Competitividade passa por boas finanças

A necessidade de abraçar as novas práticas de gestão começa a ser uma ambição das empresas pois os tempos são outros
A necessidade de abraçar as novas práticas de gestão começa a ser uma ambição das empresas pois os tempos são outros

A competitividade das empresas passa pela sua sustentabilidade financeira, o que deve ser visto como um factor primordial, juntamente com a necessidade de se alicerçar em boas práticas de gestão, uma exigência dos tempos actuais. Esta é a visão de Paulo Dinis, presidente do Centro de Negócios da Accenture Angola, em entrevista ao Jornal de Angola. A competitividade das empresas angolanas face ao mercado doméstico e global, a dinâmica assumida por elas face aos novos desafios, bem como a adaptação das mesmas à nova realidade, foram assuntos abordados nesta entrevista.

JA – Qual é a maior preocupação das empresas actualmente?

PD – Hoje há a preocupação das empresas abraçarem novas ferramentas e novos métodos de actuação. Até há pouco tempo, os sectores eram estanques. Agora estão a aparecer empresas com forte tendência para a internacionalização, o que exige que tenham de adaptar novas ferramentas à realidade local. É preciso que as empresas criem novas competências e capacidades. Também é preciso que respondam à realidade local e às exigências dos clientes. Se antes o mercado era Luanda, hoje a situação não é a mesma, pois já se pensa em cadeias de distribuição e transportes nacionais eficazes.

JA – O que devem fazer?



PD
– É preciso que as empresas despertem para os desafios da competitividade e se esforcem por atingir um bom desempenho. Por isso, devem esforçar-se em adoptar boas práticas de gestão, sendo também importante que ao posicionarem-se no mercado saibam o valor que têm.

JA – Os clientes o que procuram mais?

PD – Há uma clara preocupação das empresas em reforçarem a questão do capital humano. Nesse sentido, a Accenture tem dado o seu melhor. Essa continua a ser uma preocupação das empresas angolanas, por ser um ponto essencial do desenvolvimento de competências. Agora, a preocupação reside no modo como se processa a passagem de conhecimento. Temos um capital que traz toda essa dimensão, que é a partilha de conhecimento mundial, tornando fácil a busca de conhecimentos noutras realidades.

JA – Os resultados da formação de quadros têm sido bons?

PD – Têm sido excelentes. O que nos pedem com mais frequência é a passagem de conhecimento. Mas há também a questão da prestação de serviços na área da estratégia, que é uma das valências. Quando o cliente procura um aconselhamento mais técnico do caminho a seguir, podemos sempre orientá-lo na perspectiva da internacionalização da empresa, mas antes é preciso orientá-lo para que mercado deve ir. Os mercados emergentes são propícios a novos investimentos.

JA – Já se pode falar em internacionalização em Angola?

PD – Há muitas empresas angolanas no exterior e há também empresas que já estão num patamar de desenvolvimento que lhes permite pensar nesse âmbito. Fazer investimentos no exterior é sempre um desafio e, neste sentido, aconselhamos a adopção de práticas e ferramentas empresariais mais avançadas. É preciso ajudar estas empresas que se estão a internacionalizar a adaptarem-se sempre, a expandir e a sair para novas realidades.

JA – Existem muitas oportunidades de negócios no mercado angolano?

PD – O mercado angolano está a desenvolver-se nas suas múltiplas formas, o que abre perspectivas para novos negócios. Mais uma vez, é preciso que as empresas consigam sustentar os próprios modelos de negócios e a própria formação dos recursos. Hoje em dia, não basta operar num ou outro local. É preciso saber quais devem ser os resultados e ajustá-los à realidade. O fundamental é também fazer a análise da rentabilidade dos próprios negócios e dos próprios investimentos.

JA – Os empresários angolanos devem abraçar a inovação?

PD – A necessidade de abraçar as novas práticas de gestão começa a ser uma ambição das empresas, pois os tempos são outros e as exigências dos mercados também. Essa vai ser claramente a tendência das empresas angolanas. Parte delas começa a olhar para essa situação com mais seriedade e até como investimento. O crescimento de Angola tem de ser sustentado com a existência de um tecido empresarial forte. Se há crescimento da economia angolana, é preciso que também os empresários consigam responder e adaptar-se às mutações do mercado, cujas exigências são cada vez mais agressivas.

JA – E se não o conseguirem,  o que acontece?

PD – Com a concorrência a que se vai assistindo actualmente, se as empresas não se adaptarem aos novos tempos acabarão por ficar ultrapassadas. As pessoas não podem estar agarradas aos modelos tradicionais. Sabemos que existem realidades de mercados que se distinguem pelas mutações e dinâmicas. São exemplos a seguir e temos acompanhado as novas tecnologias nos estágios mais avançados de desenvolvimento.

JA – As nossas empresas estão a adoptar boas práticas de gestão nestes tempos de incerteza?

PD – É o que vejo no dia-a-dia. Há essa preocupação por parte das empresas que são clientes da nossa consultora. É uma necessidade que as próprias empresas vão tendo com o tempo, fruto da troca de experiências e da própria necessidade de atingir a excelência e alto desempenho, o que  é um desafio.

JA – Que avaliação é que faz da banca nacional?

