Manuel Gonçalves: ENSA pode investir numa instituição bancária

Manuel Gonçalves
Manuel Gonçalves

A ENSA não abdica da liderança do mercado segurador. Para o seu presidente do conselho de administração (PCA), Manuel Gonçalves, o objectivo é, no mínimo, mantê-la. Até porque, adianta, o mercado segurador ainda comporta um largo espaço de crescimento. E Manuel Gonçalves explica onde e como o mercado pode ampliar-se: passa pela a fiscalização dos produtos obrigatórios como o acidente de trabalho e o automóvel, por uma ‘forte aposta’ na mudança no regime relacionado com o coseguro petrolífero, pela , obrigatoriedade, pelo menos parcial, de fazer os seguros junto das seguradoras nacionais, pelas oportunidades existentes no domínio da construção. E, sobretudo, pela introdução de uma cultura de seguro, um tema muito caro ao PCA da maior seguradora do país
Com a posição forte que tem no mercado como é que a ENSA perspectiva a evolução dos ramos Vida e Não Vida?

É um dado que, no plano internacional, o crescimento, predomínio e importância dos seguros Vida ou Não Vida dependem muito da maturidade dos mercados. E é um facto que nos mercados menos maduros, nos países emergentes, particularmente nos países não industrializados se verifica um crescimento preferencialmente maior do ramo Não Vida. Em Angola o que importa é olhar para a perspectiva dos seguros que têm uma clara importância social, que servem para proteger as pessoas e, consequentemente, melhorar a sua condição de vida, tanto no que diz respeito à saúde e à integridade física como igualmente à sua protecção na velhice ou perante riscos que possam pôr futuramente em causa a possibilidade de normal laboração, assim como a possibilidade de auferir normalmente de rendimentos por parte dos trabalhadores. Consideramos que o país tem de continuar a fazer uma aposta muito grande em sectores como a educação e a saúde e que os seguros no âmbito da saúde são uma peça fundamental da engrenagem. Daí o compromisso que a ENSA tem relativamente à manutenção deste produto, que não deixa de ser bastante crítico, tanto no que respeita à melhoria da saúde das pessoas como no que toca ao aumento da produtividade das empresas e ainda à retenção dos trabalhadores ao nível das empresas.
Trata-se de um seguro que concita uma crescente adesão, designadamente por parte das empresas?

Exactamente. A demonstração disso é que temos um número cada vez maior de clientes empresariais e uma carteira cada vez maior de seguros neste ramo específico da saúde, que aumenta, em média, 25% ao ano.

Mas também há que considerar que se trata de um seguro com elevados níveis de sinistralidade pelas mais diversas razões, conhecidas, notórias e óbvias, e que se prendem com os problemas de saúde pública que o país ainda enfrenta, as dificuldades com que se defronta o sistema de saúde e ainda com problemas relacionados com a ética e deontologia profissionais, que têm um impacto significativo na fraude. Por isso mesmo trata-se de um ramo em que é preciso combinar, por um lado, prémios equilibrados que não sejam excessivos tendo em conta a especificidade das pessoas e, por outro lado, uma acção muito vigorosa e rigorosa no sentido de controlar o produto, fazendo uma gestão bastante cautelosa e recorrendo, tanto quanto possível, a apurados mecanismos de controlo interno. É exactamente isso que a ENSA tem estado a fazer ao longo do tempo com este produto de seguro, procurando extrair dele o máximo de rentabilidade possível sem esquecer que temos uma grande dose de responsabilidade social, a qual, em última instância, tem prevalecido.
O seguro de saúde tem um peso significativo na carteira global?

Tem. Neste momento, no ano de 2011, o seguro de saúde já ocupa o primeiro lugar a nível da produção, mas ocupa também o primeiro lugar a nível da sinistralidade.
Tem mais peso que o seguro automóvel?

Exactamente. E o fenómeno tem uma explicação. A tendência era a contrária, até ao ano passado. Os factores que afectam o crescimento do seguro automóvel são conhecidos e prendemse com a ausência ou insuficiência de fiscalização deste seguro.
A obrigatoriedade não se fez sentir sobre a evolução das apólices?

