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Mark Parker: Ex-corredor 
de atletismo, foi 
um dos primeiros funcionários da Nike. Entrou em 1979 e chegou a presidente em 2006. “A minha responsabilidade é manter a chama da criatividade acesa”

Uma das palavras que mais se ouvem na sede da Nike é “obsessão”. Também se ouve falar muito em “desporto”, pois a empresa abriga dezenas de ex-atletas profissionais e centenas de dedicados amantes do exercício físico. O espírito de competição e a procura por resultados estão por toda a parte na enorme sede da empresa, na pequena cidade de Beaverton, no Noroeste dos Estados Unidos. Cada um dos prédios ostenta o nome de um atleta conhecido e o campo de futebol, usado pelos funcionários, homenageia o astro brasileiro Ronaldo.

A Nike é realmente especial. Nasceu quando um corredor de atletismo e o seu técnico decidiram aperfeiçoar os ténis fabricados no Japão. Mas uma visita à sala de Mark Parker, presidente mundial da Nike, mostra outro tipo de obsessão — pela arte, pela criatividade e, claro, pela inovação.

Enquanto muitos executivos optam por uma decoração espartana, com fotos de família ou objectos de estimação, Parker trabalha numa sala que não pode ser descrita em poucas palavras. A foto à direita mostra apenas uma parte da sala, mas dá uma ideia da decoração. Quadros, relíquias desportivas, protótipos de produtos e dezenas de ténis cobrem todas as superfícies do escritório. Parker, que começou a trabalhar na Nike em 1979 e fez carreira como designer, é um coleccionador obsessivo.

E é um atleta obsessivo. “Eu era como o Forrest Gump”, disse Parker à EXAME. “Corri 30 quilómetros por dia, todos os dias, durante 15 anos.” Embora esteja em forma aos 55 anos, o joelho já não aguenta essa rotina. Mas agora Parker está noutra corrida: levar a Nike, maior fabricante de artigos desportivos do mundo, à facturação de 30 mil milhões de dólares até 2015 (crescimento de 50% face ao ano passado).

 

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Para isso, Parker conta com a sua própria história na empresa. Um dos produtos mais conhecidos da Nike, a tecnologia Visible Air (que tornou visível a bolha de gás que amortece os impactos nos ténis), foi uma criação sua. Ele também foi o responsável pelo lançamento do sistema Nike+, que permite aos corredores monitorar o seu desempenho. O sistema, que funciona com iPod ou iPhone, foi desenvolvido em parceria com outro executivo famoso pela sua obsessão: Steve Jobs. É do equilíbrio entre Parker, o criativo, e Parker, o executivo, que a Nike depende para sofrer uma das maiores transformações de sempre.

 

O crescimento vai passar pelos mercados emergentes, especificamente o Brasil e a China. Os Jogos Olímpicos de Pequim foram um factor importante para impulsionar a Nike no maior mercado do mundo, que já responde por 1,5 mil milhões de dólares do facturação. A expectativa é que o mesmo empurrão ocorra no Brasil, com o Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, dois anos depois. Mas Parker aponta uma diferença fundamental entre os dois países: “No Brasil, a cultura desportiva é muito elevada. Ela faz parte da identidade do país. Na China, estamos a ajudar a criá-la.”

Não é por acaso que um dos maiores ídolos desportivos da China, o americano Kobe Bryant, que joga basquetebol pelo Los Angeles Lakers — é uma das maiores estrelas da Nike. Apaixonado por arte de rua e fã da dupla de artistas de São Paulo, Os Gémeos, Parker vê no Brasil a confluência entre arte, música e desporto. “É nesse tipo de ambiente que a Nike floresce.”

Inimigos são a pirataria e a falsificação

 

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A imagem premium dos ténis Nike é visível na própria sede da empresa, uma área de quase 800 mil metros quadrados na região de Portland. O campus, em pleno cenário verde, é belíssimo. Os 12 prédios foram construídos ao redor de um enorme lago artificial. Gansos circulam por toda a parte. Dos 36 mil funcionários, 7 mil trabalham na sede. Eles podem usar inúmeros campos para praticar as mais diversas modalidades durante o expediente.

