A luta pela sobrevivência nas ruas do kuito

Negociantes ambulantes, zungueiras
Negociantes ambulantes, zungueiras

O dia-a-dia das negociantes ambulantes, zungueiras, inicia às seis da manhã. O objectivo é “comprar negocio” nos comerciantes grossistas ou retalhistas no centro da cidade. O género de negocio varia da capacidade financeira da zungueira. Cosméticos, roupa usada, legumes, frutas e frescos, peixe, carne, frangos são os negocio preferenciais das zungueiras.

Zungar, que na língua quimbundu significa andar ou passear, tornou-se um negócio de sobrevivência para todas as faixa etária da sociedade. Para além das senhoras, os jovens e crianças aderem a esta prática de comércio informal. Alias, até expatriados enveredaram por este tipo de negócio.

A senhora Engrácia Cardoso é uma referência de mulher talhada no comércio informal. Com 40 anos de idade e mãe de cinco filhos tem uma fisionomia juvenil. É zungueira há cerca de 20 anos, e explica porquê: “Se eu tivesse uma formação especializada já não poderia continuar a fazer negócio, porque me sinto cansada. Sei que aparentemente mostro uma outra característica mas eu sou comerciante há mais de 20 anos. Tudo isto porque não tive oportunidade de ir à escola.

Por isso, a única alternativa é fazer negócio para sustentar os meus filhos”, lamentou.

Viúva, a mãe de cinco filhos, Engracia Cardoso, comercializa desde cosméticos a electrodomésticos. Afirmou que já vendeu peixe e carne pelas ruas da cidade do Kuito. Mais iniciou com a actividade vendendo frutas e verduras.

Se olharmos para os preços das frutas, verduras e legumes, que variam entre 50 a 100 Kwanzas, as zunguerias ganham regularmente cerca de mil Kwanzas de lucro do negócio.

“Mano, nós zungamos para não deixarmos os fihos a fome. O meu bebé, desde que nasceu, nunca provou leito Nido ou yougurt importado.

Vontade de comprar não falta mas, não tenho dinheiro para dar o melhor para ele”, lamentou.

A experiencia na rua leva-a a afirmar que na vida é importante ter paciência e ser humilde para conseguir alcançar um determinado objectivo.

“As vezes não vendo quase nada. Há negócios que não dão lucro e só tiramos o dinheiro investido”.

Debaixo de Sol ardente ou da chuva encontramos em varias esquinas da cidade do Kuito os vendedores ambulantes. Ao contrario dos ambulantes da cidade capital, Luanda, no Kuito as zungueiras não são importunados pela policia, nem pelos fiscais. Exercem a actividade desde as primeiras horas do dia até ao anoitecer.

As ofertas no negocio de rua são várias, dependentes somente da necessidade do comprador. Para quem pretende comprar banana, tomate, a batata-rena e doce, abacate, manga e cebola, é só ficar à porta de casa e esperar pelas zungeurias. Os produtos do campo vêm preferencialmente dos municípios do Chinguar, Kunhinga, Katabola, Andulo, Kamacupa, Chitembo, Nharea e Kuemba.

A cada dia que passa a sede capital é invadida por mais vendedoras e vendedores ambulantes, vindos do interior da província do Bié e das províncias do Huambo, Benguela e Kuando Kubango.

Às doze horas, depois de passarem pelas ruas da cidade, é notória a presença em massa das zungueiras pelos largos do Jardim da pouca Vergonha, largo da Shell e diante dos bancos comerciais. Para essas mulheres a refeição decente é o jantar, que normalmente é um funje com lombi (ervas ou folha de tubérculos).

“Quando saímos de casa de manhã cedo mal nos alimentamos. De tarde compramos um pão e comemos assim, sem nada. Ao cair de noite compramos lombi e fuba para o jantar.

Quando temos lucro compramos um pouco de peixe”, lamentou envergonhada a senhora Jamba, vendedora de fruta

Crianças alimentam familias zungando

A exploração do trabalho infantil é muitas vezes incentivada pelos pais, que no desemprego incentivam os filhos a exercer alguma actividade que dê algum benefício financeiro para a família. As crianças fazem de tudo um pouco, até imploraram aos clientes para qe lhes comprem algo e poderem regressar à casa com algum dinheiro que é o pão da família.

Este é o caso do pequeno Artur Cassapa, que todas as manhãs sai de casa com roupa usada para comercializar nos bairros da cidade do Kuito. Encontramos o menino junto ao largo do Governo da província, onde nos contou que os pais e a mãe são desempregados.

“A mãe é que mandou vir vender.

Ela ficou em casa a lavar a roupa, mais sempre me manda vender. Hoje ainda não vendi nada, porque as pessoas não estão a gostar da roupa. Dizem estar muito usada e suja”, disse.

Artur conta que os pais são desempregados. A mãe faz biscates, carta água e lava roupa alheia em casa. “O meu pai, desde que saiu das FAPLA não tem emprego. Bebe muito e não faz nada”, lamentou.

Assim como o pequeno Artur, outras crianças são vistas a zungar pelas ruas da cidade do Kuito e acusam os pais de serem os mandatários dessa actividade. Uns estudam e outros não.

Outro exemplo é o adolescente de 14 anos, Aurélio Bunga, que com um carro de mão vende desde pilhas a bisnagas de perfumes e todo o tipo de cosméticos baratos. Aurélio não estuda e diz que com o negocio consegue suprir as suas necessidades e as da família.

“Vivo com a minha mãe e duas irmãs. A minha mãe desde que fiz 12 anos que não me sustenta. Tive de abandonar a escola para começar a vender na rua”, disse.

