Edmundo Rocha: Na política Não basta ser-se inteligente… …e ao Viriato da cruz faltou malícia política

Edmundo Rocha
Edmundo Rocha

Como foi que tomou contacto com o nome de Viriato da Cruz no vosso processo de luta antifascista e anti-colonialista?

Em vários momentos. Tivemos conhecimento do movimento cultural “Vamos Descobrir Angola”, lançado por Viriato da Cruz em 1948 e da sua participação activa na Sociedade Cultural de Angola, na Anangola e na Liga Nacional Africana. É ele quem cria o Partido Comunista Angolano em 1955 e quem lança, em 1956, o Manifesto que apela a uma ampla mobilização dos angolanos contra o colonialismo português. A pressão da PIDE obriga-o a fugir para Lisboa em 1957, tendo sido acolhido em Lisboa por Amilcar Cabral. Pouco depois vai reunir-se com Mário de Andrade em Paris.

Viriato e Mário suscitam a realização de uma importante reunião com város militantes das colónias portuguesas, a qual deu origem ao “Movimento Anti Colonial”. Lembro-me que, em 1957, quando lançamos o Movimento Anti-Colonial (MAC), em que faziam parte estudantes das várias colónias portuguesas africanas, como Agostinho Neto, eu próprio, Lúcio Lara, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Carlos Pestana e Iko Carreira, começamos por desenvolver um profundo trabalho de consciencialização e de mobilização de muitos jovens na Casa dos Estudantes do Império e de trabalhadores no Clube Marítimo Africano. Mais tarde, em 1960, eu e outros compatriotas, como o Gentil Viana, Manuel Bento Ribeiro, João Vieira Lopes, Graça Tavares e António Pedro Filipe achamos que devíamos criar um movimento de raiz angolana. E foi esse grupo do Movimento dos Estudantes de Angola (MEA), ainda ligado ao Clube Marítimo Africano e à Casa dos Estudantes do Império, que iniciou os contactos com os dirigentes do MPLA, em Conakry.

Foi então que, em 1961, recebemos directrizes para sairmos de Portugal e irmos juntar-nos aos camaradas que dirigiam o MPLA em Conacry, a fim de alargarem as perspectivas de luta contra o colonialismo português. Esse apelo de Conacky deu origem à fuga de cem estudantes africanos de Portugal.
Como e quando foi que o senhor conheceu pessoalmente Viriato da Cruz?

Foi em 1961, durante o Congresso Constitutivo da Associação dos Estudantes UGEAN. Viriato solicitou então a minha adesão ao MPLA e a minha participação no Corpo Voluntário de Angolanos de Ajuda aos Refugiados (CVAAR), uma ONG angolana, que foi organizada pela direcção do MPLA.

Quando cheguei a Leopoldville, um mês depois, tivemos então uma longa conversa.
E o primeiro contacto pessoal com Viriato da Cruz, em Leopoldville, como surge?

Quando chegamos a Leopoldville, o Américo Boavida veio acolher-nos e fomos para a casa do MPLA que albergava muitos militantes. Foi então que tive uma longa conversa com Viriato, em que ele me expôs a situação do nosso movimento face à luta de libertação e aquilo que o MPLA esperava de nós.
Como foi que criaram uma ONG se a condição financeira deles, e do próprio MPLA, não ia por aí além?

Viriato e Américo Boavida conseguiram ajuda externa em Londres, em Dezembro de 1960, de várias instituições inglesas de apoio humanitário. Foi essa ajuda que permitiu a instalação do CVAAR em Leopoldville. Mas essa ajuda era insuficiente para manter o pessoal médico e então tivemos que imaginar outras soluções.
Como terão eles conseguido esse apoio?

Foi através do Partido Trabalhista inglês. Como já referi anteriormente, Viriato e Boavida estiveram em Inglaterra em Dezembro do ano anterior, em 1960, a fim de participarem numa conferência em Londres organizada pelo Partido Trabalhista Inglês, em que denunciaram a politica colonial portuguesa e propuseram negociações ao governo português.
E como foi que Vocês, na altura, com diploma de medicina, se arriscaram a deixar o comodismo da Europa para se instalarem na então Leopoldville, hoje Kinshasa?

