Ardinas de Luanda arautos das notícias

O mercado de publicações está a alargar e a actividade informal dos ardinas está longe de dar resposta à procura e precisa de regulamentação
O mercado de publicações está a alargar e a actividade informal dos ardinas está longe de dar resposta à procura e precisa de regulamentação

O negócio dá algum dinheiro mas exige sacrifício. É com este espírito que os ardinas trabalham, todas as horas de todos os dias, meses e anos. A capital de Angola é das poucas cidades que ainda tem nas ruas os ardinas e os seus pregões.
Rua Tenente Valadim, um sábado de manhã. Vários ardinas vendem todos os jornais e revistas que circulam em Angola. Se perguntarmos pelo nome da rua, os ardinas desconhecem. Mas se falarmos do “beco” que fica por trás da Africana, uma das casas mais antigas de venda de jornais e revistas de Luanda, toda a gente sabe.
Diariamente mais de 200 jovens vão à Africana para adquirir os jornais e revistas. É no sábado que o “beco” tem mais gente. Para além do Jornal de Angola vendem também os semanários e revistas.
Pouco depois das cinco da manhã surge o primeiro ardina, João Mafulikila, de 30 anos.
O Jornal de Angola vende-se bem. Ardina há 13 anos, Chando, como também é conhecido, trabalha de segunda a sábado.
Pai de duas meninas, com o negócio dos jornais consegue manter as condições básicas à família e também construiu uma casa, onde vive.
Chando acorda às 4h30. Às 5h15 o táxi deixa-o na Mutamba. Depois de adquirir os jornais, parte para o Largo 1º de Maio. Antes de começar a venda na rua, faz a distribuição dos jornais às empresas que são clientes certos. O processo de distribuição é feito a pé. “Todos os dias tenho de andar a pé de empresa em empresa para entregar os jornais. E quanto mais cedo melhor para mim”, diz.

Negócio facilitado

Outros jovens se aproximam do “beco do bolão”. Embora cheguem cedo ao local para adquirir o jornal, os ardinas nem sempre conseguem despachar-se a tempo, por dependerem dos grossistas.
O Jornal de Angola sai para a rua entre as cinco e as seis da manhã, mas há dias em que atrasa, “uma situação que preocupa os ardinas”, diz João Mafulikila.
Depois começam a chegar os grossistas. Uns de carro e outros de mota. E logo depois o corre-corre. Nessa confusão, em uníssono os ardinas perguntam: “Qual é a manchete? Quem está na capa ”?
Nem todas as manchetes são aprovadas pelos ardinas. O que vende é a informação quente. Marcolino Salomão vende jornais há 16 anos. Acorda às 4h00 para se deslocar à Mutamba, local onde adquire os jornais. Os ardinas dependem dos grossistas.
Francisco Paixão é grossista há um ano. Antes de se tornar grossista também vendia jornais na rua. Hoje trabalha com seis jovens que o ajudam na revenda de rua, enquanto ele despacha jornais a outros ardinas. Quando termina a venda, Francisco faz a entrega nas empresas. Neste momento, Francisco só vende Jornal de Angola, embora já tenha vendido semanários.
Francisco chega à gráfica das Edições Novembro, na Cuca, às 4h30. “Quando o jornal sai cedo, consigo vender maiores quantidades”, conta o grossista, que já chegou a levantar 1.100 jornais por dia mas agora só vende 800 porque recebe menos jornais. “Muitas vezes só saio da Cuca às 8h00 e com o engarrafamento chego tarde à cidade para despachar os ardinas. E quando levamos o jornal por volta das 10h00 ou 11h00 muitas empresas não aceitam receber”, afirma com tristeza.
Muitos aproveitam também para aumentar o preço do jornal. “É a luta pela sobrevivência. Se há maior procura é porque a matéria é boa e podemos acrescentar 50 ou 100 kwanzas ao preço oficial”, conta João Mafulikila.
Os ardinas anunciam a notícia. Correm atrás dos carros nos engarrafamentos e dão a ler o jornal a quem passa. É o caso de Manuel Bernardo. encontrámo-lo a subir da Mutamba para o Kinaxixi. Passavam alguns minutos das 9h00 e o engarrafamento era infernal. Além do Jornal de Angola e do Jornal dos Desportos levava vários semanários.