Os dois health clubs — sempre repletos —
são equipados com todo o tipo de aparelho que se possa imaginar. Num deles, há uma piscina semi-olímpica e uma enorme parede para escaladas. Mas a razão para o prémio cobrado pela Nike não está à vista.

A “cozinha de inovação” é um dos locais por onde Parker mais gosta de circular. É lá que os 20 doutorados em especialidades como Biomecânica, Fisiologia do Desporto e Engenharia Biomédica fazem as pesquisas e os testes que levaram à criação, por exemplo, dos ténis Nike Free, que dão a sensação de se correr descalço. Numa sala fechada, os investigadores conseguem simular diversos ambientes para uma corrida: dos gélidos dias de frio da maratona de Nova Iorque ao calor e à humidade do Sudoeste Asiático. A ideia é criar um tipo de roupa que consiga evitar o aumento excessivo da temperatura do corpo. No dia em que EXAME esteve na cozinha de inovação, um grupo de profissionais de futebol americano estava a ser alvo de uma sessão de testes. Mas o espaço é secreto. Quando o grupo de jogadores entrou, a visita acabou.

Quando a ambição gera adrenalina

“Há mais de 30 anos, quando comecei a desenhar ténis de corrida, perguntavam-me: ‘O que mais pode ser feito?’ Hoje, já não ouço essa pergunta”, diz Parker. Mas uma questão que continua a ser ouvida refere-se ao impacto social e ambiental de uma empresa do tamanho da Nike, que subcontrata a produção em mais de 600 fábricas à volta do mundo e emprega indirectamente cerca de 1 milhão de pessoas. Parker assumiu um dos compromissos mais ousados com a sustentabilidade de sempre. A visão que delineou com o vice-presidente Hannah Jones, responsável pela área de sustentabilidade, promete mudar radicalmente a forma como a Nike opera. Até 2050, toda a água usada nas fábricas será devolvida limpa à comunidade, todo o lixo será reciclado e não será usado nenhum tipo de combustível fóssil.”

Mas como ele vai transformar esse desejo nobre em realidade? Um dos primeiros passos foi o que a Nike chamou índice de sustentabilidade. Todos os produtos, desde a sua fase inicial de criação, são avaliados de acordo com dezenas de critérios de sustentabilidade e classificados entre ouro, prata e bronze. Desde meados deste ano, 100% dos novos ténis devem ter obrigatoriamente medalha de bronze. O objectivo foi alcançado. “Esse é um dos méritos de uma empresa como a Nike: se você criar metas ambiciosas, a adrenalina começa a correr nos funcionários”, afirma Hannah.

A história da Nike é uma história de criatividade. Nada o ilustra melhor do que um dos primeiros ténis desenvolvidos por Bill Bowerman, um dos fundadores. Ele usou uma máquina de assar waffles (massa de origem belga, que dá origem a uma sobremesa em formato quadricular) para criar uma nova sola de borracha, com o objectivo de melhorar o desempenho dos corredores. Como manter esse espírito de inovação numa companhia milionária e espalhada pelo mundo é o desafio de Parker. “Penso muito sobre isso. Uma de minhas principais responsabilidades é manter essa chama viva”, diz. “Gosto muito de ver jovens funcionários a desenvolver ideias. Não é preciso ter dez anos de casa para fazer a diferença”, acrescenta.

Outra responsabilidade é criar uma cultura de inovação permanente. A maior mudança dos últimos anos foi reorganizar a empresa por categorias de desportos. Hoje nós estamos presentes em modalidades como o skate e o surf (através da Hurley), às quais não davamos a devida atenção. Parker completa com o seu raciocínio uma metáfora desportiva, é claro: “E também temos de saber comemorar as vitórias. Isso cria energia. O sucesso é contagiante  e nos empurra para a frente”.

 

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Por: Sérgio Teixeira Jr., em BeaverTon (Estados Unidos)

 

Fonte: Exame

Foto: Exame

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