A mulher que plantou o Nobel da Paz em África

“Plantar uma árvore foi a melhor ideia que tive em toda a minha vida.” A frase é de Wangari Maathai, a primeira mulher africana a ganhar o Prémio Nobel da Paz e que acabou por perder a batalha contra o cancro no dia 25 de Setembro, depois de uma vida preenchida por outras guerras nas quais perseverou e venceu. A sua vida pode ser descrita como o entrelaçar de vários ramos, tais como aqueles que subsistem nos cerca de 40 milhões de árvores que ajudou a plantar no Quénia. A mulher que desafiou a tradição e as autoridades do seu país e que se distinguiu na promoção da mulher, conseguiu convencer o comité do Nobel — e, mais tarde, o mundo — que existe uma relação estreita entre a luta contra a pobreza e a protecção do ambiente. Mas a atribuição do galardão não foi isenta de polémicas. Tal como as muitas causas que abraçou enquanto ambientalista e activista dos direitos humanos e promoção da mulher.

Divorciada, com três filhos e personalidade forte, ela viria a ser conhecida como a “Mãe das Árvores”

“A pobreza tanto é um sintoma como uma causa da degradação ambiental”, defendeu Wangari Maathai
Nascida em 1940 e numa altura em que as mulheres ainda não tinham direito à educação, Maathai teve a sorte de fazer parte da minoria que ia à escola. Com resultados excepcionais nos estudos, ganhou uma bolsa do governo americano para ser admitida numa universidade americana. Foi durante essa estada que Wangari tomou consciência da luta pelos direitos humanos (confessou ter sido muito influenciada pelos discursos de Martin Luther King): “A minha experiência nos Estados Unidos deu-me coragem para me erguer e não ter medo de fazer ouvir a minha voz”, afirmou numa entrevista à revista The Progressive.

Com uma licenciatura do Mount St. Scholastica College (actual Benedectin College), no Kansas, em 1966, Wangari fez um mestrado em Biologia, na Universidade de Pitsburgh, tendo seguido para a Alemanha para trabalhar na tese de doutoramento. Só que em vez de se deixar maravilhar pelas oportunidades do Ocidente, voltou a África em 1971, onde concluiu o doutoramento em Anatomia Veterinária, na Universidade de Nairobi — foi a primeira mulher em toda a África Oriental a ostentar tal título académico. Apesar de ter sido professora universitária, escolheu o meio rural para dar início a quase 40 anos de luta pela preservação da natureza, estendendo as raízes da sua luta a dezenas de milhares de mulheres e estabelecendo a relação, que lhe valeu o Nobel, entre ambientalismo e direitos humanos. Mãe de três filhos e divorciada do marido por este a considerar “com educação a mais e difícil de controlar”, Maathai viria ser conhecida como a “Mãe das Árvores”.

Em 1973, enquanto directora de um centro da Cruz Vermelha, foi contactada pelo Environment Liaison Center em Nairobi, que pretendia contratar um quadro local para dirigir o projecto. Wangari Maathai candidatou-se, foi admitida e, em 1975 —altura em que já tinha aderido ao National Council of Women — convocou uma reunião com mulheres quenianas com o objectivo de discutirem os assuntos que estas desejariam levar à primeira conferência sobre mulheres, organizada pelas Nações Unidas, no México. As preocupações expressas estavam relacionadas com a escassez de lenha — a mais importante fonte de energia nos meios rurais — e com a falta de água potável. Foi nessa altura que Maathai vislumbrou a relação entre a degradação dos solos e a escassez de água e tomou consciência das péssimas condições de vida que assaltavam as aldeias da região. A sua solução foi plantar árvores.

Wangari Maathai
Idade 71 anos (faleceu 
a 25 de Setembro de 2011).
Nascimento Ihithe (Quénia)
Ocupação Ambientalista, 
activista dos direitos humanos 
e da promoção da mulher.
Formação Licenciatura 
e mestrado em Biologia, 
Doutoramento 
em Anatomia 
Veterinária.
Prémios Nobel 
da Paz (2004).

Ver a floresta e não só apenas a árvore

Em 1977, nasce o movimento Green Belt (Cintura Verde) que tinha um objectivo duplo: a plantação de árvores por mulheres e a melhoria das suas condições de vida. Através da restauração da floresta, a assistência às mulheres nas zonas rurais começou a ser mais fácil dado que elas passaram a receber dinheiro por esse trabalho. Em 30 anos, o Green Belt plantou mais de 40 milhões de árvores. O programa foi replicado em mais de uma dezena de países africanos e os seus resultados falam por si: a erosão dos solos foi significativamente reduzida nas mais importantes bacias hidrográficas do país, milhares de hectares de terra foram reflorestados e protegidos e dezenas de milhares de mulheres, em conjunto com as suas famílias, aprenderam a lutar pelos direitos das comunidades onde elas estavam inseridas.

