutros elementos, que não ousou revelar por constituírem um segredo colectivo dos homens do mar.

A ameaça da retirada dos populares começou em 2010 e os fiscais alegavam a segurança dos moradores, por se tratar de um bairro situado num plano inclinado, soube este jornal de Raimundo, um dos pescadores, que chegou à comuna do Cabo Ledo em 2001, vindo do Sumbe, província do Kwanza Sul.

O pescador desconfia que a administração local pretende ceder ou vender o espaço em causa para algumas individualidades com capacidade para construírem na área instituições hoteleiras e turísticas, já que existem na praia dois estabelecimentos do género e um terceiro em projecção.

O nosso interlocutor, que se mostrou como um conhecedor do dossier que resultou na privatização da praia do Morro dos veados, em Luanda, louvou o facto de as referidas instituições não estarem a proibir a frequência das pessoas ao mar.

“Se fosse como em Luanda, onde já não se pode pescar e banhar nalgumas praias como a do Morro dos veados, eu acho que os dirigentes daqui iam arranjar um grande problema com o povo, porque essa é a praia mais frequentada da comuna do Cabo Ledo.

Quem não se mostrou indiferente à situação foi um grupo de senhoras, que se identificaram como peixeiras, encontradas na praia a escalar o peixe. Elas disseram que o lugar onde a administração está a projectar o realojamento das pessoas é menor em relação ao Cabo Ledo da Praia.

“Se dependesse de nós não iríamos lá, mas como eles é que mandam, temos de aceitar”, consentiram logo a seguir.

Sempre que se toca no assunto da transferência, elas e outras mulheres do bairro vão pressionar o coordenador do bairro a recorrer às entidades da comuna para evitarem as consequências negativas que isso poderá representar na vida da comunidade.

“Infelizmente, ele vai lá e nos diz sempre que lhe mandam acalmar”, contaram entristecidas, ao ponto de questionarem a quem podiam dirigir mais as suas súplicas.

Segundo as peixeiras, os homens da administração local deviam conversar com os moradores, para ouvirem a opinião destes no que toca ao plano de transferência.

“Pode ser que, mesmo com o surgimento de restaurantes e hotéis, não haja necessidade de sairmos daqui”, cogitaram, dizendo que conhecem zonas costeiras de Angola, onde os bairros coexistem com instituições turísticas.

Embora não mostrem resistência em sair do local, os moradores esperam que quando chegar a hora do desalojamento os dirigentes procurem repor as condições infra-estruturais reais ou adequadas ao novo habitat, como chapas de zinco, para a construção dos primeiros abrigos.

As senhoras aproveitaram a ocasião da nossa reportagem para informarem sobre a atitude de alguns conhecidos seus no bairro Sangano, que tiveram de se retirar das proximidades do mar, devido a iguais pressões, tendo sublinhado que muitos foram mesmo saindo por iniciativas próprias, para não se arriscarem ao abandono.

O Cabo Ledo da Praia constitui o lugar mais pesqueiro da comuna e insere-se num conjunto de mais de 10 bairros, destacando-se a Zona Dez, Área social, Kudissanga e o Catambor, no Cabo Ledo-sede, que tem a Norte o Sobe e Desce, Sangano e Canfufu, enquanto na região mais

 

Administração comunal em silêncio

Para obter esclarecimento sobre a retirada dos moradores do Cabo Ledo da Praia, O PAÍS rumou ao encontro da administração comunal, onde abordou o administrador adjunto, que se identificou com o nome de Tavares.

Ele recusou-se a dar qualquer depoimento no concernente, alegando não ter autorização para o fazer, numa altura em que a equipa administrativa de que faz parte tem conhecimento do decreto aprovado, que contempla os municípios de Quissama e de Icolo e Bengo para a província de Luanda.

A inquietação do segundo homem da comuna de Cabo Ledo obrigou a nossa reportagem a contactar o Governo da Província de Luanda (GPL), a fim de se inteirar acerca dos responsáveis pelos destinos da vila até então pertencente à jurisdição do Bengo.

Do GPL, uma fonte anónima considerou tratar-se de uma fase de transição para os administradores da região de Quissama, que possuem um período estimado em cerca de 90 dias para a direcção que lhes foi confiada pelo Governo da província do Bengo.

Depois disso, caberá ao Governo da Província de Luanda nomear ou indicar alguém para dirigir os destinos dessa localidade, que, na pior das hipóteses, passará à jurisdição do município de Belas.

De acordo com a fonte, a permanência dos actuais administradores ou nomeação de elementos oriundos das consideradas terras do “Jacaré bangão” não está fora de possibilidade, já que de forma directa ou indirecta estes pertencem ao Governo de Angola.

“Se se lhes reconhecer competências para as exigências do novo quadro administrativo da província de Luanda, poderão ser confiados para administrar o Cabo Ledo”, reforçou, sublinhando que enquanto durar o período de transição, se vai fazer aquilo que ele prefere considerar como trabalho de casa.

Alberto Bambi
Fonte: O Pais
Foto: O Pais

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