Não foi fácil, mas estava ligada ao nosso sentido revolucionário e patriótico. Isso foi depois do Congresso Constitutivo da União dos Estudantes das Colónias Portuguesas (UGEAN), em Setembro de 1961, um órgão muito importante para se obter bolsas de estudo e outros apoios aos jovens estudantes que tinham fugido de Portugal e tinham absoluta necessidade em acabar os seus cursos. A UGEAN recebeu apoios das ex União Soviética e R.D.A., dos Estados Unidos, da Alemanha e da Holanda. Após o Congresso da UGEAN, alguns jovens foram mobilizados para irem para Leopoldville onde estava já instalado o MPLA e, entre eles, eu. Éramos dez médicos e, inicialmente, cerca de vinte enfermeiros. Mas a grande maioria dos estudantes que fugiram de Portugal foram prosseguir os seus estudos, em vários países.
Qual era, de concreto, o trabalho do CVAAR?

Prestavámos apoio médico e assistencial às populações angolanas em Leopoldville (Kinshasa) e ao longo da fronteira, onde se encontravam cerca de 150.000 refugiados angolanos em território congolês. Fazíamos também a formação de enfermeiros.
Quando se encontrou com Viriato, já tinha referências dele a partir de Rabat.

O que sabia dele?

Eu já o conhecia do congresso dos estudantes em Rabat, onde ele teve uma intervenção que impressionou toda a gente.
E isso quando é que foi?

Em Setembro de 1961. Foi no Congresso dos estudantes a que já fiz referência.
Então, é nesse evento que inicia a vossa mobilização para o CVAAR?

Mais ou menos, porque o trabalho da mobilização tinha começado em Portugal. Nem todos os estudantes foram trabalhar para Leopoldville. A grande maioria foi acabar os estudos em vários países. Outros foram para o CVAAR em Leopldville.
Quem, naquela altura, coordenou todo esse processo da vossa ida ao Congo Leopoldville?

Os directores do CVAAR, Drs Américo Boavida, Hugo de Menezes e Eduardo dos Santos, que também estavam na direcção provisória do MPLA. Os outros médicos e enfermeiros participaram também na organização do CVAAR. A nossa actividade provocou reacções violentas da parte da UPA que acicatou as populações contra nós, pois a maior parte dos médicos eram mestiços. Houve uma ocasião em que o “jipão” em que seguiam os Drs Eduardo dos Santos, o Rui de Carvalho, e alguns enfermeiros, foi apedrejado quando passava por uma aldeia.
Por populares?

Sim, pela população de uma aldeia de simpatizantes e apoiantes da UPA.
Onde e quando é que isso aconteceu?

Isso aconteceu em 1961 ou 1962, na fronteira entre Angola e o Congo.

Aconteceu porque éramos do MPLA.

Este tipo de incidente repetiu-se várias vezes. Isto significa que o racismo e o clima anti-mestiço, fomentado pela UPA, eram terríveis e dificultavam a nossa actividade. A meu ver, foi esse clima de racismo que fragilizou o Viriato da Cruz e o levou a abandonar a Direcção do MPLA , cometendo assim o seu primeiro erro político.
Que erro?

Sensibilizado pelos ataques contra os mulatos – ouvia-se as pessoas dizerem: “isso é um partido de mulatos e brancos! De filhos dos colonos!” – o que pouco a pouco foi minando as relações no partido e do partido com as populações, Viriato da Cruz decidiu pedir a sua demissão de Secretário Geral do MPLA, em Abril de 1961, numa reunião da direcção do MPLA, seguido por todos outros mestiços da Direcção, nomeadamente ele, o Lúcio Lara e o Eduardo dos Santos.
Mas, por que acha que foi um erro?

Porque foi um sinal de fraqueza em relação aos princípios que norteavam o MPLA.

Esse gesto enfraqueceu bastante os militantes mestiços que trabalhavam no CVAAR. Com efeito, a grande maioria dos médicos eram mestiços.

Durante os meus anos de militância em Portugal, nunca me apercebera dos efeitos negativos do racismo. O racismo é uma coisa terrível. Foi em Leopolville que me apercebi do perigo e do mal que o racismo pode provocar.
Mas não terá sido esse sentimento de racismo implantado pela UPA às populações, já que até elas beneficiavam do trabalho desses mestiços no apoio e assistência médica e outras?

