Corvos ao Imbondeiro os lendários comandos

Jovens angolanos que estiveram ou estavam integrados nas forças armadas portuguesas no cumprimento do serviço militar obrigatório, abandonaram as fileiras para se juntarem às forças revolucionárias, logo após o 25 de Abril de 1974. Um grupo de antigos “comandos” foi ao Estado-Maior General das FAPLA apresentar um plano para executar operações especiais. Na altura, os dirigentes políticos do MPLA recusaram porque apostavam tudo na paz e na realização de eleições. Mas em breve se percebeu que o triunvirato Nixon, Mobutu e Spínola queria a guerra e impor no poder a FNLA pela força das armas.
A ocupação das províncias do Zaire e Uíge por tropas zairenses e mercenários obrigou Agostinho Neto a exigir de Portugal que travasse imediatamente a “invasão silenciosa de Angola pela fronteira norte”. As tropas portuguesas abandonavam as suas posições e refugiavam-se em Luanda. Já não era possível ignorar a estratégia de ocupação de Angola pela força das armas. Foi nesse momento que nasceram os “Corvos ao Imbondeiro”.
“As FAPLA tinham homens experientes mas estavam a registar muitas baixas, porque só tinham combatido na táctica de guerrilha. Foi então que nos oferecemos para dar instrução militar e colaborar na organização das forças. A nossa proposta, num primeiro momento, foi rejeitada. Mas nós continuámos a trabalhar, no Centro Social de São Paulo e depois na casa do nosso camarada Minguito, no Bairro Operário. Acabámos por criar a Companhia de Intervenção e Defesa Popular”, conta à nossa reportagem Nelson Gaspar, o comandante da companhia.
António Jacinto tinha contactos com o grupo, no Bairro Operário, e propôs a sua integração nas FAPLA. Mas havia quem desconfiasse de militares que tinham servido nos “comandos” portugueses. E o grupo continuava a fazer a sua preparação “para o que desse e viesse”.
Os dirigentes do MPLA perceberam que Angola estava a ser invadida e era preciso travar essa invasão. E como todas as forças eram poucas para responder ao “cerco” a Companhia de Intervenção e Defesa Popular foi finalmente aceite: “no início ficámos a responder a Henrique Abranches. Numa fase mais avançada, ficámos na dependência do Estado-Maior General das FAPLA”, recorda Nelson Gaspar.
A partir do momento em que a companhia foi integrada nas FAPLA, os seus membros foram ocupar o Centro de Instrução de Comandos onde faziam treino militar. Esporadicamente faziam operações.

Os corvos do quartel

Os combatentes da Companhia de Intervenção e Defesa Popular tinham as suas profissões e empregos, porque a maioria já tinha sido desmobilizada dos “comandos” portugueses. Como era uma unidade especial que apenas actuava em situações de emergência, era necessário juntar todos os combatentes de uma forma rápida, para não haver perda de tempo. “No centro de Instrução de Comandos há muitos embondeiros e ainda mais corvos. Como tivemos que arranjar uma senha para todos nos juntarmos rapidamente, lembrámo-nos de adoptar a expressão corvos ao imbondeiro. Trabalhávamos com um rádio sempre ao lado. Assim que ouvíamos os locutores dizer corvos ao imbondeiro nós íamos para o quartel, vestíamos as fardas, pegávamos nas armas e avançávamos para o combate. Actuámos em todo o país”, disse Nelson Gaspar, o comandante da companhia.

Batalha do Catofe

Os “Corvos ao Imbondeiro” fizeram inúmeras operações. No dia 11 de Novembro de 1975 foram enviados para o Waku Kungo: “uma coluna militar sul-africana estava a progredir do Sumbe para a estrada entre o Huambo e Luanda. Nós fomos enfrentá-los no Catofe. Vinham com blindados e artilharia, mas acabaram por retirar. Foram derrotados. Essas forças tinham como destino Luanda, para reforçar as tropas que eles tinham no Kwanza-Sul e foram travadas na batalha do Ebo. Nem uns nem outros puseram os pés em Luanda”.
Os “corvos” tiveram um papel importante na libertação do Norte de Angola. Quando terminou a Batalha de Kifangondo, as forças armadas do Zaire começaram a retirada, na companhia dos mercenários e dos comandos do coronel Santos e Castro. Foram eles que libertaram o Nzeto: “a partir desse ponto preparámos outras ofensivas fulminantes”.

