Adeus São José de Calumbo?

Igreja São José de Calumbo
Igreja São José de Calumbo

Uma fonte de O PAÍS aventou a possibilidade de a Igreja São José de Calumbo vir a desaparecer dessa localidade em virtude de se terem feito trabalhos de prospecção de petróleo com bons resultados.

Segundo a fonte, os trabalhos de prospecção foram feitos por um consórcio nigeriano-americano reunidos na empresa GEOTCS, entre finais do ano passado e princípios do corrente.

Contactada em Calumbo, uma fonte afecta à Igreja Católica confirmou a presença de técnicos em trabalhos de prospecção num período que não pôde precisar, admitindo que os mesmos tenham ocorrido entre finais do ano passado e o princípio deste ano.

“Nós vimos várias máquinas e pessoal a trabalhar aqui e disseram que estavam a prospectar petróleo, mas não disseram que a igreja pudesse ser afectada, eventualmente pela actividade petrolífera”, disse a O PAÍS um dos padres que falou sob anonimato.

Alguns camiões foram posicionados um pouco acima do recinto da Igreja, enquanto várias máquinas barulhentas esticando cabos entravam em actividade, chegando umas com características anfíbias a atravessar o rio para a outra margem, de onde na verdade tiveram início os trabalhos, segundo esclareceu.

Mas acrescentou que “oficialmente nada nos foi comunicado sobre esta eventualidade e acredito que a CEAST também nada saiba sobre isso”.

Mas a fonte lembrou que, diante de um tal cenário de necessidade de exploração petrolífera na área, a preservação dos aspectos da cultura e da história não devem ser ignorados.

TRABALHOS DA IGREJA SEGUEM EM FRENTE

Construída no século XVIII, a Igreja “São José do Calumbo”, padroeiro do casamento, ocupa uma área de 75 hectares desde a margem do Rio Kuanza para cima, onde tem implantadas algumas instalações necessárias ao desempenho do seu ofício.

Depois de um período de abandono nos anos 90, a igreja reganhou algum do vigor dos outros tempos e tem sido um dos locais de peregrinação religiosa de vários fiéis católicos, só comparável a actividade no Santuário da Muxima.

O frenesim desses dias continua e O PAÍS constatou a reabilitação da residência dos prelados, onde a reitoria do santuário está a construir um seminário menor com capacidade para 16 pessoas e outras infra-estruturas de apoio.

Nos planos da Igreja, revelou a fonte consta ainda a construção de uma basílica e um hospital que, entretanto, continua a aguardar por financiamentos.

A BACIA DO KUANZA E O CONTEXTO

Estas informações sobre a exploração petrolífera em Cwalumbo surgem numa altura em que algumas empresas do ramo anunciam o recrutamento de técnicos para trabalhar no onshore, portanto em terra.

De acordo com dados do site oficial da Sonangol, a bacia do Kwanza é uma área terrestre de 25,000 Km2 situada ao redor da foz do Rio Kwanza que é propícia à exploração de hidrocarbonetos.

A prospecção em busca de crude nesta região começou no início do século 20; entre 1952-1974 houve a descoberta de significativas reservas comerciais o que estabeleceu esta área como um dos principais pontos de exploração de crude em Angola.

Desde o início da actividade até ao presente foram descobertos um campo de gás natural e 12 campos de petróleo que representam um total de reservas de 400 MMSTBO (reserva de milhões de barris de crude) das quais já foram explorados 82 milhões de barris.

Apesar de nos últimos 20 anos não se terem efectuado mais trabalhos de prospecção nesta região, estimase que haja reservas que possam vir a dar resultados tão bem sucedidos como os das descobertas em águas profundas.

As informações do site adiantam que “na Bacia do Kwanza foram admitidos a concurso público, em 2007, para licenciamento dois novos Blocos o 11 e o 12 e foram feitos estudos de exploração, estando prevista a realização, pela Sonangol, de trabalhos de sísmica 2D”.

De acordo ainda com o site www. sonangol.co.ao, a primeira descoberta comercial de petróleo, nesta bacia, ocorreu em 1955, com proporções relativamente modestas na zona denominada na altura como ‘Jazigo de Benfica’.

Esta área fica na Bacia do Kwanza, nas proximidades da cidade de Luanda, a descoberta foi um feito da Missão de Pesquisas de Petróleo, uma subsidiária do Grupo Belga Petrofina ou Purfina.

Em Julho de 1961, no prosseguimento dos trabalhos iniciados pela Missão de Pesquisas, a então companhia operadora Petrangol descobriu o primeiro jazigo de dimensão importante, o Campo de Tobias, na região de Cabo Ledo, que não só garantiu a auto-suficiência de Angola, em termos de petróleo bruto como também conseguiu destruir definitivamente o cepticismo de muitos relativamente à existência do precioso ‘ouro negro’ no subsolo angolano.

O ONSHORE ACTUAL

Actualmente, o onshore angolano é composto pelas partes terrestres das Bacias do Congo, Kwanza, Benguela, Namibe e pelas Bacias interiores de Kassanje, Okawango e Owango.

Na fase actual, a única bacia em produção é a do Baixo Congo, da parte terrestre do Congo, também denominada área do Soyo.

A Bacia do Congo encontra-se em fase plena de exploração, estando dividida em dois blocos: o Cabinda Norte, cujo operador é a Sonangol Pesquisa & Produção, e o Cabinda Sul, que tem a Rakoil como operador.

A zona do Soyo tem sido operada pela companhia francesa Total. Porém, brevemente, toda a sua operação será transferida para uma empresa angolana, a Somoil, assegurando como parceiro técnico de relevo a Sonangol P&P.

Concernente às Bacias de Benguela e do Namibe, desenvolvem ambas trabalhos de exploração, sobretudo, trabalhos de campo, recolha de amostras e reconhecimento geológico.

Nas Bacias interiores de Kassanje, Okawango e Owango iniciaram-se m 2006 os estudos de reconhecimento geológico, estando agora em curso estudos aerogravimétricos em cerca de 100,000 Km2, ou seja, em toda extensão das bacias, com o objectivo de se analisar o potencial dos mesmos em termos de produção. De realçar que, segundo o Director de Exploração da Sonangol, Severino Cardoso, “Angola dispõe de um enorme potencial também no onshore”.

Aguarda-se para breve a divulgação da política de exploração que deverá ser seguida na actividade de exploração petrolífera em terra, uma vez que estão agora criadas as condições, quer da parte do Governo quer da Sonangol, para se intensificar a exploração no onshore com vista à exploração efectiva de todo o seu potencial produtivo e, consequentemente, económico.

Eugénio Mateus
Fonte: O País
Foto: O País

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