Exacto, um serviço que se estendia até às populações congolesas após um acordo com o governo congolês, em que nós nos prestávamos a estender o serviço médico também às populações congolesas.
E esse serviço médico era ou não remunerado?

A nossa actividade era totalmente voluntária e gratuita durante cerca de três anos.
Como é que sobreviviam?

Também prestávamos serviço, em part-time, na Clinica da Universidade de Lovain um, uma sucursal belga de Louvain, que ficava numa colina a cerca de trinta quilómetros de Leopolville.

Era assim que sobrevivíamos, porque o MPLA não tinha capacidade financeira para nos aguentar a todos.
Mas Kinshasa não era já um território da UPA?

A UPA tinha, de facto, uma grande influência não só junto das populações angolanas refugiadas mas também junto das autoridades congolesas. No entanto, o governo congolês não se podia opor à presença de um movimento nacionalista angolano em luta contra o colonialismo português, mas o governo congolês sempre jogou com um pau de dois bicos. Tinham muita simpatia pela UPA, até porque havia pelo meio laços familiares ou de parentesco entre alguns membros do governo congolês e membros da UPA.

No entanto, nós fomos aumentando pouco a pouco o número de aderentes e de militantes, fomos organizando e trabalhando, prestando apoio médico às populações, com medicamentos e pequenas cirurgias, fundamentalmente graças aos apoios que vinham da Inglaterra, da Suécia e da Argélia.
Nessa altura já se falava de Agostinho Neto?

Não. Não. Neto só aparece três meses depois, de surpresa. Ninguém o esperava. Apareceu no mês de Julho de 1962 e imediatamente se impôs, naturalmente, como sendo o dirigente supremo. Depois houve necessidade de se fazer uma nova distribuição de cargos, pois o partido precisava de continuar em frente. As eleições só aconteceram em Dezembro, na Conferência Nacional.
Em que circunstância é que o Viriato se afasta do MPLA?

Após a Primeira Conferência Nacional do MPLA. Os quadros reuniram-se em Dezembro de 1962 a fim de definir os princípios de orientação da politica de luta anti colonial e das politicas de alianças não só entre os movimentos nacionalistas como também as alianças exteriores. Viriato e Neto tinham posições opostas, pois Viriato admitia aliança com a FNLA na luta contra o colonialismo português, o que Neto recusava. As posições extremaram-se , Viriato ficou em minoria e não foi cooptado para a Direcção dirigida por Agostinho Neto, eleito com maioria absoluta. O Viriato reagiu muito mal a derrota. Não aceitou as decisões da Conferência Nacional. Aliás, os dois reagiram mal, pois foi um erro Neto não ter cooptado Viriato na sua Direcção. Ao retirar-se, Viriato arrastou consigo vários membros da Direcção do MPLA, como Matias Miguéis, José Miguel, e várias dezenas de militantes e de guerrilheiros, organizando-os em MPLA-Viriato. depois das mortes de Matias Miguéis e José Miguel a ruptura entre Viriato e Neto foi total e definitiva. Nunca mais se reconciliaram.
Essas saídas de Viriato e outros não abalaram a estrutura do MPLA?

Claro. O MPLA era, nessa época, um movimento com poucos militantes, cerca de duas centenas entre políticos, humanitários e alguns militares, mas algo muito incipiente. Viriato arrastou consigo cerca de 70 pessoas entre dirigentes, militantes e guerrilheiros.
Mas se o Viriato tinha tanta coisa para oferecer – e dava provas disso – e tinha tanto carisma, como provou ao arrastar consigo influentes figuras, o que terá pesado para a sua derrota diante de Neto?

Neto tinha algumas vantagens sobre o Viriato e o próprio Viriato já tinha nomeado Neto como líder natural: Neto era o Presidente de Honra do MPLA.

Além disso, Neto era doutor (médico) e negro. No entanto, Viriato não reconhecia em Neto nem carisma nem autoridade política. Circularam boatos em que se desconfiava sobre a forma como Neto tinha conseguido escapar à vigilância das autoridades portuguesas e fugir de Portugal. No entanto, de Julho a Dezembro 1962, Neto consegue afirmar-se pouco a pouco e sair da Conferência Nacional como líder incontestado.
Quais as posições concretas em que os dois divergiram?

Muitas. Por exemplo, Viriato admitia que o MPLA não estava em condições de derrotar a FNLA. Na conferência Nacional do MPLA havia duas posições: a de Neto, que não admitia alianças com a UPA ligada aos americanos, e a de Viriato, que já tinha chegado a conclusão de que a única maneira de o MPLA entrar a sério na luta anti colonial, no interior de Angola, era fazer uma aliança com a UPA. Com efeito, nessa altura, as tropas da UPA faziam já uma barreira na fronteira e ninguém passava. Várias colunas do MPLA foram enviadas entre 1962 e 64 e foram dizimadas pelos guerrilheiros da UPA. Havia, portanto, uma hostilidade real entre as duas forças políticas. Estas duas teses foram debatidas na conferência de forma intensa e Viriato ficou em minoria.
Como é que velhos apoiantes de Viriato, como Lúcio Lara e Mário Pinto de Andrade, se aliam a Neto. Por que terá sido?

Havia motivos ligados ao passado de militância política em Portugal. Todos eles foram membros do MUD Juvenil e do Partido Comunista Português, militaram juntos e lançaram entre 1957/58 aquilo que se chamou o MAC (Movimento Anti Colonial), a primeira organização africana anti-colonial.

Neto, Mário e Lúcio estavam nessa militância juntos, durante alguns anos. É a partir dessa militância que se forjaram amizades que duraram anos e anos, como a de Neto com Lúcio Lara e Mário de Andrade. No congresso de Dezembro de 1962, uma parte importante dos quadros políticos apoiou Neto. Aqueles que militaram com Viriato em Luanda, como o Matias Miguéis, alinharam com o Viriato.
Então, Viriato perde, não aceita a derrota democrática, sai do MPLA e vai para a UPA, é isso?

Correcto. O grupo MPLA-Viriato adere a FNLA. Essa adesão não foi imediata. Foram precisas várias tentativas para entrar na FNLA, pois havia muitas resistências em aceitar o grupo MPLA-Viriato. Foi recebido oficialmente na FNLA e Viriato até foi nomeado ministro das relações exteriores.

Simplesmente, na prática, nunca lhe deram autoridade nenhuma. Viriato pensava poder mudar a orientação politica da FNLA mas, pouco a pouco, Viriato chegou a conclusão de que não tinha influência nenhuma no seio da Direcção da FNLA. E, nessa altura, Savimbi recusou coabitar com o Viriato acusando-o de comunista.
E Savimbi não era também comunista, um maoísta?

Não sei. Talvez outro tipo de comunista.
Continuo a não perceber o real motivo do afastamento de Viriato. O MPLA como tal não tinha sido moldado por ele? Foi ele de facto quem forjou o instrumento político progressista que é hoje o MPLA. Foi ele quem elaborou o Programa e os estatutos, e foi ele quem conseguiu mobilizar muitos militantes, até a chegada de Neto. Mas a sua auto-exclusão da Direcção do MPLA, em Abril de 1962, em consequência da onda de racismo desencadeada pela UPA, por ser mestiço, deixou-o numa posição de grande fragilidade politica, o que foi aproveitado por Neto que assumiu imediatamente a direcção do MPLA assim que chegou a Leopoldville.
Como foi possível cometer tamanho erro se se reconhece que Viriato era um homem extremamente inteligente…

Na vida e na política não basta ser-se inteligente, são necessárias outras qualidades, a arte do compromisso, por exemplo. Viriato devia ter aceite as conclusões da Conferência Nacional e voltar à condição de militante de base.

Lembre-se de que ele tinha deixado de ser Secretário Geral do MPLA em Abril desse ano e que, portanto, não tinha nenhum cargo oficial na Direcção do MPLA. A sua conduta de recusa das conclusões da Conferência Nacional e do resultado do voto que davam a chefia do MPLA ao Agostinho Neto foi profundamente anti-democrática e provocou uma ruptura com consequências dramáticas.
Na vossa opinião, o que faltou a Viriato para continuar a frente do MPLA naquele momento crítico em Leopoldville? Faltou-lhe a malícia própria dos políticos.
Ainda assim marcou a sua época!?

Sem dúvida. Em Luanda, entre 48 e 50, foi o jovem que apareceu com ideias novas, foi ele quem lançou o movimento cultural “Vamos Descobrir Angola”. Naquela época as pessoas olhavam para Angola na perspectiva portuguesa. E ele aparece e diz não, vamos olhar para ver o que há em Angola na perspectiva angolana. Ele deu um cunho diferente à poesia angolana.

O Sô Santo, por exemplo.
Será que, politicamente, estava muito avançado para a época, ou nem por isso?

Viriato foi um homem muito culto, simpático, caloroso, possuindo uma cultura invulgar para a época, com uma capacidade de trabalho fora do comum, uma personalidade forte e dominadora, mas tinha os seus defeitos, autoritário e aceitando mal a contradição. Na sua vida, cometeu alguns erros políticos fundamentais.

Por exemplo, o lançamento, em 1955, do Partido Comunista em Angola, baseado na luta de classes, demonstra que ele tinha feito uma análise errada da sociedade angolana. A contradição fundamental da sociedade angolana, naquela fase, era entre o colonialista e o colonizado. A contradição fundamental não era entre as classes trabalhadora e patronato. Foi por isso que o PCA não teve sucesso em Angola. E passado três anos aparece o Movimento para a Independência de Angola, com Matias Miguéis, André Franco de Sousa e outros e que teve maior aceitação entre a população angolana.
E a PIDE deixava o homem, digo Viriato da Cruz, pensar assim à vontade?

Viriato era um homem muito vigiado pela PIDE, e foi essa pressão que o levou a abandonar Luanda em Setembro de 1957, indo juntar-se aos seus camaradas em Lisboa e em Paris.
Se naquela altura era moda e frequente os melhores estudantes virem continuar os seus estudos no império, por que Viriato não terá conseguido?

Viriato não conseguiu obter bolsa de estudos e o seu pai não quis custear os seus estudos superiores em Portugal.
De que forma a chamada guerra fria interferiu na constituição dos dois grandes movimentos de então, nomeadamente FNLA e MPLA?

Os dois partidos estavam muito ligados aos dois blocos imperialistas que havia naquela altura. A FNLA aos americanos e o MPLA aos soviéticos.

A guerra fria era um facto real. Não é por acaso que países como Angola e Moçambique, após a proclamação da independência, recebem assessoria soviética durante muitos anos. Houve de facto uma luta intensa entre os dois imperialistas pela conquista daquelas zonas estratégicas e não só em termos de matérias prima.
Que impressão retém do Viriato da Cruz?

Foi, de facto, um grande nacionalista que dedicou toda a sua vida à luta pela causa da independência do povo angolano. Foi ele quem criou o instrumento político que é o MPLA. Mas, com toda as qualidades humanas, faltou-lhe depois a malícia política e o sentido democrático. Não avaliou bem a forte personalidade do Agostinho Neto.

Lamento que tenha vindo a morrer na China, na mais triste miséria. Os homens não são perfeitos. E acho que ele cometeu erros fundamentais que não devem ser cometidos na política, como o facto de não perceber a dimensão de Agostinho Neto. Não aceitou os resultados democráticos da reunião de 1962. Ele provocou uma fractura de tal ordem que ia liquidando o MPLA.

Se naquela altura não tivesse havido um homem com a forte personalidade de Agostinho Neto, o MPLA estava desbaratado. Quando o MPLA se retira para Brazzaville, em 1973, o movimento estava muito fragilizado. A maior parte dos quadros se tinha exilado, outra parte de militantes e militares tinha saído com Viriato. Tinham ficado muito poucos militantes com Neto.
E, provavelmente, com Viriato terão ido também muito dos apoios material e financeiro do MPLA, ou não?

Não, não. Penso que quem deu o apoio a Agostinho Neto, e não vacilou durante muitos anos, foi a ex-União Soviética. As suas malhas de influência em África e no mundo foram fundamentais para a sobrevivência do MPLA. E nessa altura já tinha ocorrido a revolução marxista em Brazaville, com o apoio dos militantes do MPLA.

Viriato da Cruz não conseguiu apoios financeiros e políticos de ninguém.
Largado o MPLA, ostracizado na FNLA, nessa altura estava definido, então, a partida de Viriato para a China…

Ele era um marxista de tendência maoísta. Foi então convidado pelos chineses a dirigir a Associação dos Jornalistas Afro-Asiáticos. Viriato aceitou e fixou-se então, com a família, em Pequim.
Já disse que era maoísta. Mas, o que terá levado Viriato a continuar em Pequim, quando havia outros destinos?

Quando foi a Pequim, Viriato foi recebido como uma grande personalidade. Maoista, fazendo grandes discursos, apoiando Mao Tsé Tung.

Mas com o tempo, começou a criticar o regime chinês, o que lhe foi fatal.
Mas se não havia ambiente para continuar, por que não abandonou a China?

A certa altura, após uma viagem por países africanos, elaborou um relatório que não agradou às autoridades chinesas. Por outro lado, critica a posição da China de aproximação aos americanos. É ostracizado, então, pelo regime chinês. Vivendo em condições muito difíceis, na indigência, doente, penso que a dada altura ele ficou muito perturbado. Procurou ajuda, bateu a várias portas de embaixadas africanas em Pequim, mas nenhuma delas lhe deu ajuda. Tinha na altura o passaporte da Argélia caducado e não conseguia renová-lo nem arranjar outro. Ficou assim bloqueado na China. Tudo isso está no meu livro [ANGOLA Contribuição ao estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano (50/64)].

Não o leu?
Estou a ler, mas existirão sempre zonas cinzentas…

Claro, porque reconheço que há coisas incompletas e penso mais: outras pessoas deveriam contribuir para o enriquecimento da nossa história.

Que fossem aos arquivos, viessem cá [Portugal] e recolhessem informações para preencher as tais zonas cinzentas. Há sempre zonas cinzentas. Esse conflito que houve entre Viriato e Neto será sempre um motivo de estudo. Mas eram ambos grandes homens, com carisma e personalidade excepcionais.

 

PERFIL

Edmundo Vicente de Melo rocha nasceu no Porto Amboim, actual província do Kwanza-Sul, república de Angola, em 21 de Maio de 1931, tendo aí efectuado os seus estudos primários e parte do secundário em Luanda, no Liceu Nacional Salvador Correia, que completou em Coimbra em 1951. Iniciou os seus estudos superiores de Medicina em Paris, de 1952 a 1954, que completou mais tarde em Lisboa. Especializou-se em Pediatria e em Imuno-Alergologia. É doutorado em Pediatria pela Faculdade de Medicina de Argel (Argélia).

As suas actividades no âmbito da luta antifascista e anti-colonialista podem ser assim resumidas: de 1949 a 1951 foi membro da Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Coimbra; de 1952 a 1954 fez parte do grupo de Paris, tendo então regressado a Portugal, onde deu continuidade às actividades políticas na clandestinidade, primeiro no MUd Juvenil, depois no Movimento Anti-colonialista (MAC), de que foi dirigente, a seguir, do Movimento dos Estudantes Angolanos (MEA).

Enviado pelo MEA, em Abril 1961, para o exterior, organizou na Alemanha, juntamente com Luís de Almeida, desidério Costa e Luiza Gaspar, a fuga de cerca de uma centena de estudantes africanos de Portugal em Junho desse ano.

Com o apoio de Marcelino dos Santos, Secretário-Geral da CONCP, organizou em Marrocos o Congresso Constitutivo da União Geral dos Estudantes dos Países sob domínio Colonial Português (UGEAN), em Setembro de 1961. Fez parte do grupo de 14 angolanos que em Setembro de 1961 instalou o MPLA em Leopoldville, Congo democrático, tendo aí exercido como médico no CVAAr, até terem sido expulsos desse país, em 1964, refugiou-se na Argélia, onde exerceu e leccionou a cadeira de Pediatria na Faculdade de Medicina de Argel, de 1964 a 1975, ano em que voltou para Angola. Foi militante do nacionalismo angolano desde os primórdios, em 1950 e militante de base do MPLA. dirigiu a Casa de Angola em Lisboa e fez parte da direcção da revista Cultural Afro-Letras, tendo editado seis números, de 1998 até 2000.

É autor da obra ANGOLA Contribuição ao estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano (50/64), título que lhe valeu o Prémio Nacional de Cultura, em 2003, e co-autor da obra “ANGOLAViriato da Cruz _ o Homem e o Mito” produzido juntamente com Francisco Soares e Moisés Fernandes.

António Quino
Fonte: O Pais
Foto: O Pais

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