Libertação do Soyo

Os comandantes Ndozi e Ndalu decidiram avançar rapidamente sobre o inimigo, para libertar completamente o Norte de Angola. As tropas da Nona Brigada estavam equipadas com blindados e artilharia, por isso tinham uma mobilidade reduzida. Para acelerar a ofensiva, os “Corvos ao Imbondeiro” foram lançados na linha da frente e conseguiram resultados espectaculares.
“Depois da Batalha de Kifangondo foi preciso fazer um compasso de espera para repor a ponte do Panguila. Mas quando a estrada ficou operacional, o Norte de Angola foi libertado em apenas dois dias. Fizemos um avanço fulminante. Os comandantes da Nona Brigada estiveram sempre presentes nessa ofensiva”, revelou o comandante da Companhia de Intervenção e Defesa Popular.
No dia 7 de Janeiro de 1976 o Nzeto, importante base das forças invasoras, foi libertado. Forças cubanas ficaram nessa posição e os “Corvos ao Imbondeiro” regressaram a Luanda. Alguns dias depois, Ndozi e Ndalu deram ordens de avanço das forças para o Soyo. O general Sayas, cubano, disse que era imprescindível a presença da Companhia de Intervenção e Defesa Popular.
“O comandante Ndalu deu-nos ordens para avançarmos e nós partimos de imediato. Horas depois entrámos no Soyo. A operação foi facilitada porque chovia muito e o inimigo não detectou a nossa aproximação. Quando estávamos no centro do Soyo parou de chover e demos conta que estávamos no meio do inimigo. Uma hora depois estava tudo terminado. Eles perderam 200 homens e nós tivemos apenas um morto e um ferido”, relata Nelson Gaspar.
O ferido foi o próprio comandante da Companhia de Intervenção e Defesa Popular, que foi atingido no peito e numa perna: “o nosso camarada Pilartes da Silva morreu em combate. Foi um dia muito triste para todos nós, apesar de naquele momento ter ficado libertado todo o Norte de Angola”.

Homenagem a Pilartes

Nelson Gaspar conta que no Soyo alguns mercenários foram feitos prisioneiros. Um avião da TAAG que tinha sido roubado pelo inimigo e andava a fazer serviço de transportes para os invasores foi recuperado. O Soyo era terra livre de tropas estrangeiras: “a morte de Pilartes da Silva foi para nós um grande revés. Enquanto a Companhia de Intervenção e Defesa Popular existiu, travou muitos combates e fez muitas operações. Nunca ninguém tinha morrido. Logo foi acontecer com um valoroso combatente cuja família já tinha dado à causa da independência mais três filhos”.
O comandante da Companhia de Intervenção e Defesa Popular recebeu a promessa de que o local onde tombou Pilartes da Silva ia ser baptizado com o seu nome: “infelizmente, até hoje, a promessa não foi cumprida. Neste dia 11 de Novembro de 1975 eu apelo aos dirigentes angolanos para que cumpram essa promessa. É uma forma de homenagear todos os combatentes da companhia e uma família que deu quatro filhos à causa da Independência Nacional”.
Nelson Gaspar quer fazer mais um pedido: “todos nós fomos patenteados pelas Forças Armadas Angolanas e temos pensões de antigos combatentes. Mas tínhamos quatro camaradas portugueses, o Pinto, que exerce a profissão de oculista, o Américo, que é professor universitário no Lubango, o Romano, padeiro e o Gringo que já fez tudo na vida e agora é taxista. Eles já viviam em Angola antes da independência e continuam connosco. Querem obter a nacionalidade angolana, para depois serem patenteados como todos os outros camaradas. Peço às autoridades para despacharem o processo de nacionalização destes quatro homens, que deram o seu melhor pela Independência Nacional e que são tão patriotas como o mais patriota dos angolanos”.

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: João Gomes

 

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