Teve um efeito sobre o aumento da carteira de prémios e o conjunto de apólices de seguros. Não é possível olhar exclusivamente para o fenómeno na perspectiva do crescimento das apólices na medida em que temos, no domínio específico do automóvel, muitos seguros de frota que envolvem um número significativo de viaturas.

Durante os meses mais críticos, nomeadamente Fevereiro e Março de 2010 e, agora, o mês de Setembro deste ano, tivemos aumentos médios mensais da ordem dos 300%. E o facto é que, logo após o desaparecimento do risco da fiscalização que configura um risco para os automobilistas, uma vez que a condução sem seguro representa o risco de uma penalidade desaparecido este perigo, ocorreu uma diminuição muito sensível dos seguros efectuados.

Ainda assim podemos afirmar que hoje os níveis de contratação de seguros que se verificam são muito superiores aos verificados antes do anúncio do início da fiscalização. O que é extremamente importante e revelador de um dado essencial, que é o aumento da cultura de seguros. Consideramos que o aumento da cultura de seguros é fundamental para que o cumprimento, a observância dos diplomas sobre o seguro obrigatório seja uma realidade. O que é facto é que em Angola temos baixos índices da cultura de seguros.
A taxa de crescimento de 25% ao ano da carteira de seguros de saúde também tem a ver com o aumento da cultura de seguros?

Penso que está relacionado com o aumento da cultura de seguros e com as insuficiências do nosso sistema de saúde pública, que faz com que as pessoas procurem soluções alternativas mediante o recurso a serviços médicos mais diferenciados, clínicas médicas, mediante um sistema em que as empresas a que as pessoas estão ligadas possam ter alguma contribuição.

O que implica que o seguro de saúde represente uma parte da remuneração global dos colaboradores?

Cada vez mais os trabalhadores têm este dado como exigência e cada vez mais as empresas consideram este elemento como um factor de retenção dos trabalhadores. Daí que a conjugação destas duas forças em movimento determine um aumento gradual e permanente da nossa carteira de seguros.
Referiu que a sinistralidade é muito elevada e que existem algumas deficiências do nosso sistema de saúde.

Têm contratualizadas com determinadas clínicas, em caso de sinistro, a respectiva cobertura. Quais os requisitos de qualidade exigidos a essas clínicas?

Somos extremamente rigorosos com a inserção de clínicas na rede de serviços clínicos da ENSA. Têm de obedecer a um conjunto de requisitos.

Mas com o crescimento, muito rápido, da carteira de seguros, as próprias clínicas registam um afluxo muito grande de clientes que prejudica a sua prestação de serviço. Chegámos ao ponto de, para melhorar cada vez mais a nossa qualidade, contratar clínicas na Namíbia.
E isso não representa custos de transporte acrescidos?

No caso de uma evacuação de emergência, como acontece para qualquer país, a seguradora assume a responsabilidade dos custos mas em caso de contacto directo do segurado a seguradora não assume esses custos.

E estamos a falar de algo que existe próximo da fronteira de Santa Clara, no Cunene, com uma grande facilidade de atravessar a fronteira. O que significa que as pessoas do Cunene têm o seu problema resolvido, as das províncias mais próximas têm-no facilitado e as de outras províncias, incluindo de Luanda, acorrem a uma clínica mais diferenciada, onde os custos acabam por ser mais baixos na perspectiva da ENSA e onde existem boas garantias nas mais diversas especialidades, bem como elementos de diagnóstico em consonância com a evolução que a ciência e as técnicas médicas vêm registando.
Na parte que tem a ver com as reformas o facto de não haver resposta visível do sistema público não abre uma janela de oportunidades?

No ramo vida o que temos hoje são seguros de vida, incluindo seguros vinculados ao crédito, normalmente associados ao crédito facultado pela banca, ao consumo, à habitação…
O potencial crescimento do crédito associado à habitação vai incrementar esse segmento…

Vai fazer crescer necessariamente a carteira de seguros de vida e também o seguro multirisco habitação. Estamos alinhados com o mercado para fazer crescer estes produtos e temos também criado canais bancários com várias instituições para que, através da banca os nossos produtos sejam disponibilizados aos clientes. Temos parcerias com o BIC, com o BANC, continuamos a trabalhar para a criação de outros canais bancários com o objectivo de ser possível nos balcões dos bancos serem efectuadas as simulações, bem como a venda e a aquisição das apólices relacionadas com os diversos seguros vinculados ao crédito. E as coisas têm estado a correr bem neste domínio.
Voltando aos seguros voltados para as reformas, a ENSA tem os fundos de pensões. Qual o ponto de situação?