Disse ainda que perdeu o pai na guerra do Kuito, segundo lhe conta a mãe. As minhas irmãs de seis e sete anos não vão a escola, porque a mãe não as registou e diz não ter dinheiro para pagar os estudos das filhas.

“A minha mãe não trabalha. De tempo em tempo faz serviço de cartar água ou deitar o lixo de certas casa para conseguir 50 ou 100 kwanzas. Eu consigo ganhar, por vezes, mil kwanzas por dia, e dá para comprar comida para casa”, desabafa.

As dificuldades e os motivos que levam crianças a comercializar nas ruas da cidade do Kuito são varios. Mas a falta de emprego para pais e jovens é a que mais faz crescer o número crianças a zungar pela cidade. –

 

Os desafios das zungueirasAs mulheres vendedoras de rua na província do Bié não diferem muito, na sua forma de comercializar os produtos, em relação às das restantes províncias do País. Talvez a sua característica humildade e paciência na decisão do cliente para comprar um determinado produto lhes especifique na actividade do comércio ambulante.

A vendedora ambulante na cidade do Kuito comercializa, como tantas outras, vários artigos, que vão desde os vestuários aos materiais de cozinha, passando pelos frutos, legumes e outros alimentos frescos frescos como carnes e peixe.

A zungueira faz a venda de produtos a retalho nos mercados municipais e paralelos. Expõe as mercadorias ao ar livre, no chão ou em bancadas improvisadas para atrair os compradores.

Ao amanhecer de cada dia, é visível desde o interior da cidade até às zonas urbanas de cada município, incluindo a capital provincial, a marcha das mulheres no Bié. Na região centro do País, as mulheres ambulantes levantam-se às 5 horas da manhã para começar a preparar a casa para depois partirem à compra do negócio que elas pretendem. Começando pelas mulheres vendedoras da zona rural, que expõem as suas mercadorias nas beiras das estradas, esperando pelos viajantes que circulam em carros próprios ou em táxis, para a compra dos seus produtos. Com os filhos às costas colocam os seus produtos nas bacias, tigelas e baldes para melhor acomodaçã. Entretanti, nas zonas urbanas as comerciantes ambulantes, começam a sua actividade a partir das 6 horas da manhã, com as bacias de legumes e caixas de frescos à cabeça, entram de quintal em quintal com um andar e falar humildes que as caracterizam, perguntando, muitas vezes na língua Umbundo, aos respectivos moradores o que pretendem comprar.

Ao contrário de outras regiões, onde as zungueiras cantam gritando os seus produtos para o conhecimento de quem até esteja distraído, as mulheres ambulantes nesta região tem a sua metodologia especial de chamar a atenção dos seus clientes. De rua em rua, em cada olhar uma pergunta ou um esclarecimento sobre o produto que leva à cabeça para qualquer cidadão.

Quem vive na cidade do Kuito apercebe-se da presença de mulheres que vendem de tudo um pouco, encontrando nesta actividade a sua forma ideal de sobreviver ao invés de entrar para outros vícios que destroem a vida e ferem a moral.

As vendedoras ambulantes residentes na periferia da capital do Kuito, que é uma cidade pequena composta pelas comunas do Cunje, Trumba, Cambândua e Chicala, levantam-se às 5 horas da manhã e com filho às costas começam a sua jornada laboral.

izeram ao espaço, mostra hoje como a vida nem sempre precisa de ser estática ou agarrada a velhas rotinas.

Pertencerá pois a um passado sem volta tudo o que experimentámos como sensação, bom de recordar na última oportunidade que a ela nos referiremos. Escrevemos, então, na visita nostálgica: “Como nas horas seguintes às grandes devastações resultantes da incrível força da Natureza –terramotos, vulcões ou tsunamis -, o silêncio e a sensação do tempo que pára deixando atordoados lugares e pessoas, é o que há como novidade central quando se volta à grande parcela de terreno que durante anos foi o mercado Roque Santeiro, no coração do Sambizanga, em Luanda.

“Atracção fundamental do bairro que tem também ícones como o estádio Mário Santiago e o grupo carnavalesco União Operário Kabocomeu, mas igualmente muitos emblemas imateriais como a fama da sua marginalidade, custa crer que o Roque Santeiro teve um fim e, com ele, o eclipsar de todo o seu buliçoso quotidiano de vendas, revendas, favores, traições, conflitos e demais catálogo de pequenos e grandes actos da sociologia de massas tornados desafios difíceis de descondificar”… Acrescentemos agora ao panegírico relato descritivo o que vale a pena dizer agora, como o facto de o amplo descampado ter recebido, não faz muito, o Chefe de Estado para assinalar o lançamento de todo o vasto plano de requalificação do município onde o Roque Santeiro se instalou, como brincadeira séria, nos idos de 80. Vai nascer uma nova terra, um novo mundo, com sonhos melhorados e de conquista, diametralmente opostos à estreiteza daqueles pensares que mostravam o caótico lugar de trocas mercantis como um valor em si mesmo. O país suplantou-se, avançou futuro adentro e estabeleceu patamares, mais altos e mais ambiciosos, para que dele se orgulhem os seus filhos. Nascerá assim, no velho terreno hoje povoado de vazios repetidos, fogos habitacionais de qualidade soberba. Para que a memória do Roque se afunde com tudo o que produziu de desprezível nos longos anos que por ali andou. Mas que, ao mesmo tempo, os vitoriosos do lugar – sobretudo aqueles filhos de ninguém que se fizeram homens com os proventos do Santo milagreiro – se lembrem um dia, quiçá morando nos novos arranha-céus, que começou ali a sua saga.

João Manuel no Kuito
Fonte: O País
Foto: O País

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