Crise da dívida europeia alastra a caminho de recessão global

Sinais de alarme soam por toda a Europa
Sinais de alarme soam por toda a Europa

Os sinais de alarme soam por toda a Europa e ecoam por todo o mundo. A teoria do contágio concretizase. Já não apenas gregos, irlandeses e portugueses que se vêem em apuros face às taxas de juro exigidas pelo mercado para a colocação dos títulos representativos das respectivas dívidas públicas.

Também a Itália, a terceira economia da Zona Euro e a sétima potência mundial foi contagiada, aliás nada que não se esperasse viesse a acontecer mais cedo ou mais tarde. Segue-se a Espanha, como também já se antevia. Mas o problema ganhou, na última terça-feira, novas proporções quando a França, a Bélgica e até a Áustria foram atingidas pelo sindroma da dívida.

As taxas de juro a 10 anos da Itália superaram a fasquia dos 7% e as aplicadas ás obrigações da dívida pública de Espanha os 6%. O ‘spreads’, ou seja, o prémio exigido pelos investidores para comprar dívida francesa, belga e austríaca em vez de títulos da dívida alemã aumentaram, atingindo a maior diferença de sempre. O ‘spread’ da dívida francesa em relação à alemã subiu até aos 189,78 pontos, o valor mais elevado desde a criação da Zona Euro. Também o ‘spread’ das obrigações belgas e espanholas atingiam novos máximos.

Acto contínuo o euro depreciou-se e os mercados accionistas caíram em toda a Europa. As reacções não se fizeram esperar. A Itália compromete-se a cortar 330 mil postos de trabalho no sector público até 2014, a acelerar o aumento já estipulado na idade de reforma, a agilizar o mercado laboral e assegura que os sistemas de monitorização das despesas do Estado já estão a ser aplicados nos maiores ministérios.

O governo austríaco anunciou que iria introduzir um tecto constitucional ao endividamento com o objectivo de o país manter a notação de risco (rating) máxima, o famoso triplo A (AAA). Para fazer descer o rácio da dívida sobre o PIB dos actuais 75% para 60% até 2020, o Conselho de Ministros austríaco apresentou uma proposta de lei nesse sentido. De acordo com o Financial Times, a proposta impõe ainda cortes orçamentais ao longo da próxima década, de modo a garantir que se consegue reduzir o défice orçamental em € 40.000 milhões. O crescimento da Áustria ficou-se pelos 0,3% no terceiro trimestre.

No dia seguinte o movimento não se invertia. Os juros da dívida espanhola aproximavam-se cada vez mais dos 7%. E foi a vez do ministro das Finanças francês, François Baroin, vir a público assegurar que o governo gaulês tudo irá fazer para manter o rating máximo, adiantando que serão necessárias novas medidas de austeridade para prosseguir tal objectivo. Seis países da Zona Euro mantêm a classificação de triplo A.

Estagnação

As estimativas para o crescimento da Zona Euro para este ano e o próximo são continuadamente revistas em baixa. Entre Julho e Setembro deste ano o produto interno da região apenas aumentou 0,2% em relação ao trimestre anterior. Isto para os 17 países que integram a moeda única. Mas para os 25 que constituem a União Europeia o panorama não é melhor, já que, de acordo com o organismo de estatísticas europeu, o Eurostat, o crescimento registado naquele período se situa em idêntico patamar.

Apenas a Alemanha e França apresentam ritmos de crescimento ligeiramente mais animadores (0,5% e 0,4%, respectivamente) A economia espanhola estagnou no terceiro trimestre deste ano, com o produto interno a aumentar apenas 0,8% face a igual período de 2010. Para Portugal e Grécia o panorama é deprimente já que registam quebras de 5,2% e 1,7%, respectivamente. Terça-feira, a Comissão Europeia baixava as suas expectativas para o crescimento da Zona Euro no segundo semestre deste ano.

A Zona Euro irá expandir-se 0,2% no terceiro trimestre de 2011 e 0,1% no quarto trimestre, estimativas inferiores às formuladas em Março, quando a Comissão apontava para um crescimento de 0,4% em ambos os períodos. Mesmo fora da Zona Euro mas no quadro da União Europeia o rumo da economia não é melhor.

Quarta-feira o Banco de Inglaterra revia em baixa as perspectivas de evolução da economia britânica para 1% em 2012, valor que se situa sensivelmente abaixo dos 2% projectados em Agosto. A Comissão Europeia reviu igualmente em baixa as perspectivas de crescimento da Zona Euro em 2012, situando-as agora em 0,5%.

Apesar de reiteradas juras públicas dos principais responsáveis da Zona Euro de que esta não será fragmentada, contrariando as notícias postas a circular a passada semana de que a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, já colocavam a hipótese de uma “Europa a duas velocidades”, separada por um novo “Muro de Berlim monetário”, em que nos países periféricos circularia um euro de ‘segunda divisão’, o certo é que a deterioração acelerada da realidade europeia deixa os analistas cada vez mais cépticos quanto às possibilidades de sustentação da moeda única a nível dos 17 países que integram a Zona Euro. Para o economista Nouriel Roubini, que se celebrizou por prever a crise imobiliária (subprime) que afectou os Estados Unidos em 2008, é provável que a Grécia abandone a Zona Euro nos próximos 16 a 18 meses. Segundo Roubini seguirse-á Portugal.

Sem soluções

Mas o problema já não se restringe à crise de endividamento que afecta os países periféricos, que não chegam a representar 7% do PIB do conjunto da eurolândia. As dificuldades que já afectam ‘gigantes’ como a Itália, a Espanha e mesmo a França poderão provocar um efeito dominó, que atingirá não só a Europa mas toda a economia mundial. Até porque o crescimento dos Estados Unidos não é famoso (a Reserva Federal norte-americana reviu, ainda há duas semanas, em baixa as suas previsões para os próximos anos, antecipando um crescimento económico entre 2,5% e 2,9% em 2012, menos 8 décimas que o esperado em Junho) e Barack Obama não esconde o seu nervosismo com a rampa inclinada em que a Europa parece rolar. “Até que haja um plano concreto, que dê sinais claros aos mercados de que a Europa está sólida por detrás do euro, e que fará tudo o que for necessário, continuaremos a assistir ao tipo de turbulência nos mercados que temos vindo a assistir”, disse Barack Obama esta quarta-feira na Austrália.

As organizações internacionais não escondem o pessimismo. Em documento preparado para ser apresentado durante a cúpula do G-20, grupo das 20 maiores economias do planeta, mas divulgado apenas no passado sábado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta para o elevado risco de as economias avançadas voltarem à recessão. De acordo com o Fundo, a recuperação económica continua em “marcha lenta” naqueles países e a normalização financeira só será alcançada caso as autoridades actuem com urgência para impulsionar o crescimento.

O problema é exactamente este, as autoridades actuarem com urgência, com a mesma urgência com que operam os mercados, mas não se vislumbra como tal possa acontecer.

O receio da inflação faz com que a Alemanha se oponha tenazmente a que o Banco Central Europeu (BCE) compre dívida dos países em aflições. Por outro lado, o BCE está impedido, pelo seu estatuto, de emitir moeda, à semelhança do que faz a Fed, a Reserva Federal norte-americana ou o Banco de Inglaterra. E, finalmente, como assinala a agência de notação financeira Moody ́s, o Fundo Europeu de Estabilização (FEEF) não tem capacidade para suportar de forma significativa a dívida dos países do euro.

Enquanto os políticos se arrastam à procura de decisões os mercados não param e a crise generalizada aproxima-se a um ritmo galopante.

Luís Faria
Fonte: O Pais
Foto: O pais

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