Temos, neste momento, alguns fundos ligados ao sector petrolífero, gerimos o próprio fundo dos trabalhadores da ENSA e vamos muito brevemente temos tudo preparado para o efeito lançar uma campanha associada a fundos de pensões, dirigido a empresas e instituições. Estão já criadas as condições técnicas, operacionais, os processos, as condições informáticas, o plano de marketing. É o que está dentro dos nossos horizontes.
Trata-se de uma campanha voltada para a sensibilização para a importância dos fundos de pensões ou está-se a referir a um produto específico?

Apenas aguardamos que haja a aprovação do regulamento por parte das instituições competentes, o Ministério do Trabalho e o Instituto de Supervisão de Seguros, do fundo de pensões que pretendemos iniciar.

O que pretendemos é lançar um produto que já temos, depois de o termos trabalhado internamente para criar as adequadas condições de comercialização. Tivemos que, durante algum tempo, prestar uma atenção maior a toda a componente de reorganização de empresa e preparação de todo um conjunto de produtos, principalmente no ramo não vida e, ao mesmo tempo, a trabalhar para que estivéssemos em condições de comercializar este produto.
Depreendo que se trata de um fundo aberto. E quanto aos fundos fechados?

Não está fora de questão termos também fundos fechados sempre que as situações o possam justificar.
A gestão de investimentos desse fundo de pensões é feita directamente pela ENSA ou atribuída a entidades especializadas?

É exigida uma entidade depositária destes fundos…

Que será…

Há diversas hipóteses, em função de cada fundo em concreto, não temos de ter uma única entidade depositária.

Se eventualmente um banco quiser criar um fundo fechado para os seus trabalhadores poderá colocar algumas exigências entre as quais a de não ir buscar outro banco para depositário desses valores, o que naturalmente condiciona a entidade depositária.

No caso do fundo que referiu ainda estão num processo de selecção? Temos várias alternativas e a escolha vai depender do perfil do fundo concreto que estiver em consideração.
E quanto à gestão das aplicações?

É feita internamente.

A falta de profundidade do mercado angolano não restringe as opções em termos de aplicações?

Há, de facto, poucas alternativas no mercado nacional. Temos os depósitos a prazo, alguns instrumentos como os títulos. O imobiliário representa o risco que representa. Mas também algumas aplicações internacionais representam o risco que representam…

 

A ENSA em númerosA principal seguradora angolana foi fundada a 18 de Fevereiro de 1978 sob a designação de Empresa Nacional de Seguros e Resseguros de Angola. Em 2003 assiste-se à criação do Grupo ENSA, EP, holding que inclui a ENSA S.A., na área dos seguros e a ANGO RE SA, na do resseguro e participa em mais de 10 empresas em diferentes sectores de actividade.A ENSA, Seguros de Angola, detém hoje uma quota substancial do mercado estando presente em praticamente todos os segmentos da actividade seguradora, tanto no ramo Não Vida (que abarca a generalidade dos seguros responsabilidade civil automóvel, acidentes de trabalho, seguro de doença, multiriscos habitação, multiriscos condomínio, seguro de caça, acidentes pessoais, seguro de viagem), como no ramo Vida, que abrange fundamentalmente os seguros de vida e os seguros ligados à capitalização, como os fundos de pensões e os Planos Poupança Reforma (PPR). Como explica o seu presidente do conselho de administração, Manuel Gonçalves, a ENSA marca a sua posição de liderança nos segmentos de negócio mais enraizados no mercado segurador, preparando-se para assumir a mesma posição nos que estão agora a emergir. Reunindo 700 colaboradores, no conjunto, a ENSA comercializa actualmente cerca de 38 produtos.