PD – A banca angolana é um dos sectores que tem de reagir mais rapidamente a estes aspectos, pois a concorrência exige que a adopção de novas práticas se evidencie. A banca tem desafios grandes relacionados com a economia e o país. A necessidade de concessão de crédito, expansão e fidelização da população são desafios deste sector, que vai crescer muito, pois tem espaço para evoluir. Tem desafios para responder e garantir os rácios de gestão e contabilidade.

JA – A situação portuguesa cria algum receio na banca angolana?

PD – Acho que não há nada a recear nesse sector, porque o capital dos bancos angolanos é nacional e todos eles têm uma implantação nacional. Acho que a crise em Portugal não deve ser motivo de receio para as empresas e a banca no país. Angola tem a vantagem de ter grandes perspectivas de crescimento.

JA – O investimento de Portugal em Angola, ou o inverso, não cessa por isso?

PD – Claro que não. Apesar da situação, o investimento não vai cessar. Antes pelo contrário, vai crescer. As empresas vão continuar a operar. Aliás, estas situações fazem com que se canalize todo o investimento para os países emergentes. Temos um estudo de alto desempenho que diz que as empresas que investem em tempos de “down time” são as que conseguem ter uma maior desenvoltura e expandir-se. Aquelas empresas que se preparam para tempos difíceis são as que conseguem estar sempre em melhores condições. Angola é um mercado que está a crescer e que deve adequar-se à nova realidade do século XXI. A tendência das empresas portuguesas é a de procurarem novos investimentos em países emergentes.

JA – Quais são as áreas em que a Accenture trabalha?

PD – A Accenture tem um escritório em Angola desde 2006 e tem estado a trabalhar nos sectores da energia, recursos naturais e ambiente, telecomunicações. Estamos organizados em áreas de especialidade e por áreas de conhecimento, como finanças, estratégias e operações, recursos humanos e comércio. Usamos essas valências para responder aos desafios do próprio mercado.

JA – O que vos diferencia das outras empresas do ramo?

PD – O conhecimento que temos da tendência dos mercados e a experiência que absorvemos através do contacto que estabelecemos com profissionais de outros países, fazem com que tenhamos este valências diferenciadas. Absorvemos realidades de outros pontos e reaproveitamo-las e adaptamo-las à realidade local. Existem soluções inovadoras disponíveis, mas sempre entendemos que não basta importá-las, é preciso saber como adaptá-las localmente e as empresas nacionais e internacionais procuram o modo como funcionam os mercados. Há um outro aspecto fundamental para as empresas, que é a questão da estratégia e do capital humano. Mas, só um plano estratégico não basta, é também fundamental que se desenvolva uma cadeia logística, capaz de suportar os planos estratégicos.

JA – As empresas angolanas pensam na fidelização do cliente aos seus serviços?

PD – As empresas devem oferecer produtos e serviços com qualidade a ponto de provocarem a fidelização do cliente aos seus serviços. A fidelização dos clientes é fundamental para o sucesso e crescimento das empresas, pois significa aceitação dos produtos da empresa. Há uma confiança entre empresa e cliente.
E isto só é possível quando se dá a atenção merecida ao cliente. Desenvolvemos uma estratégia de crescimento e recrutamento local, numa altura em que temos 40 colaboradores nacionais. Em Angola, numa perspectiva de longo prazo, vamos fazer mais investimento na capacidade do capital humano.

JA – Qual é a abordagem do vosso estudo “Imperativos de negócios num contexto de incerteza económica”?

PD – A abordagem deste estudo está voltada para a necessidade de dotar as empresas com ferramentas que lhes permitam atravessar situações de incerteza. No presente momento, há empresas que lutam por sobreviver e outras que aproveitam a sua posição no mercado para aumentar as vantagens competitivas e saírem reforçadas. A globalização tem acentuado o risco para as empresas. Paradoxalmente, um maior compromisso com o mundo multipolar oferece às organizações os elementos fundamentais para adaptarem a sua resposta à contracção económica e, ao mesmo tempo, posicionarem-se para o futuro.

JA – Quais são os imperativos de negócios?

PD – Hoje muitas empresas enfrentam esta situação numa posição mais forte do que enfrentaram situações anteriores semelhantes. Contudo, as circunstâncias são agora mais complexas. A turbulência financeira e uma menor flexibilidade para a mudança representam um risco acrescido.  No contacto que temos com os nossos clientes, identificamos os imperativos de negócio à volta dos quais se estão a centrar os esforços de transformação das empresas no contexto actual, que passam pela excelência e agilidade operativa, gestão de custos rápida e sustentada, aquisição e retenção de clientes, execução eficaz de fusões e aquisições e a gestão estratégica do talento.

JA – Os tempos actuais favorecem as aquisições e fusões?

PD – A turbulência económica abriu caminho a uma nova onda de fusões e aquisições, tanto domésticas como transfronteiriças.
Períodos económicos com características semelhantes ao que vivemos mostraram ser um excelente trampolim para muitas das actuais empresas líderes globais de diversos sectores de actividade, graças em grande medida a bem sucedidos processos de aquisição ou de investimento. Ao analisar um potencial processo de fusões e aquisições, as empresas devem avaliar detalhadamente as várias vertentes de sinergias e de obstáculos associados à operação.

 

João Dias

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Dombele Bernardo

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