Histórias da música no canto de “Nvula”

Paulo Chinganeka Gonçalves António
Paulo Chinganeka Gonçalves António

Paulo Chinganeka Gonçalves António, de nome artístico “Soba Nvula”, nascido em Luanda, a 20 de Junho de 1977, começou a dar os primeiros passos na música aos 9 anos, no município da Samba Grande, na década de 80 do século passado.
Na altura, não fazia ideia do que era uma letra, nota ou compasso musical, mas o seu tempo era totalmente preenchido pela música. Paulo António chegava mesmo ao ponto de se desligar das brincadeiras próprias da sua idade e das amizades.
“O meu gosto e entrega pela música chamou a atenção do meu professor, que me inscreveu num concurso infantil da canção, realizado no Complexo Futungo II, em Luanda, por ocasião do acampamento internacional de pioneiros, uma promoção da Organização do Pioneiro Angolano (OPA), que reuniu crianças das 18 províncias do país”.
Com esse incentivo, Paulo António sentiu-se impulsionado a apostar ainda mais na música. Tentou juntar-se a outros garotos que faziam parte do grupo de cantores infantis, mas não teve o sucesso desejado. Por isso, decidiu virar-se para a dança. “Formei um grupo de Breack Dance com Tony Cabaça, Vieira, Mário e Boy Boy”.
Na sua primeira participação num concurso, o grupo arrebatou o troféu de primeiro classificado, que foi entregue pela Primeira-Dama de Angola, Ana Paula dos Santos, tornando-se uma referência no município da Samba, em Luanda.
Em 1994, resolveu ser DJ. “Peguei no meu pequeno aparelho e comecei a tocar no quintal e nos aniversários dos meus irmãos e primos”.

A emigração
para Portugal

Aos 21 anos, emigrou para Portugal à procura de melhores condições. Mas os momentos que ali viveu foram os mais difíceis da sua vida. “Tive de dar no duro para poder sobreviver, porque estava numa terra cujos hábitos e costumes desconhecia completamente”.
Ao fim de alguns anos, conheceu o músico José Mónica (Zangado), que se dispôs a ajudá-lo. “Ele pediu-me que fizesse um improviso. Fiz, cantando uma música que o impressionou muito. Admirado, perguntou se era eu quem compunha as minhas músicas e se tocava algum instrumento musical. Eu, na verdade, não sabia tocar nenhum tipo de instrumento”.
José Mónica aconselhou-o, então, a frequentar uma escola de música, pois via nele “um talento a ser lapidado”. Nos finais de 1999, conheceu o músico Papa Nilson (Joy Nilson), um dos fundadores do grupo “Consciência Activa”, que o convidou para participar num espectáculo, porque a maior parte dos elementos do grupo se encontrava em Luanda.
Depois do espectáculo, decidiu seguir o conselho de José Mónica. “Parti para a cidade do Porto, onde tirei o curso de mistura e de DJ, de piano e de guitarra, na escola Dance Planete, uma das melhores academias daquela cidade”.
Foi nessa escola que Paulo António conheceu alguns músicos que o ajudaram muito. “Fui instruído por um dos melhores DJ do Porto e tive a oportunidade de conhecer o Sisso, com quem formei a banda denominada ‘Sisso e Soba’”.
Em 2008, já a pensar em regressar a casa, abraça a carreira a solo e grava uma das músicas que tencionava incluir no single intitulada “Ngabixiga”, que em português significa “cheguei”.
“A ideia do single era promover as minhas músicas no mercado nacional, depois de me ter ausentado do país durante 12 anos. Em Lisboa, procurei obter conhecimentos sobre o mercado nacional”, explica.

Festivais da Lusofonia
e de Espanha

Depois de uma brilhante carreira a solo, que o levou a conquistar a cidade do Porto, Soba Nvula decide regressar a Luanda para concluir o seu trabalho discográfico e editá-lo na sua terra natal.
“Um dos factores que mais me motivou para regressar a Angola foi a paz conquistada no dia 4 de Abril em 2002. Pensei que já era tempo de ajudar a desenvolver música nacional para o bem da nossa cultura”. Antes de regressar e fixar residência na capital, foi convidado a abrir o Festival da Lusofonia e um outro em Espanha, nos quais contou com a participação de músicos como Irmãos Verdade, Kaisha, Nicools, Janic Deelema, Boss AC e Flou 212.
O seu mais recente espectáculo de hip hop foi nas Astúrias, região Norte de Espanha, onde o músico americano The Game foi a atracção da noite e Soba Nvula o cantor convidado para abrir o concerto.
No seu jeito característico, simpático e vestido à rapper, Soba Nvula garantiu que vai lançar, em 2012, o seu primeiro disco, com 11 temas cantados em português e em kimbundu, de hip hop, R&B, soul e reggae, com predominância para o rap. A masterização e a produção final são os elementos em falta para a conclusão do CD. “Também houve razões de índole profissional que levaram a que o disco seja concluído no primeiro trimestre do próximo ano”, explicou, salientando que 50 por cento do disco foi trabalhado em Portugal.

Soba Nvula

Por que foi para Lisboa?
Fui para Lisboa por várias razões, como a procura de melhores condições de vida, porque na altura o país vivia sob um clima de guerra, que durou quase quatro décadas. Sempre pensei que quando atingisse os meus 18 anos a guerra em Angola teria acabado e estaria a viver em paz, o que não aconteceu.

Em Portugal fez algum curso de música?
Frequentei uma escola de música, onde aprendi a tocar piano e guitarra, com o objectivo precisamente de aprender a tocar alguns instrumentos musicais. O curso ajudou-me a aumentar os meus conhecimentos sobre música e a conhecer vários músicos de maior referência no panorama internacional.

Quem compõe as suas letras?
Eu próprio componho as minhas letras e músicas. Inspiro-me no quotidiano e naquilo que vivo. Já tive a oportunidade de receber letras de um amigo, mas não cheguei a gravar a música.

Aconteceu comigo
A proposta para o disco

“Depois de 12 anos, regressei a Luanda e recebi uma proposta da LS Produções para pôr no mercado o meu disco, que está em fase de conclusão”.

 

Mário Cohen

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

DEIXE UMA RESPOSTA