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Heróis da guerra “lutam” pela paz
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Heróis da guerra “lutam” pela paz

Memorial da Batalha do Cuito Cuanavale vai simbolizar e honrar os heróis que mudaram a região e destruiram o apartheid

Os heróis vivos da célebre Batalha do Cuito Cuanavale começaram a ser inseridos em programas de desenvolvimento do Executivo, que visam melhorar o modo de vida dos mais de seis mil combatentes das extintas FAPLA, residentes em todo o país.
Ávidos por uma oportunidade de emprego, os sobreviventes da grande batalha dizem estar prontos para esta nova missão, que consiste em transformar os antigos campos de guerra, em campos de cultivo para a produção de alimentos, com vista a apoiar os esforços do Executivo nos programas de combate à  fome e a pobreza.
O mega projecto abrange todo o país e começa na província do Kuando-Kubango, a partir deste mês. As actividades estão a ser coordenadas pelo Fórum dos Combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale (FOCOBACC), uma instituição que tem como objectivo melhorar o modo de vida dos seus filiados nas vertentes económica, social, formação académica e profissional, que os habilite a obterem rendimentos a curto, médio e longo prazo.
O general Fernando Amândio Mateus “Nando”, e o brigadeiro Francisco Dala Cativa, que participaram na Batalha do Cuito Cuanavale, têm a missão de levar o barco a bom porto, na qualidade de coordenador e secretário-geral do Fórum dos Combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale.
O general Nando afirmou à nossa reportagem: “nós recebemos do Comandante em Chefe das Forças Armadas Angolanas, camarada Presidente José Eduardo dos Santos, a orientação para cuidarmos dos sobreviventes da histórica Batalha do Cuito Cuanavale e como não fraquejamos durante os combates, também estamos proibidos de falhar nesta missão”.
O general Nando disse ainda que “o Executivo abriu-nos todas as portas. Está a dar todo o apoio de que necessitamos e os combatentes das extintas FAPLA vão corresponder às expectativas criadas devolvendo a esperança a todos aqueles que com sangue e suor contribuíram para expulsar as forças invasoras da nossa pátria”.

Zonas de cultivo

No Kuando-Kubango foi identificada uma vasta parcela de terra, situada entre as margens dos rios Longa e o Kuhiriri, no município do Cuito Cuanavale, que vai ser distribuída a 500 efectivos das extintas FAPLA, com os respectivos direitos de superfície e à medida que a desmatação das áreas de cultivo for crescendo, o número de beneficiários também vai aumentar.
Na província do Kuando-Kubango estão registados dois mil antigos militares que vão ser integrados num sistema de cooperativas, para a produção de milho, massango, massambala, feijão e mandioca.
“Já foram identificadas as granjas avícolas para o desenvolvimento das actividades pecuárias e criação de aves. Logo que sejam instalados são entregues aos assistidos”, referiu o general Nando. A desmatação, preparação dos terrenos e a criação dos aviários é de inteira responsabilidade do Fórum dos Combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale.
Além dos investimentos a no domínio agrícola, o Fórum dos Combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale vai ajudar os antigos militares com a montar o seu próprio negócio, com destaque nas áreas de mecânica, carpintaria, serralharia e alvenaria. Para isso, o fórum vai organizar cursos de formação profissional.
“O programa tem como objectivo dar mais dignidade a estes valorosos combatentes, porque muitos deles não tiveram a oportunidade de ter uma formação profissional ou académica e, como resultado, hoje estão desempregados e a viverem condições péssimas. Por esta razão vamos agir com celeridade para que possamos obter os primeiros resultados ao longo de 2012”, disse o general Nando.

Subsídios Garantidos

O general Nando, entre os vários apoios, os ex-combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale, incluindo as crianças órfãs e viúvas de guerra, vão se beneficiar também de um subsídio mensal, a partir do Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria.
Neste momento, disse, o FOCOBACC está a efectuar a revisão das listas que vieram dos vários pontos do país, para se apurar possíveis infiltrados e só depois é que serão encaminhadas para o Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, para a sua homologação final e inserir os ex-combatentes no sistema de pensões. Actualmente, realçou, o oficial general estão a revisar as listas provenientes do Kuando Kubango, nas quais já foram detectadas muitas irregularidades que se resumem essencialmente na introdução destas mesmas listas de elementos que nunca tinham estado no Cuito Cuanavale durante o período do conflito armado.

