Aeroporto do Bom Jesus tem valor estratégico

Aeroporto do Bom Jesus
Aeroporto do Bom Jesus

Acompanhado por vários ministros (como o ministro de Estado e chefe da Casa Militar, ministro da Defesa, o do Urbanismo e Construção, o dos Transportes), por Manuel Vicente, PCA da Sonangol, por vários membros do seu gabinete e pelo governador do Bembo, o Presidente José Eduardo dos Santos foi ver o estado das obras do novo aeroporto de Luanda, três dias depois de ter dito aos deputados que a primeira fase será inaugurada em Agosto de 2012

V isto do ar, percebe-se que se está a criar um colosso. E tem de ser grande, quando se ambiciona chegar à frequência de quinze milhões de passageiros e seiscentas mil toneladas de carga por ano, isso quando se atingir o máximo de rendimento.

Para já o rendimento que se tira é dos trabalhadores e das máquinas que operam no local. Entre chineses e angolanos, não foi possível obter o número de operários engajados no empreendimento, até pela flutuação da mão-de-obra. Há tarefas que ainda não se iniciaram, o que não permite dizer, para já, o total dos trabalhadores que terão construído o novo aeroporto de Luanda quando obra estiver concluída.

Para já, fala-se no concurso de sete grandes empresas, fundamentalmente empenhadas em erguer as infra-estruturas metálicas. Fala-se de vinte mil tábuas, seiscentas toneladas de vigas, cinquenta e cinco mil peças de aço, vinte toneladas de tubos para água e bombeiros, etc. os números são assim, enormes.

Uma enormidade de números, implicados na construção do novo aeroporto de Luanda, ao Bom Jesus, que se prevê um grande impacto no tecido económico e social angolano. Sendo assim, e até pelos valores implicados na construção, qualquer coisa a aproximar-se dos três mil milhões de dólares norte americanos, as autoridades políticas seguem a empreitada com muita atenção. Tal que em três meses o Presidente da República foi visitar o local por duas vezes. A última visita aconteceu no dia 22 de Outubro.

LEGALIDADE É PONTO IMPORTANTE

“As contratações de empresas prestadoras de serviços e de materiais para o novo aeroporto devem respeitar escrupulosamente a lei”. José Eduardo dos Santos disse-o ao engenheiro chinês que fez a descrição dos andamentos dos trabalhos ao Presidente. A observação surgiu a meio da apresentação, quando o engenheiro chinês falava da necessidade de importar componentes de países ocidentais e de algumas províncias chinesas. Falou-se também na construção de um grupo gerador, na expropriação e realojamento de populares que habitam áreas que deverão ser abarcadas pelo aeroporto. E são cerca de três mil famílias que os construtores prometem realojar. E no momento em que o encarregado da obra falava da mudança de tal número de pessoas para casas novas, isso até ao fim da obra, José Eduardo dos Santos, ante a presença da imprensa, chamou a atenção para o facto de aquele compromisso estar a ser feito em público.

Ficou assim um compromisso público: Os construtores do novo aeroporto de Luanda irão construir três mil residências para as pessoas que as obras obrigarão a abandonar a área.

AS PRIORIDADES

A torre de controlo está já a ser erguida, tal como a área administrativa, o terminal VIP, o edifício principal, a pista para aterragem, descolagem e táxi das aeronaves. Tudo isso deverá ser entregue em Agosto do próximo ano, 2012.

Estará então concluída a primeira fase do empreendimento. Quando a segunda fase for concluída haverá então capacidade para o anunciado fluxo de quinze milhões de passageiros e seiscentas mil toneladas por ano.