Ardinas arquivistas

Há ardinas que para além dos jornais recentes vendem edições passadas, desde 2002 até este ano. São os ardinas arquivistas. Quando precisam de alguma informação muitos leitores recorrem aos ardinas de “bancada”. David Lino vende jornais antigos. Há sempre quem compre. Os jornais antigos são os que mais rendem. Um semanário antigo pode custar 500 kwanzas. O ardina arquivista pode vender o Jornal de Angola a 250 kwanzas. “O negócio é rentável. Precisamos de ter apenas paciência. Como qualquer negócio, há momentos em que se revende e outros não. Mas felizmente sou sempre procurado pelas pessoas”, disse David Lino.

Um Arão empregador

Falar de ardinas é referir também os primeiros revendedores de rua. Arão Abias ou simplesmente tio Arão é um ardina veterano no “beco do bolão”. Tem 52 anos, 24 dos quais a vender jornal.
Tio Arão começou por vender o Jornal de Angola e mais tarde revistas e semanários. Já não deambula pelas ruas, porque se tornou um empregador.
Continua a acordar cedo para garantir o negócio. Tio Arão vende jornais e garante emprego a outros jovens. Antes eram 45 jovens mas agora apenas 20 são seus empregados. A redução de colaboradores deve-se a “más contas”.
Tio Arão diz que “eles querem emprego mas quando chega a hora as contas dão sempre erradas. E há os que fogem com o dinheiro”, desabafou. Tio Arão diz que vender jornais “é um trabalho que dá para nos organizarmos e para ninguém andar a mendigar.”

Quiosques Edições Novembro

A legalização da actividade dos agentes distribuidores ou dos ardinas é uma acção que está a ser desenvolvida pela Empresa Edições Novembro e vai continuar nos próximos meses, garantiu o administrador para as áreas Comercial, Transporte e Vendas, Santos Júnior.
Neste momento, disse, estão a ser estabelecidos contactos com os Ministérios do Comércio, Finanças e Governo Provincial de Luanda, para permitir que os ardinas tenham melhores condições de trabalho.
“Depois da saúde e alimentação, a informação constitui um sector importante para o desenvolvimento social”, disse Santos Júnior, para quem a actividade dos ardinas é comercial e requer o cumprimento das regras normais do trabalho.Santos Júnior disse ainda que a sua área vai também trabalhar com o Ministério do Interior e com o Comando Provincial da Polícia Nacional, para serem definidos os padrões de identificação dos agentes distribuidores de jornais.
“Na última reunião que tivemos com os ardinas e agentes de circulação fomos informados de que vêem sendo constantemente penalizados pelos órgãos policiais, pelo facto de transportarem grandes quantidades de jornais em motorizadas.
Queremos minimizar a situação com a identificação dos agentes de distribuição de jornais”, precisou. Para melhorar a distribuição e comercialização do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos e Semanário Economia e Finanças, a Empresa Edições Novembro vai criar uma empresa distribuidora que tem como finalidade deixar ficar os jornais nos postos de distribuição identificados a fim de levarem os jornais aos municípios.
“Com a empresa distribuidora os jornais vão chegar onde até agora não foi possível”, disse Santos Júnior.
A empresa, explicou, fica interligada aos quiosques que estão a ser montados no país para darmos melhores condições de trabalho aos agentes distribuidores e ardinas e diminuirmos os prejuízos do negócio causados pelas chuvas, assim como os transtornos na via pública, na medida em que os ardinas continuam a embaraçar o trânsito rodoviário e os passeios. “Os ardinas devem existir mas de forma organizada”, frisou.
O administrador para as áreas Comercial, Transporte e Vendas, admitiu que algumas vezes os jornais saem tarde por razões técnicas.
“Uma situação dessas acontece raramente”, explicou Santos Junior, acrescentando que outro motivo que leva a que os jornais cheguem tarde à rua prender-se com o facto dos agentes chegarem tarde aos pontos de distribuição.
“O Jornal de Angola, Jornal dos Desportos ou o Semanário Economia e Finanças começam a ser impressos entre as meia-noite as duas da manhã, mas os ardinas somente a partir das 5h00 começam a chegar aos pontos de distribuição.
Este horário provoca grandes aglomerados de pessoas e isso atrasa a distribuição dos jornais”, concluiu, o administrador para as áreas ComercialTransporte e Vendas, Santos Júnior.

 

Cristina da Silva

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Dombele Bernardo

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