Com uma carteira de clientes vasta e diversificada, que abarca as principais instituições públicas e privadas e inclui empresas dos mais diferentes ramos de actividade, desde os sectores industrial, comercial e de serviços aos do transporte (aéreo, marítimo e terrestre), petrolífero e mineiro, passando pelos da construção, telecomunicações, hotelaria e distribuição comercial, a seguradora apresenta que são reveladores do seu posicionamento. No último ano atingiu uma facturação global superior a Kz 33.220 milhões, a que corresponde um contravalor em dólares (ao câmbio de Kz 92,874 por cada dólar) que excede os USD 357,69 milhões. No que respeita à facturação em prémios o percurso, nos três últimos anos, tem sido sempre ascendente, superando, em 2010, os USD 334,479 milhões.

Os resultados líquidos da ENSA excederam, no último ano, os USD 4,89 milhões.

Há uma aproximação cada vez maior entre produtos bancários e produtos das seguradoras. A ENSA está atenta ao que se chama a ‘banque assurance’?

Vão fazer uma aposta neste domínio? Trata-se de uma evolução gradual.

É preciso tomar a medida certa no momento certo. Caminharemos com a passada que as nossas condições de eficiência interna e a evolução do mercado, a sua maturidade aconselharem.

Numa primeira fase considerámos que o essencial seria a criação de determinados canais bancários e limitarmonos aos produtos vinculados ao crédito.

Seria o primeiro passo. Era importante consolidar este aspecto relacional. Obviamente que, num segundo momento, importaria criar, pôr em funcionamento e ampliar os nossos produtos, a nível, designadamente, dos fundos de pensões. Num terceiro momento importará partir para uma relação mais estreita com a banca que permita que ela tenha um papel mais actuante.

 

Isso pode passar pela participação na composição societária de instituições financeiras bancárias?

É uma hipótese muito provável.

Já temos uma participação muito pouco significativa mas admitimos a possibilidade de os nossos investimentos serem feitos a nível de instituições financeiras e particularmente a nível de instituições financeiras bancárias.
Qual a ponderação, no conjunto da carteira entre o ramo Não Vida e o ramo Vida?

O ramo Vida tem hoje uma expressão muito diminuta. Em termos de facturação não representará mais de, aproximadamente, 3% e, relativamente às apólices contratadas, representará sensivelmente a mesma coisa: 4% incluem-se no ramo Vida e 96% do ramo Não Vida.
Para além dos seguros de saúde e dos seguros automóvel quais os principais segmentos do ramo Não Vida?

Os acidentes de trabalho e o ramo aéreo.
Quais as coberturas do seguro de acidentes de trabalho?

Temos um seguro uniforme, definido por lei, com um conjunto de coberturas base mas existindo a possibilidade de outras coberturas facultativas e temos ainda uma variação de coberturas em função das modalidades contempladas, ou seja, caso se trate de um seguro completo ou de um seguro de pensões. Enquanto um seguro completo cobre todas as responsabilidades que são fixadas por lei, como a assistência médica, medicamentos, hospitalização, funeral, indemnizações, próteses, pensões, já o seguro de pensões propriamente dito cobre as pensões que forem estabelecidas judicialmente.
Qual o peso relativo dos seguros dirigidos a empresas e dos dirigidos a particulares?

Temos um predomínio de empresas relativamente aos particulares na nossa carteira, tendo as empresas um peso de 52% e os particulares um peso de 42%.

Os seguros dirigidos aos particulares têm estado a evoluir, pelas razões que foquei, nomeadamente a maior adesão dos particulares nas áreas da saúde, automóvel e multiriscos habitação, que são matérias muito relacionadas com os particulares. Se tivermos em atenção também os projectos relacionados com a habitação que se encontram actualmente em fase de concretização facilmente perceberemos que vai também, neste domínio, verificar-se um crescimento sensível nos seguros relacionados com os particulares. A circunstância de o seguro de responsabilidade civil automóvel passar a ser obrigatório vai ser um factor crítico de crescimento, como é um factor crítico de crescimento a relação entre os trabalhadores e as empresas.
E relativamente aos Planos Poupança Reforma (PPR)?