AMBIÇÃO ESTRATÉGICA

No fim da visita presidencial, Augusto Tomás, ministro dos Transportes, disse aos jornalistas que o novo aeroporto espelha um exemplo do que se pode fazer com as parcerias público privadas. “Há muito capital privado a ser investido na obra”. Disse, mesmo sem precisar exactamente o nome da empresa que ficou com a concessão, nem o tempo da dita concessão. De qualquer forma, o novo aeroporto perfila-se para merecer o estatuto de placa giratória na região austral do continente africano, rivalizando com os aeroportos mais frequentados do continente e, em tamanho, pretende ser, senão o maior, um dos maiores.

E há razões para tais ambições: Angola ocupa, na geografia do continente, um lugar estratégico para as ligações com os continentes americano e europeu. Mas há também o potencial turístico nacional que engloba o projecto Okavango-Zambeze. A ligação aos países vizinhos e a importância do CFB como transportador mercadorias, o que significa um grande potencial de negócios. Por outro lado, a proximidade ao futuro porto do Dande, aumenta o seu valor como plataforma económica.

Outra mais-valia económica virá da construção de um centro de manutenção de aeronaves, o que poupará às companhias aéreas angolanas parte dos gastos que advêm da manutenção no exterior do país e permitirá igualmente a manutenção de aeronaves de outros países, o que proporcionará a entrada de mais capital.

Uma infraestrutura de tal envergadura exigirá o melhor aproveitamento pelas empresas angolanas do ramo.

Augusto Tomás, o ministro dos Transportes, sem avançar mais dados, referiu a O PAÍS que “naturalmente as nossa companhia de bandeira será redimensionada, uma estrutura destas não pode ser feita para servir companhias estrangeiras apenas”. Com o aeroporto, está visto, pretende-se rentabilizar a posição geo-estratégica de Angola.

MODERNIDADE É EXIGÊNCIA

A gare do aeroporto, segundo o plano apresentado ao Presidente, terá trinta e uma mangas para embarque e desembarque de passageiros. Duas pistas duplas permitirão a vinda a Luanda dos maiores aviões do mundo, como a A380 da Airbus, actualmente o maior avião comercial do mundo. Das trinta e uma mangas anunciadas onze estarão destinadas aos passageiros com destinos domésticos.

AO ESTILO DE NOVA CENTRALIDADE

Um aeroporto que se quer gigante criará muitos empregos. E o novo aeroporto de Luanda deverá criar um número de empregos, incluindo os indirectos, que ultrapassará os cinquenta mil. Mas o aeroporto está localizado a quarenta quilómetros de Luanda, na Localidade de Bom Jesus, o que levanta a questão da distância a percorrer pelos futuros trabalhadores para o local de trabalho e daí para Luanda.

A resposta vem com a construção de uma nova centralidade que albergará cinco a dez mil pessoas, entre trabalhadores administrativos, operadores de terra, bombeiros, polícias, pilotos, etc. Nascerão na área também alguns hotéis. Tudo isso, espera-se, criará vida própria na região, não se esperando que a estrutura se fique por mero dormitório. As famílias e as suas necessidades farão surgir escolas, lojas, espaços de lazer e desporto, e as mais variadas empresas de produção e prestadoras de serviço.

As ligações ao aeroporto serão servidas por uma estrada, e ramais ferroviários. A ideia é que os passageiros possam chegar ao aeroporto, vindos de Luanda, quer por estrada como por comboio.

QUE VENHAM

Para já, quem se mostra satisfeito com a ideia do aeroporto são as pessoas que moram e fazem negócio nas imediações. Teresa João, diz que o seu negócio vai bem à beira da estrada. Vende refeições e, sobretudo, bebidas. A cerveja é que tem mais saída. Os principais clientes são os trabalhadores da obra, embora parem também alguns automobilistas vindos de Catete, Malanje ou mesmo do centro do país. Mas diz também que corre pelas redondezas que as pessoas que serão realojadas já receberam dinheiro, “talvez por causa das lavras”, disse. Mas o que espera mesmo é que tudo comece a “se agitar” mais, “para mexer mais o negócio”.

José Kaliengue
Fonte: O país
Foto: O País

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