‘Executivo gere com cinismo a questão do 27 de Maio’ José Fragoso

Associação 27 de Maio
Associação 27 de Maio

Associação 27 de Maio adiou “sine die” a publicação das listas dos alegados algozes das vítimas da chamada “intentona golpista” de Maio de 1977, revelou em entrevista a O PAÍS, o vice-presidente daquela associação, José Fragoso, durante a manifestação organizada no último sábado, no Largo da Família. De acordo com José Fragoso, tudo é uma questão de tempo, porque na devida altura a será actualizada a lista e divulgada com os nomes dos supostos “protagonistas” da “chacina do 27 de Maio de 1977”.

Precisou que a referida lista inclui 120 figuras que ocupam destacados cargos na hierarquia da política angolana dentre os quais ministros, deputados, altas patentes da Polícia e das Forças Armadas Angolanas. O objectivo da vaga de protestos iniciada no sábado passado pelos membros daquela associação, segundo deram a conhecer, passa pela reabertura deste fatídico caso para a memória colectiva dos angolanos, a entrega das ossadas de onze indivíduos, bem como a construção de um memorial para todas as vítimas do processo.

As onze ossadas correspondem às figuras de Nito Alves, Zé Van-Dúnem, Sita Valles, Bakaloff, Monstro Imortal, Manuel da Silva, Minerva, Vungo Arão, dentre outros.

José Fragoso explica que estas exigências estão expressas nas várias cartas endereçadas às entidades de direito e incluem uma proposta de protocolo de entendimento enviado ao Executivo angolano e ao partido no poder. “Porém a situação prevalece inalterável ao longo destes anos”.

Dentre as várias cartas endereçadas ao Executivo, o interlocutor particulariza aquela que foi feita no ano de 1992 pelo líder do extinto Partido Renovador Democrático, Luís dos Passos, ao Presidente da República, e que pedia explicações sobre o paradeiro de mais de 80 indivíduos presos naquela altura.

José Fragoso diz que em resposta a esta carta, o Executivo dizia que “onze indivíduos haviam sido julgados, condenados e fuzilados. Enquanto os restantes haviam desaparecido das cadeias”.

Tendo em conta a resposta, Fragoso não se coibiu de considerá-la como um verdadeiro acto de cinismo, alegar que as pessoas desapareceram da cadeia, ao mesmo tempo propõe a sua graduação a título póstumo nos graus de generais no ano de 2002.

No seu entender, este facto pode até certo ponto condicionar a solidificação do processo de reconciliação nacional em curso no país, “enquando a memória das vítimas do 27 de Maio não forem honradas e enterradas condignamente”.

“Só poderá haver reconciliação nacional quando se enterrar as vítimas do 27 de Maio condignamente, porque são aqueles indivíduos que colocaram o MPLA no poder. Então não pode haver reconciliação. Por isso, enquanto permanecerem na vala comum as ossadas destes elementos, não vamos alcançar este desiderato”, alertou.

Ao lembrar-se das consequências deste acto que perduram nos dias de hoje, José Fragoso diz que muitas famílias ficaram feridas, fragmentadas, destacando ainda como incidência fundamental, o facto de os filhos das vitimas não terem podido estudar, o que o leva a considerar a reconciliação em curso um mero acto de propaganda política, algo que disse ter vislumbrado no discurso do Presidente da República sobre o Estado da Nação.

Por forma a perseguir a concretização dos seus objectivos, a Associação 27 de Maio deu inicio de forma ininterrupta, diz, a uma vaga de manifestações e protestos a realizar todos os sábados até à satisfação dos seus propósitos.

No programa da Associação 27 de Maio estão contempladas igualmente a realização de marchas pelos diversos bairros de Luanda “com o intuito de denunciarmos a teimosia e o cinismo do Executivo angolano na gestão desta problemática”.

Enquadramento social dos ex-presos do 27 de Maio

A situação social dos ex-presos políticos do 27 de Maio na actualidade é considerada lastimosa, marcada em parte pelo desmoronar de famílias, havendo a assinalar o registo de casos de abandono dos maridos pelas respectivas mulheres.

O vice-presidente da fundação garante que esta é uma situação do perfeito conhecimento do Executivo há cerca de dez anos, altura em que foi entregue uma carta ao Bureau Político do MPLA, aos Tribunais Supremo e Constitucional, bem como ao Parlamento.

“O poder que o governo exerce até agora foi-lhe entregue pelos indivíduos que eles mataram em 1977 e outros que estão ai”, rematou José Fragoso.

Valdimiro Dias
Fonte: O Pais
Foto: O Pais

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