Locais históricos da província são testemunho vivo do passado

Ruínas do tribunal de justiça construído no século XVI em Massangano no município de Cambambe representa património a preservar e cuja existência nos remete para o percurso histórico do país
Ruínas do tribunal de justiça construído no século XVI em Massangano no município de Cambambe representa património a preservar e cuja existência nos remete para o percurso histórico do país

Várias pessoas, entre estudantes, funcionários públicos e outras, consideram preocupante o estado degradável em que se encontram os monumentos e sítios da província, maioritariamente existentes em Cambambe.
Os interlocutores asseveram que a defesa e manutenção do acervo constituem uma tarefa de todos os membros da sociedade e que as parcerias com ONG, organismos estatais, empresariado e outros deveriam poder permitir reverter a situação actual.
Para muitos,  as autoridades afins devem assumir a valorização do mosaico cultural do país e da província em particular, que é rico e vasto.
A província do Kwanza-Norte possui oito monunentos reconhecidos pelo Comité Internacional dos Monumentos e Sítios (Icomos), todos localizados no município de Cambambe (Kwanza-Norte), perfazendo 23 em todo o país, pelo menos até a década de noventa.
A degradação destes monumentos e sítios tem sido a grande preocupação das autoridades da província.
Entre os monumentos mais conhecidos situados na comuna de Massangano, destacam-se a fortaleza e a área residencial da barragem de Cambambe, bem como as igrejas das Nossas Senhoras do Rosário e da Vitória erguidas no século XVI.
Da mesma época, realçam-se as ruínas do tribunal de Massangano e já no século XVIII a Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, a sua torre de fundação real, onde se fabricaram os primeiros canhões para a tropa portuguesa, assim como o Cruzeiro e a moradia “Casa dos Bentes”.

Todos estes locais já enfrentam o drama da destruição, provocada, por um lado, pelo passar dos tempos e efeitos de alguns agentes naturais e, por outro, pelos interesses particulares do próprio homem.
Por causa disso, em Massangano, cerca de 40 km a Noroeste do Dondo, o governo proibiu há alguns anos a celebração de missas na missão da Nossa Senhora da Vitória, levando os fiéis, em ocasiões de festas religiosas, a se concentrarem em grande número para rezarem fora, ao relento, para prevenir tragédias causadas por eventuais desabamentos. Os imóveis “Leão” e “Casa dos Bentes”, em plena sede do município e a capela da Nossa Senhora do Rosário, são exemplos de edifícios com paredes caídas, sem tectos e outros danos. Mal menor – defendem algumas opiniões – são os que sofrem alterações com a aplicação de materiais que desviam por completo a originalidade.
Em Cambambe essa realidade é interpretada sob diferentes ângulos. Vários indivíduos abordados a propósito, consideram que o mal começa na falta de fiscalização efectiva e solicitam políticas concretas de protecção e conservação dos mesmos.