A missão de capacitar o maior número de comunidades no sentido de proteger o ambiente, promover uma boa governação e uma cultura de paz foi mais uma das batalhas ganhas por Maathai. Outra igualmente importante foi a campanha a favor do perdão da dívida do Quénia, que teve resultados no ano do Jubileu, celebrado em 2000. Durante essa campanha Wangari começou a “escavar”, perigosamente mais fundo, no que já acreditava ser a raiz de muitos males que afligiam o seu país: a corrupção. E foi por causa desse combate, presente nas várias causas que abraçou tenazmente, que Maathai começou a ser considerada persona non grata no Quénia. Forte crítica do regime autocrático que vigorou até 2006, aquela que não era vista como “uma boa mulher africana” foi presa, espancada até à inconsciência, recebeu ameaças de morte e assistiu ao assassinato de colegas e amigos. Mas tudo isto não a impediu de fazer erguer a sua voz por várias causas, desde a exploração dos agricultores quenianos pelas multinacionais estrangeiras, à exploração abusiva de recursos naturais em África ou ao falso “comércio justo”. “Os países em desenvolvimento estão a ser persuadidos a venderem as suas matérias-primas às nações ricas”, afirmou, em entrevista ao jornal Washington Post. “Era o que fazíamos durante o período colonial e é o que continuamos a fazer no pós-colonialismo”, acrescentou.
Ecologia em nome da paz

Em 2002, quando o Quénia convocou as primeiras eleições livres, Maathai foi eleita para o Parlamento, com 98% dos votos, como secretária de Estado do Ministério do Ambiente, Vida Selvagem e Recursos Naturais. Ao longo da sua trajectória política, Wangari nunca deixou de fazer ouvir a sua voz. “No Quénia tudo acontece muito lentamente e com burocracia a mais. Felizmente, na sociedade civil, as coisas acontecem muito mais depressa do que no governo”, defendeu na entrevista.

Recordou também que, quando o Comité do Nobel decidiu atribuir o Prémio da Paz em 2004, a uma activista ambiental, conhecida por plantar árvores e não por promover a paz, “choveram”, de imediato, inúmeras críticas. Mas foi exactamente a erosão de distinções entre ambientalismo, feminismo, democratização e direitos humanos que chamou a atenção do Comité. Há muito que Maathai tinha compreendido a estreita relação entre problemas como a desflorestação ou a erosão dos solos com os abusos existentes nos regimes de partido único. “Escavei fundo, e cada vez mais fundo, e percebi que todas estas questões estavam irremediavelmente ligadas ao governo, à corrupção e à ditadura”, afirmou em 2005 à revista Mother Jones. Quando lhe perguntaram se aqueles que defendiam que os activistas da fome eram mais importantes do que os que lutavam para preservar o ambiente, ela tornou a explicar o elo: “A pobreza é tanto uma causa como um sintoma da degradação ambiental. Não se deve começar por um em detrimento do outro. Senão ficamos presos numa armadilha. Quanto mais pobre se fica, mais se degrada o ambiente, e quanto mais este é degradado, mais pobre ainda se fica”. Foi por isso que na cerimónia de atribuição do Nobel, o presidente do Comité, Ole Danbolt Mjos, fez saber ao mundo que “a definição de paz tinha, nesse ano, sido alargada”, acrescentando que “a protecção ambiental era um outro caminho para a alcançar.”

A atribuição do Nobel deu a Maathai a visibilidade que lhe faltava. Desde então passou a ser uma celebridade mundial e uma inspiração para uma nova geração de mulheres quenianas. Autora de quatro livros — o último publicado em 2010 —,
inspiradora de outros tantos, retratada no documentário Taking Root: The Vision of Wangari Maathai, a Mãe das Árvores nunca esqueceu a sua maior luta: a de tentar, numa expressão utilizada pelo escritor queniano Ngugi wa Thiong’o, “descolonizar a mente africana”. Embora consciente de que África precisa de ajuda externa, ela sublinhou que “são os africanos que têm de aprender a confiar em si mesmos. Mesmo que bebam experiências de outros modelos, têm que trilhar o seu próprio caminho”. O caminho que ela própria trilhou foi elogiado pelo actual Presidente queniano Mwai Kibabi no discurso funebre. Um elogio sentido, que veio tarde demais.

Fonte: exame

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