Cemitérios profanados

Os responsáveis têm envidado todos os esforços para travar a destruição de campas nos cemitérios de Luanda
Os responsáveis têm envidado todos os esforços para travar a destruição de campas nos cemitérios de Luanda

O director dos Serviços de Cemitérios do Governo Provincial de Luanda, Filipe Mahapi, revelou que anualmente são sepultados entre 15 a 20 mil corpos, sendo o cemitério da Camama, no município do Kilamba Kiaxi, que mais corpos recebe. E reprovou a desorganização de muitos funerais e a venda e consumo de bebidas alcoólicas junto dos cemitérios.
Madalena Adão, 28 anos, mãe de três filhos com menos de seis anos, está separada do marido. Vivia em Viana, junto ao antigo mercado da Estalagem. Por convite de um familiar, foi a uma festa e deixou as crianças em casa. Minutos depois, o convívio que decorria de forma harmoniosa, transformou-se em desgraça. Madalena recebeu uma chamada de um vizinho dando conta que a sua casa estava aem chamas, com os três filhos dentro.
Madalena deu um grito de desespero e foi para casa, acompanhada por muita gente que estava na festa. As chamas, cuja origem se desconhece, provocaram a morte das crianças.
Madalena Adão não queria acreditar que no que estava a ver, uma vez que os três filhos eram a razão da sua existência. Desesperada, atirou-se para o fogo. Devido ao grau elevado de queimaduras morreu com os três filhos.
A tristeza invadiu familiares, vizinhos e as companheiras do mercado da Estalagem, onde ganhava o seu pão de cada dia para o sustento dos filhos.
O óbito teve o apoio de familiares e do Município de Viana. Horas antes da realização do funeral, vários jovens consumiam bebidas alcoólicas a poucos metros da casa do óbito. O à vontade com que conversavam revelava não terem sentimentos face à tragédia.
Durante o cortejo fúnebre, muitos acompanhantes conduziam as viaturas com música alta, faziam ultrapassagens irregulares, colocavam a vida em risco. O pior aconteceu quando uma das viaturas, conduzida por um ­jovem com 25 anos, decidiu ultrapassar em alta velocidade o cortejo e bateu de frente contra um camião. Quatro jovens estavam a bordo com uma garrafa de whisky enquanto ouviam música no máximo do som. Iam a ouvir “Azar da Belita”do músico Baló Janúario.

Álcool nos cemitérios

Junto à porta do Cemitério Municipal de Viana, a reportagem do Jornal de Angola encontrou vários jovens a consumirem bebidas alcoólicas. O local estava cheio de bancas onde se vendiam bebidas. Muitos acompanhantes do funeral de Madalena Adão ficaram fora de cemitério a ingerir álcool.
No Cemitério da Mulemba, o cenário não é diferente. Os funerais são desorganizados e o consumo de bebidas alcoólicas à porta toma conta do cenário. O clima é de lazer, com comes e bebes, música alta e grandes gargalhadas.
No regresso dos funerais, a pressa muitas vezes resulta em acidentes de viação, chegando mesmo a causar mortes, como ocorreu há dois anos na província do Huambo, ode mais de 30 pessoas perderam a vida, quando regressavam de um funeral. O camião que os transportava, circulava em excesso de velocidade e capotou.

Campas profanadas

Em Luanda, havia indivíduos que altas horas da noite entravam nos cemitérios para partirem campas e retirarem ossadas. O director dos Serviços de Cemitérios, Filipe Mahapi, disse ao Jornal de Angola que maior parte dos casos de vandalismo nos cemitérios era de autoria de pessoas com problemas mentais. Mas também havia bandidos.
Roubavam tampos das campas em mármore, para posteriormente venderem. Com a abertura de mais lojas de venda de mármores esse tipo de roubo acabou.
Filipe Mahapi disse que sente alguma tristeza quando vê as pessoas nos comes e bebes e a dançar como se estivessem numa festa, quando se trata de funerais.
“Há até quem leve caixas térmicas com bebidas alcoólicas para consumirem durante o cortejo fúnebre e fora do cemitério”.
Os Serviços de Cemitérios têm feito tudo para acabar com as vendas de bebidas alcoólicas à aporta dos cemitérios, “por constituir um total desrespeito para com os mortos. Perderam o medo, e o respeito. A fiscalização e a Polícia fazem o seu papel, mas no dia seguinte voltam a vender, pelo que defendo medidas mais duras para desencorajar essa prática”, disse.

Baixa da mortalidade

O responsável dos Serviços de Cemitérios disse que alguns cortejos fúnebres realizados em Luanda  representam autênticos atentados à vida, pois ficam transformados em corridas de carros e muitos jovens chegam ao ponto de se pendurarem nas viaturas. Mas nem tudo são más notícias. Filipe Mahapi disse que entre 2000 e 2002 os cemitérios da Camama e da Mulemba, recebiam 100 a 150 funerais por dia.
Actualmente, os Serviços de Cemitérios estão a realizar cerca de 50 funerais diários. Em comparação com o passado, a mortalidade tem baixado anualmente de uma forma drástica.

André da Costa

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: JA

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