Casas Sociais para Samaria

A população heróica do bairro “Samaria”, situado a escassos metros do rio Cuito e que durante os fortes combates não arredou o pé do seu habitat, vai beneficiar de 143 moradias para igual número de famílias, um tributo do Executivo angolano, pela bravura e heroísmo demonstradas por estas pessoas, apanhadas em fogo cruzado, com as FAPLA de um lado e as forças racistas sul-africanas do outro.
O general Nando assegurou que as referidas moradias do tipo pré-fabricado já se encontram no Cuito Cuanavale, faltando apenas efectuar os trabalhos de terraplanagem e loteamento do local onde serão montadas as casas que em princípio deverá acontecer num terreno adjacente a actual aldeia de Samaria.
O Executivo, pontualizou, vai também construir outras duas mil casas do T-2 na sede municipal do Cuito Cuanavale para contemplar os ex-combatentes ali residentes e a população que durante os combates também sofreram com as consequências da guerra, estando neste momento os membros do fórum da referida batalha a criar as condições necessárias para a efectivação do projecto.
Na localidade de Masseca, situada a pouco mais de cento e vinte quilómetros da cidade de Menongue, vai ser a primeira a beneficiar da construção de moradias, cerca de 500 casas para alojar os ex-militares e suas respectivas famílias que serão inseridas no projecto agro-pecuária naquela região, estando já em curso a elaboração de croquis de localização e os arruamentos.

Obras do Memorial

As obras de construção do memorial da Batalha do Cuito Cuanavale, que está a ser erguido na periferia da sede municipal, para simbolizar e honrar todos os heróis que se bateram na defesa do município, foram executadas a cerca de 60 porcentos, mas a julgar pelo ritmo dos trabalhos, os restantes 40 porcento poderão ser concluídos até ao final do mês de Dezembro de 2011.
Actualmente, estão a decorrer trabalhos do espaço reservado a exposição ao ar livre de uma diversidade de material bélico usado durante os combates. Está, também, em curso obras de melhoramento no interior do edifício do memorial, da biblioteca, do museu e falta por se concluir os passeios e lancis das ruas de acesso as casas protocolares, até a zona de lazer, estes dois últimos completamente mobilados.
Alguns populares ouvidos pela reportagem do Jornal de Angola disseram que “gostaríamos que este empreendimento de dimensão internacional seja inaugurado durante as celebrações do 24º aniversário da “Batalha do Cuito Cuanavale” a comemorar-se no dia 23 de Março de 2012”.  Além do memorial, a população da heróica da vila do Cuito Cuanavale ganhou também um hospital com capacidade para internar 360 pacientes, um aeroporto completamente reformulado e apetrechado com aerogare, uma torre de controlo e uma pista nova, um palácio, novas escolas do ensino primário e 1º ciclo, um sistema de captação e distribuição de água potável, energia eléctrica entre outros empreendimentos que estão a conferir uma nova imagem ao município.

Um pouco sobre a Batalha

Manhã de 22 de Março de 1988, vários projécteis dos canhões G-5 e G-6 atingem a já praticamente destruída vila do Cuito Cuanavale e arredores, alguns dos quais espalhavam panfletos escritos em inglês e traduzidos em português que anunciavam uma hipotética tomada da sede municipal do Cuito Cuanavale, no dia seguinte.
Nas primeiras horas do dia 23 de Março de 1988, o Batalhão Búfalo sul-africano, reforçado com cerca de 18 mil homens da ex-FALA, braço armado da UNITA, lançou uma ofensiva de grande envergadura, com todas as forças e meios sofisticados, contra as posições das FAPLA que, contava apenas com a 25ª brigada, chefiada pelo general António Valeriano, entrincheirada entre a margem do rio Cuito e o bairro Samaria.
Uma outra linha defensiva conjunta, muito bem estruturada entre as FAPLA e das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FARC), foi montada ao redor da sede do Cuito Cuanavale, apoiadas pelos canhões C-130, D-30 e BM-21 que descarregaram centenas de projécteis quando as forças sul-africanas, acompanhadas de milhares de homens da UNITA se encontravam a 500 metros da 25ª brigada.
Depois de várias horas de combates as tropas sul-africanas e seus aliados retiraram-se do território angolano, deixando para trás baixas humanas e materiais consideráveis. A vitória no campo de batalha forçou o regime do apartheid aceitar assinar os acordos de Nova Iorque que, deram origem à materialização da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que ditou a independência da Namíbia, a libertação de Nelson Mandela e a retirada das tropas cubanas de Angola.

 

Lourenço Manuel|Menongue

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Lourenço Manuel

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