Essa é uma daquelas matérias que está muito dependente dos níveis de cultura seguradora no país. É preciso que as pessoas comecem a ganhar cultura relativamente à protecção do seu futuro. E o que acontece hoje é que as pessoas têm a sua reforma pública que resulta de um desconto obrigatório.

Só por isso é que descontam. E sabem que, se calhar, nem é muito significativa, não tem uma grande expressão.

É necessário que as seguradoras façam um grande trabalho para mudar a mentalidade que predomina e mostrar as vantagens do produto complementar que é o fundo de pensões e partir para novos produtos, para planos de poupança, mostrando às pessoas que é necessário garantir o seu futuro.
O lançamento de PPR não está então fora dos vossos planos?

Não está dentro dos nossos horizontes imediatos mas está dentro das nossas projecções estratégicas.
Que balanço faz da actividade da ENSA do ponto de vista do desempenho?

Nos últimos anos desenvolvemos um projecto muito ambicioso de reestruturação e modernização da empresa que tocou em praticamente todas as áreas de actividade. Para não referir todos os detalhes gostaria de eleger a expansão comercial, a grande evolução tecnológica que tivemos e igualmente um grande desenvolvimento do capital humano. Relativamente à expansão comercial gostaria de assinalar que o facto de partirmos de 11 agências em 10 províncias para um objectivo de 32 agências em 18 províncias, incluindo duas agências de fronteira, em santa Clara no Cunene e Maffabi em Cabinda. Além disso criámos condições para a venda do produto automóvel em todo o espaço nacional, em 54 estações postais dos Correios de Angola na sequência de um protocolo que com eles estabelecemos. Temos hoje um ´call center’ que funciona 24 sobre 24 horas prestando informações sobre produtos de seguros, informações sobre sinistros e servindo também de sustentáculo a alguns mecanismos de controlo do nosso produto de seguro de saúde, mediante a disponibilização de informações sobre o nosso sistema de utilizações e pré-utilizações para consultas médicas e outros elementos. Temos um sistema automático de comunicação aos clientes via sms que os informa sobre o momento em que o prémio está a pagamento e o prazo para o efeito, assim como disponibilizamos a possibilidade de pagamento de prémios via Multicaixa. Devo dizer que somos inovadores e únicos em todos estes aspectos.
E quanto à rede comercial?

Do ponto de vista comercial conseguimos uma grande aproximação ao cliente, reforçada ainda com protocolos que estabelecemos com concessionários nacionais no sector automóvel para que aí, na fonte, os seguros sejam realizados. Esta expansão comercial completa-se com uma rede de corretores e mediadores bastante significativa, abrangendo mais de 200 mediadores que trabalham com a ENSA nos mais diversos produtos.
O que significa que a ENSA se apetrechou no plano tecnológico…

Com efeito, tudo isto só é possível mercê de uma evolução tecnológica muito significativa, que abarca todas as áreas da empresa com um sistema SAP perfeitamente integrado em todas elas. Outra componente que me parece fundamental é a circunstância de termos evoluído bastante em matéria de disponibilização de indicadores económico-financeiros. Hoje é possível, através do SAP, uma extracção permanente, com um número significativo de relatórios é possível extrair mais de 60 relatórios consolidados além da manipulação dos dados facultados, o que nos permite um acesso rápido e fácil na gestão da empresa. Do ponto organizacional tivemos uma evolução bastante importante com a introdução de comités de gestão, fazendo apelo a esses dados. Temos um comité de gestão de recursos humanos, um comité de gestão de meios logísticos e tecnológicos, um comité de gestão de acompanhamento ao negócio, um comité de gestão financeiro e, transitoriamente, dois comités especiais (imobiliário e optimização do produto de saúde). Estes comités configuram fóruns que reúnem bimestralmente com a administração e todas as áreas que se relacionam com essas matérias exactamente para avaliar toda a actividade desenvolvida nesses dois meses.
E quanto aos recursos humanos?

No domínio específico dos recursos humanos a nossa evolução foi muito significativa. A começar pelo rejuvenescimento da empresa. Em quatro anos a empresa rejuvenesceu 10 anos, diminuindo a nossa faixa etária média de entre 40 e 44 anos para entre 30 e 34 anos. Ao longo de quatro anos fomos extremamente exigentes em termos de requisitos para o recrutamento e fizemos mais de 15 mil horas de formação para poder suportar a mudança.

