Ervas ” santas ” autenticadas

Participantes no encontro nacional sobre Flora e Vegetação de Angola recomendaram medidas para preservação da biodiversidade
Participantes no encontro nacional sobre Flora e Vegetação de Angola recomendaram medidas para preservação da biodiversidade

A Professora do Departamento de Química da Universidade Agostinho Neto, Rosália dos Santos, disse, durante o primeiro encontro nacional sobre Flora e Vegetação de Angola, em Luanda, que na procura de novas drogas para o controlo de doenças e pragas, as plantas são sempre tidas como alternativas.
Durante a sua dissertação, ao apresentar um trabalho realizado com o Centro de Botânica da UAN e Universidades Portuguesas, a especialista em Química referiu ainda que “quando comparadas com medicamentos e pesticidas sintéticos, as plantas causam menos danos ao ambiente e por serem endémicas os custos de tratamento dos focos são mais baixos”.
Doenças como Shistossomiase e malária, precisou, matam milhares de pessoas em todo mundo. “A Euphorbia conspícua, planta endémica em Angola, é usada na medicina tradicional para tratar dermatites e leprosis da pele. A Cassia occidentalis é uma planta largamente utilizada no tratamento do paludismo. Ambas foram submetidas a estudos fotoquímicos, visando o isolamento e identificação dos seus componentes químicos e as suas propriedades farmacológicas”, precisou a especialista.
Os estudos, garantiu, mostraram que a Euphorbia conspícua, existente na província do Bengo, em Luanda e ainda no corredor do Kwanza, é uma alternativa eficaz no controlo do molusco vector do Shistossoma, parasita causador de diarreias agudas, que afectam mais de 200 milhões de pessoas.
O estudo de Cassia occidentalis  (Mudianhoca, nome vulgar) possibilitou o isolamento de vários esteróis. Confirma-se a razão do uso desta planta no tratamento de doenças da pele. Estudos científicos já confirmaram a sua actividade contra fungos, bactérias, cancro e malária.


Cajueiro  e diabetes

Cristina Borges, do Centro Botânico, também da Universidade Agostinho Neto, sublinhou que desde 1997 a OMS e outros organismos internacionais de saúde viram a diabetes como um grave problema de saúde pública, devido aos custos e sofrimentos impostos aos pacientes pelas suas complicações. “É um dos maiores desafios para os governos dos países no século XXI. Até meados do século passado, a pesquisa para o desenvolvimento de novos fármacos era baseada na síntese química de novas substâncias e no estudo da sua actividade farmacológica. Os produtos de origem natural apresentam uma maior diversidade molecular e a função biológica”, sublinhou Cristina Borges.
As folhas do cajueiro são desde há muito utilizadas no tratamento de cólicas e são anti-sépticas, anti-bacterianas e actuam contra úlceras estomacais, contra infecções dos olhos, são diuréticas, purgantes, tónicas, e anti-diabeticas.

Actividade terapêutica

Para Pedro Catarino, do departamento de Biologia Funcional e Ciências da Saúde, Universidade de Vigo, Galiza, os resultados apresentados demonstram que as plantas medicinais angolanas têm diversas acções terapêuticas, muitas não descritas no seu uso tradicional. O extracto aquoso do chá de caxinde, elucidou, apresenta um efeito antioxidante elevado e um efeito bactericida.
Docente da Faculdade de Ciências e directora do Centro de Recursos Fitogenéticos da Universidade Agostinho Neto, Elisabete Matos, Alertou para as alterações climáticas que “comportam importantes riscos para a biodiversidade silvestre”.
A professora Esperança da Costa, directora do Centro de Botânica, da UAN, referiu ainda ser necessário em Angola um laboratório para estudar as plantas medicinais.
Conceição Sango, professora da Faculdade de Direito da UAN e Provedora adjunta de Justiça, referiu durante o encontro sobre a flora angolana que a Biodiversidade é um bem público comum, mas as questões relacionadas com o seu acesso constituem ainda um vazio na legislação angolana, pelo que é urgente definir a quem cabe autorizar este acesso: o Ministério da Agricultura ou o do Ambiente. O Centro de Botânica define Etnobotânica  uma Ciência dedicada ao estudo das plantas usadas por povos primitivos. O Centro de Botânica recomenda  cautela nas dosagens na administração destas infusões. Para “mudianhoca” o uso por homens deve ser administrada sob vigilância médica.

Atentados ambientais

Angola tem um problema com graves consequências para a flora: são as queimadas, mal controladas e mal geridas, disse Paixão Esteves, director provincial da Agricultura e Desenvolvimento Rural do Zaire, durante o encontro. Em todo o país, na época do cacimbo, as comunidades rurais fazem queimadas para melhorar os campos agrícolas ou para a caça. Os incêndios tornam-se incontroláveis, devastam grandes áreas de floresta e muitas vezes só param nos rios. Esses prejuízos incalculáveis para a fauna e a flora, muitas vezes, rendem aos caçadores algumas peças de caça.
Nas zonas onde a vegetação é mais intensa, um problema grave tem a ver com o abate de árvores por madeirieiros ilegais. Muitas espécies de grande valor económico são cortadas sem ter em conta a gestão florestal.
O corte de vegetação para fins domésticos e para a produção de carvão representa hoje em algumas províncias um problema para as florestas locais e as consequências estão à vista, com grandes áreas desmatadas, mesmo junto das estradas e picadas.
A expansão urbana e das áreas industriais também é responsável pela desflorestação que se verifica em quase todas as províncias ricas em madeira.
Para responder a estes problemas, os Governos Provinciais têm de criar programas de arborização dos centros urbanos e plantação de florestas nas zonas desmatadas e onde avança a desertificação. As autoridades podem criar viveiros em todos os municípios para produção de árvores de sombra e de espécies para a exploração de madeira.
A solução para a desertificação está na criação de polígonos vegetais que permitam a reposição de árvores, sirvam de barreiras aos ventos dominantes e melhorem a qualidade do ar.

Pereira Dinis

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Santos Pedro

 

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA