Deficientes auditivos lutam para vencer barreira

Portadores de deficiência auditiva querem plena integração na sociedade
Portadores de deficiência auditiva querem plena integração na sociedade

Márcio Tavira, 16 anos, padece de surdez desde tenra idade. Na companhia dos seus cinco irmãos assiste quase todos os programas da Televisão Pública. É assim que um dos irmãos mais velhos, ao ver a sua situação, passou a ser seu intérprete.
Nos tempos idos, aos nove anos de idade, Márcio ficava atentamente horas a fio concentrado no pequeno écran do televisor para decifrar e registar alguns dizeres pronunciados nos programas televisivos.
Muitos anos depois esse quadro foi invertido, devido à intervenção do irmão, que sempre se prontificou em ajudar a revelar o significado de algumas palavras gesticulando e pronunciando de forma adequada. Devido ao empenho e dedicação do irmão, hoje  o pequeno Márcio já consegue perceber algumas palavras de ocasião sem ajuda do “seu intérprete”.
Termos como  “não”, “vem”, “dá cá”, “recebe”, “vai ali” e “toma isso” já podem ser pronunciados  sem maiores dificuldades pelo pequeno Márcio, que frequenta actualmente uma escola do  ensino especial, situada nos arredores dos Congolenses.
“É um grande sofrimento e de certa forma  frustrante ver um ser humano apreciando um programa televisivo interessante mas sem legenda gestual  e depois no fim não entender nada do que se passou de concreto nesse ou aquele programa”, disse  Geovani Tavira, irmão de Márcio.

Intérpretes na televisão

Histórias como as do Márcio são invertidas no próximo ano, quando a TPA introduzir na sua grelha de programas intérpretes de língua gestual,  com a finalidade de ajudar os deficientes auditivos,  conforme garantiu o Presidente do Conselho de Administração, António Henriques. Especialistas consideram que esse gesto vai minimizar e colmatar algumas  dificuldades com que vivem diariamente os deficientes auditivos em Angola.

Gesto benéfico

O secretário-geral da Associação Angolana dos Deficientes Auditivos (ANSA), António Ramos, disse que “apesar de não estar bem especificado em que programas serão incluídos os intérpretes da língua gestual, só o facto do Conselho de Administração da TPA se ter recordado desse grupo alvo já é um grande reconhecimento”.
António Ramos afirmou ainda que o gesto da TPA é benéfico porque vai possibilitar um melhor acesso à informação dos telespectadores não ouvintes e de um modo geral a inclusão social dos telespectadores que padecem de surdez e mudez.
O secretário-geral da ANSA referiu que aquela Associação está ansiosa em ver esta questão na prática porque, segundo ele, os seus associados já não aceitam coisas teóricas. “Foi anunciado que houve na televisão uma experiência piloto sobre esse assunto mas nós não  vimos nada de concreto”, disse.
Os deficientes auditivos, referiu, sentem-se frustrados quando estão diante de um televisor e não conseguem  entender nada do que se está a passar. “Agora falta algumas instituições públicas, como é o caso do Ministério da Saúde, pronunciarem-se”, precisou. O secretário-geral da ANSA garantiu que associação vai continuar a trabalhar para ultrapassar as principais barreiras de comunicação que os deficientes auditivos enfrentam no seu dia-a-dia.
Carla Luís, directora executiva da Liga de Apoio à Reintegração dos Deficientes (LARDEF), referiu ser louvável a iniciativa da TPA mas “seria importante que os intérpretes estudassem bem o dicionário  angolano de língua gestual”.

Intérpretes treinados

Adão Manuel António, especialista em língua gestual, defende que os intérpretes devem ser bem treinados para passarem uma mensagem correcta. Segundo ele, os intérpretes devem aprofundar a aprendizagem da língua gestual angolana, para melhor transmitirem os seus conhecimentos aos telespectadores com surdez e mudez.
O Jornal de Angola soube de uma fonte que no mundo cada país tem a sua língua gestual. Não existe uma língua padrão. Somente em alguns países como a África do Sul e Suazilândia a língua gestual é quase semelhante, com muito poucas diferenças. Angola, Moçambique, Portugal e Brasil têm as suas línguas gestuais completamente diferentes. “Quer dizer, se colocarmos três elementos desses países juntos, eles terão dificuldades em se comunicarem, porque os gestos são diferentes”.

CÉSAR ANDRÉ

Fontes: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

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