Em suma, o que fizemos na ENSA foi concretizar um projecto de mudança, assente num conjunto de factores críticos de sucesso que foram devidamente identificados e levados em consideração. E essa mudança hoje é uma mudança cultural. Aliás, um dos factores críticos de sucesso está relacionado com a caracterização da ENSA do ponto de vista cultural. Tivemos oportunidade de fazer o diagnóstico inicial e hoje temos uma mudança nítida do ponto de vista cultural, com uma organização muito mais orientada para o cliente, muito mais orientada para a qualidade e a eficiência e muito voltada para o profissionalismo e para o trabalho sério. É esta a realidade que temos hoje.

Quais os principais desafios que se colocam á empresa?

Hoje a ENSA tem dois grandes desafios: continuar a melhorar a sua eficiência interna, dando sequência às mudanças operadas e contribuir decisivamente para melhorar o mercado segurador nacional. A ENSA considera-se em condições de continuar a trabalhar em cooperação com as diversas instituições públicas e privadas, com as outras seguradoras e com as instituições da tutela e reguladoras para continuar a melhorar o mercado segurador nacional. De modo a que o sector segurador, em conjunto com a banca e com um mercado de capitais, que esperamos surja e se fortaleça, capaz de alavancar a economia do país, possam constituir um sector financeiro forte. A consequência disto é, no plano financeiro, um crescimento bastante significativo em termos de evolução global da facturação. Em 2008 tivemos uma facturação global cujo contravalor em dólares correspondeu a 195,249 milhões de dólares. Já em 2009 tivemos uma subida para 211,805 milhões de dólares e, em 2010, um crescimento para 357,697 milhões, o que representa um crescimento, de 2008 para 2010, da ordem dos 87% de prémios e um crescimento global da ordem dos 83%. É evidente que estes dados ainda não traduzem o que nós gostaríamos de atingir a nível de resultados financeiros globais. E isto porque a ENSA continua a ter uma contribuição significativa para a economia através da introdução na economia de valores a títulos de indemnização.

No capítulo da indemnização a ENSA trabalha sobretudo com o resseguro ou recorre fundamentalmente aos fundos próprios?

Recorremos muito ao resseguro no que toca aos grandes riscos. Não faria sentido assumir isoladamente a responsabilidade por uma aeronave da nossa companhia aérea nacional que, só em matéria de responsabilidade civil, exige a subscrição de um capital da ordem de 1,5 biliões de dólares.
Trabalham essencialmente com a Lloyd’s?

Trabalhamos fundamentalmente com a Lloyd’s e temos a pulverização de risco adequadamente feita no domínio da aviação, no domínio da engenharia, como é o caso da construção de barragens, no domínio das grandes obras públicas.
Mas referia que a performance alcançada a nível dos resultados ainda não coincide com a vossa meta…

Há um outro factor que interfere muito. A necessidade da nossa regularização contabilística impõe a realização de muitas provisões técnicas, que naturalmente conduzem a uma redução dos resultados.

Da mesma maneira que os custos que temos com o resseguro tem uma implicação forte a nível das nossas despesas.
As provisões têm crescido significativamente?

Sim. As provisões no domínio dos seguros são muito diversificadas e particularmente as que respeitam às cobranças. E numa situação como a que o nosso país vive, com a crise que se verificou e ainda se verifica, sentimos as consequências disso, que se traduzem fundamentalmente num acréscimo de dificuldades de cobrança.
Houve um acréscimo muito significativo nos incumprimentos?

Houve, um que implica naturalmente um aumento significativo de provisões.
A situação já está a normalizar?

Verifica-se uma clara melhoria.

Montámos um projecto muito direccionado para cobranças, estamos a trabalhar seriamente neste domínio, ainda não nos encontramos a nível do desejável mas temos fé de que, dentro de relativamente pouco tempo, poderemos alcançar os 10% por cobrar, o que é aceitável.
Não há pois imparidades?

Não, está tudo provisionado.
Para além das provisões que outros factores interferem nos resultados?

