Vítimas das chuvas aguardam por apoio

Muitas pessoas estão ao relento e não têm onde guardar os poucos haveres recuperados dos escombros
Muitas pessoas estão ao relento e não têm onde guardar os poucos haveres recuperados dos escombros

A tranquilidade com que Sambukimba dorme, aconchegado pela mãe, expressa a inocência perante aflição da família exposta ao relento, junto a parte dos haveres recuperados dos escombros da casa que ruiu devido à chuva que, na quinta-feira, caiu sobre Saurimo.
Aurora António, 23 anos, escapou ilesa, com os quatro filhos, da chuva que atingiu 15 outras famílias, no bairro Nhama. Suplica qualquer ajuda para minimizar todo um quadro de carências, embora beneficiando da solidariedade da sogra, a partir do momento em que o vento lhe arrancou o tecto da casa.
Num cenário de destruição, alguns chefes de família tomaram a iniciativa de reconstruir tudo o que a chuva levou. Fazem adobes, preparam barrotes e endireitam as chapas de zinco para recomporem as casas, enquanto aguardam pelo apoio das autoridades.
A administração municipal de Saurimo, os Serviços de Protecção Civil e Bombeiros e a direcção do Ministério da Assistência e Reinserção Social já trabalham e, numa primeira fase, vão realojar, pelo menos, 60 famílias em vários bairros que circundam a cidade.
O administrador municipal, que foi a um dos bairros afectados pelas chuvas para apresentar condolências a uma família, pela morte de um homem electrocutado, na sequência da queda de um raio, garantiu a existência de stocks feitos em função das previsões de enxurradas intensas na região anunciadas pelo INAMET – Instituto Nacional de Meteorologia.
Gregório Miasso referiu que prossegue o levantamento do número de famílias afectadas para possibilitar a planificação de estratégias “em função das verificações no terreno” e reforçou o pedido às comunidades para o cumprimento das normas de construção e plantação de árvores em quintais e outros espaços para contrapor à acção devastadora dos ventos.

Bairro Nhama
Nhama é um bairro criado há dois anos. O processo de arruamento, que antecedeu a distribuição de talhões à população, não foi acompanhado de iniciativas no domínio da arborização. A expansão de casas é um facto, mas os proprietários pagam, a dobrar, o preço de não terem dado ouvidos aos apelos à plantação de árvores.
Entre várias causas que facilitam a ocorrência de sinistros, o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros ressaltam os buracos abertos para a confecção de adobes junto às casas habitadas, a insistência na construção sobre as linhas de água, edificações sem bases sólidas, com material provisório, e em solos com declive acentuado.
O derrube de árvores aliado a outras acções que alteram o meio ambiente são práticas que saltam à vista na sede de Saurimo, disse o responsável do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), que lamentou que haja “pessoas que querem derrubar o que já existe”, enquanto de luta “para preservar os espaços, com a instalação de um viveiro para a produção de mudas”.
O IDF tem já com 13 mil plantas – eucaliptos e acácias – em viveiros para a criação de novos polígonos para a urbanização da sede provincial e de vilas do interior.
A afirmação de Afonso Maquecha contaria a garantia dada pelo administrador municipal, que o resultado de um estudo de impacto ambiental prova “não haver nenhuma destruição de árvores”.
O IDF, frisou o responsável do Instituto, reconhece debilidades na arborização de áreas, mas a sua participação no processo de distribuição de terrenos para a construção é nula, pois não é chamado, “mesmo tendo plantas prontas a colocar”, sempre que solicitado. O responsável do IDF disse ser necessário estabelecer mais parcerias entre as instituições e lembrou que “duas ou três mãos fazem melhor o trabalho do que uma”.
O perigo das ravinas, acrescentou, ainda espreita, mesmo sem o impacto marcado por inundações e desabamentos que, no passado, trouxe dissabores à população.

 

Adão Diogo|* Saurimo

*Com Flávia Massua

Fotografia: Adão Diogo

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