Sítios históricos identificados em todos os municípios

De acordo com o director provincial da cultura, David João Buba, o Kwanza Norte tem 87 monumentos e sítios Historicos. Onze já foram classificados. Entre estes, dez se encontram no município de Cambambe e um em Samba Cajú. Os demais aguradam   pela sua oficialização.
A maioria dos monumentos estão degradados, disse, garantindo que, a partir do próximo ano, começarão a ser restaurados muitos destes edificios seculares, num programa conjunto do Ministério da Cultura e do Governo Provincial.
Para além de Cambambe, todas as regiões da província albergam pelo menos um monumento ou sítio histórico que deveriam ser valorizados, de acordo com o Director David João Buba. São identificados por exemplo no Cazengo, o Palácio Dom Teles Carreira e a casa de passagem do saudoso Presidente Agostinho Neto, localizados no Kilombo, cerca de sete quilómetros a Sudoeste de Ndalatando.
As ruínas do tribunal no Zavula, na região de Caculo Camuiza (Canhoca), Colónia de São João, tida no passado como casa penal dos negros de Angola e outros vindos de Cabo-Verde e São Tomé e Príncipe.
Ainda no Cazengo, encontram-se as furnas do Zanga, a primeira casa que em 1942 serviu de primeira escola primária para brancos e negros, para além das grandes quantidades de mármore ali existente.
Na comuna da Cerca (Golungo Alto), existe também a casa e o grande fortim do Mussungo, antigo quartel colonial para a defesa das fazendas agrícolas que após a independência, em 1975, passou a ser o Centro de Instrução Revolucionária que preparava as tropas das ex-FAPLA.
Já na comuna de Cambondo (Golungo Alto), encontram-se as casas duplas onde António Jacinto, nacionalista angolano e poeta de renome nacional, viveu durante muitos anos, para além das grandes casas construídas de pedra na Kipemba, a três quilómetros da vila comunal.
No Kilombo dos Dembos (Ngonguembo), encontra-se a granja portuguesa, o centro do Tumba, as quedas dos rios Lumbiji e Zenza, para além da fazenda do Dala Kimbo, entre o município de Bula Tumba (Bengo) e a região de Cafuta, comuna de Camame, município de Ngonguembo, com grandes edifícios históricos que datam dos séculos XVII e XVIII.
Na região da Pamba no Lucala, à margem direita do rio com o mesmo nome, existe também o fortim que foi um dos presídios onde se instalou a administração do Ambaca, quando na altura o município foi elevado a distrito para esta região do Kwanza-Norte, assim como as Furnas de Cacolombolo, localizadas na vila do Lucala, local actualmente muito visitado por turistas de vários pontos do país.
Em Ambaca, há um local considerado igualmente como histórico, onde havia uma árvore na qual em meados do século XVIII  as populações, muitas vindas do Norte e Leste do país, se albergavam na sua sombra e faziam então as suas trocas comerciais.
Foi igualmente em Ambaca onde Paulo Dias de Novais foi feito prisioneiro quando ia combater com as forças de Ngola Kiluange e caiu numa emboscada das tropas nacionalistas. “Só isso é um grande valor da resistência anti-colonial. Depois na troca de prisioneiros Paulo Dias de Novais foi solto totalmente esgotado pelo fracasso da luta a favor do colono português, vindo a perder a vida tempos depois em Massangano, onde foi sepultado”, sublinhou.
Apontou ainda em Samba Caju o histórico cemitério de Cahenda, que data desde os séculos XVII e XVIII, e a antiga capitania, local aonde se encontravam as tropas que trabalhavam para administração colonial e controlavam e reprimiam todo negro que tentasse discutir os seus direitos e terras.
Na comuna de Samba-Lucala, mais concretamente na região de Dala Capanga, encontra-se o local onde em 1959 a população negra se aglomerou para reivindicar a usurpação das suas terras pelas autoridades coloniais, tendo enviado a Portugal uma carta anónima às autoridades coloniais a partir da sede do distrito. Com um despacho vindo de Portugal autorizaram que o Tribunal do Kwanza, em Ndalatando, na altura Salazar, pudesse encaminhar para o Samba-Lucala uma equipa para poder julgar brancos e negros em pé de igualdade. Quase metade destas pessoas brancas envolvidas nestas questões, num total de 30, foram consideradas culpadas e algumas terras foram devolvidas aos negros. Portanto é outra referência histórica e o local deve ser referenciado como tal.
Já em Caculo-Cabaça (Banga), temos as três pedras gémeas onde se encontra o sinal de Ngola Kiluange e a primeira capela construída pela igreja católica.
Ainda em 1959, na região da Kivota, mais tarde Kicanga e actualmente Aldeia Nova, a poucos quilómetros da sede municipal da Banga, encontra-se aquele que foi o primeiro conselho administrativo, uma casa construída de adobe mas que até agora as paredes continuam em pé. Na mesma aldeia, há uma vala comum com mais de 300 pessoas mortas e enterradas ali.
Refira-se que na sede do Kikulungo há um cemitério construído em 1958, no qual não eram permitidos funerais de gente de raça negra, mas apenas brancos que eram mortos nas batalhas nas fazendas.
Em Kiquiemba (Bolongongo), vamos encontrar as grandes pedras que serviam de refúgio aos angolanos que lutavam contra os colonos, na sua maioria do movimento FNLA. Já no Terreiro a 150 metros, encontramos a vala comum que é um outro marco, sendo que nela foram enterradas mais de 500 pessoas mortas nas diferentes batalhas.

Manuel Fontoura | Ndalatando

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

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