Também todo o esforço de investimento feito na expansão comercial para a concretização do nosso projecto de mudança impacta os resultados financeiros finais.
Há também o desfio de manter a liderança num mercado que será cada vez mais dinâmico?

Sem dúvida. Quando afirmo que temos duas preocupações fundamentais que são continuar a melhorar a nossa eficiência internamente e contribuir para melhorar o próprio mercado de seguros, obviamente que estando perfeitamente alinhados com o mercado e capazes de corresponder a uma procura tendencialmente crescente estamos a pensar em manter e eventualmente aumentar a nossa quota de mercado.
Deter uma quota acima dos 60%?

Diria que temos entre 50% e 60%. Mas temos de ter a ambição de manter a nossa posição de liderança.

Temos de admitir naturalmente que o crescimento do sector segurador pode implicar uma diminuição da quota de mercado mas o nosso esforço vai no sentido de mantê-la ou aumentá-la. O realismo leva-nos a pensar que a meta deverá ser manter a nossa posição de liderança. E é possível fazer crescer significativamente o mercado se trabalharmos para que se verifique a fiscalização dos produtos obrigatórios como o acidente de trabalho e o automóvel, se fizermos uma forte aposta na mudança no regime relacionado com o co-seguro petrolífero, que tem possibilidade de um maior equilíbrio na gestão e se conseguirmos introduzir inovações ao nível de outros seguros, como o seguro de importação de mercadorias. O país vive de importações. O ano passado as importações excederam os 16 biliões de dólares. Imaginese o que isso representa em matéria de seguros, sendo que muitos deles são feitos lá fora.
Quanto é que o seguro sobre as importações de mercadorias, se for aplicado à totalidade das importações, se pode traduzir em termos de prémios?

Não lhe posso falar em valores por enquanto, tudo depende da forma como o tratamento for efectuado.

Estamos a falar da possibilidade de um seguro obrigatório ou fortemente condicionado ou, pelo menos, do condicionamento à celebração dos seguros em Angola, a obrigatoriedade de fazer os seguros junto das seguradoras nacionais, senão a totalidade dos seguros pelo menos parte deles, com a configuração, a formatação que a legislação vier a ditar.
O mercado tem largo espaço de crescimento?

Tem. Se associarmos isso aos seguros no domínio da construção, em tudo o que diz respeito a engenharia, relacionado com o investimento público, a reconstrução nacional, concluiremos que há grandes oportunidades para o crescimento da indústria seguradora.

 

A arte de um gestorNo final da entrevista, já arrumávamos diligentemente o nosso “caça” (nome que os jornalistas decidiram atribuir na gíria da profissão a um simples gravador), Manuel gonçalves atirou-nos:: “ando sempre com um”.ainda sintonizados nos prémios, apólices, segmentos de negócio, resultados e provisões, alinhámos a confissão no rol dos segredos profissionais.

Muitos gestores gostam de apontar as suas notas num gravador. Pois, muito pelo contrário, as notas a que o Pca se referia eram outras, as musicais.

Voltámos à realidade mais alargada dos seres humanos comuns quando nos perguntou o que acháramos do cd da eNSa, que inclui três faixas da sua autoria. É que se aventurou por géneros que não costuma habitar. o gestor editou, em 1993, o cd ‘Luanda, Meu Semba’, vencedor do Prémio uNac na categoria revelação e, em 1994, a rádio Nacional de angola (rNa) elegia o seu Menino da rua como a canção do ano. Se a Manuel gonçalves não falta currículo musical, deitando mão à viola sempre que pode, também não lhe falta sensibilidade para outras artes, como a pintura, onde se afirma como coleccionador.

Não lhe são certamente alheias as incursões da eNSa no domínio cultural. Licenciado em direito pela universidade agostinho Neto e o primeiro bastonário da ordem dos advogados, o Pca da eNSa é um homem de múltiplas facetas, que responde com precisão ao que se lhe pergunta mas também com uma tranquilidade tão afável que nos faz esquecer que estamos a entrevistá-lo. deve ser quase impossível falar com ele sem conversar.

Luís Faria
Fonte: O País
Foto: O País

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