Triénio perdido

Carlos Feijó
Carlos Feijó

Aquilo que parecia um simples soluço na marcha acelerada que colocou a economia angolana nos radares económicos internacionais nos anos a seguir ao fim da guerra, ameaça tornar-se numa verdadeira dor de cabeça para as autoridades. De facto, em termos reais, a actividade económica no país está praticamente estagnada há já três anos.

Carlos Feijó: O ministro de Estado e Chefe da Casa Civil herdou uma economia estagnada

Pelas contas do Governo, em 2011, o produto interno bruto (PIB) do país só vai crescer 3,6% em termos reais, isto é menos de metade do que a projecção de 7,6% que serviu de base do Orçamento Geral do Estado (OGE) para este ano, há cera de um ano.

O ministro das Finanças, Carlos Alberto Lopes, a quem coube anunciar a má nova durante a apresentação do pedido de créditos adicionais ao OGE 2011, justificou a revisão em baixa da economia no ano corrente com desempenhos piores do que o previsto nos sectores petrolífero e não petrolífero.

O aumento real anual da riqueza mal dá paracompensar o crescimento da população

Vamos por partes. A riqueza gerada pelo petróleo vai baixar 3,1% em 2011 face a 2010, em vez de aumentar 2,3% como pressuposto no orçamento — a imprensa especializada diz que é por causa de problemas técnicos, sobretudo no campo offshore designado Plutónio, explorado pela BP em associação com a Sonangol Sinopec International. Já no sector não petrolífero, a projecção de crescimento baixa de 11,2% para somente 7,7%, devido aos abrandamentos da construção das pescas e derivados e dos serviços mercantis.

A revisão em baixa da projecção de crescimento para 2011 não foi a única má notícia constante do relatório em que o Executivo pede à Assembleia Nacional mais dinheiro para gastar. O documento reduz de 4,5% para 3,4% a estimativa de crescimento da economia angolana em 2010. Trata-se do terceiro corte no crescimento do ano passado feito pelo Governo. Quando, no final de 2009, apresentou o OGE para 2010 o Governo projectava um aumento do PIB de 8,6%. Quando a meio do ano passado o documento foi revisto a taxa emagreceu para 6,7%. No final de 2010, com a apresentação do OGE 2011 aconteceu um novo corte para os referidos 4,5%. Ou seja, de acordo com as estimativas mais recentes do Governo, em 2010, a economia angolana acabou por crescer apenas 3,6%, menos de metade do que a previsão inicial de 8,6%.

PIB real por habitante estagnado

Aliás, já em 2009, a economia havia surpreendido as autoridades pela negativa. O cenário macroeconómico inscrito na proposta de OGE para esse ano apontava para uma taxa de crescimento de 11,8%, taxa essa que, mais tarde, com a revisão do documento, a meio do ano, baixou para 6,2%. Contudo, a realidade ainda se revelou mais negativa com a taxa efectiva a quedar-se pelos 2,4%.

Caso não haja novas revisões em baixa das estimativas de crescimento da economia angolana em 2009 e 2010 — 2,4% e 3,4%, respectivamente — e se e confirmar a previsão de crescimento de 3,6% para 2011, temos que, neste trié- nio, a riqueza gerada no país cresceu apenas 3,1% em média anual. Como a população angolana aumenta 3% ao ano temos que o aumento da riqueza gerada no país mal chega para compensar o crescimento da população. Ou, dito de outro modo, o PIB por habitante do país praticamente estagna nos três anos de 2009 a 2011, o que faz deste triénio um triénio de lata, por oposição ao triénio 2005-2007, que foi de prata.

O crescimento médio de 3,1% no triénio que termina em 2011, coloca Angola na 66.ª posição entre os 184 países que constam da base de dados do Fundo Monetário Internacional, actualizada em Abril último por ocasião da divulgação das perspectivas económicas mundiais. Longe vão os tempos em que, embalado pela conquista da paz, em 2002, o país ostentava o título de uma das economias mais dinâmicas a nível internacional.

Como referido, o pico de glória foi atingido no período 2005-2007, triénio em que Angola cresceu uns impressionantes 21,3%, classificando-se como vice-campeã mundial , a mesma classificação obtida nos três anos de 2004 a 2006 com uns igualmente expressivos 17,1%.

A paz foi importante, mas não explica por si só as altas taxas de crescimento que colocaram Angola nos radares económicos internacionais. O forte dinamismo da economia angolana a seguir a 2002, foi impulsionado pela subida acentuada do preço do petróleo nos mercados internacionais numa altura em que o país também aumentava a sua produção de crude.

O cocktail composto de petróleo caro e produção de crude em alta proporcionou a entrada de vultuosos recursos financeiros que complementados pelos empréstimos obtidos junto da China financiaram os vários programas de reconstrução nacional gizados pelo Governo. Por último, mas não menos importante, a economia angolana beneficiou igualmente do facto de a base de partida ser muito baixa, com muitos factores produtivos desempregados, incluindo, em menor escala, recursos humanos, devido à guerra civil que devastou o país durante por quase 30 anos.

A partir de 2008, os pilares de sustentação do milagre económico angolano começaram a ruir. Os rendimentos marginais decrescentes da conquista da paz e o aproveitamento de factores produtivos anteriormente desempregados seriam por si só suficientes para reduzir o potencial de crescimento do país.

A factura da crise internacional

Como se isto não bastasse Angola teve de enfrentar os efeitos colaterais da crise financeira internacional que teve o seu epicentro no mercado de crédito hipotecário de alto risco dos Estados Unidos. Desvalorizada por alguns pelo facto de o sistema financeiro angolano não estar exposto a activos tóxicos, a crise financeira acabaria por contagiar a economia real.

As dificuldades no acesso ao crédito em resultado da quebra da confiança e da falta de liquidez dos sistemas financeiros penalizaram o consumo e investimento nos países mais avançados e as respectivas economias entraram em recessão, arrastando consigo a economia mundial.

A economia ainda não regressou aos carris, apesar dos milhões de petrodólares que entram diariamente

Alterações no ciclo económico global afectam a procura mundial de bens e serviços e os preços respectivos. Na primeira linha dos bens que vêem os seus preços baixar estão as matérias-primas, em particular o petróleo que é o principal motor do crescimento angolano. A agravar a situação esteve ainda o facto de Angola ter sido obrigada a cortar a produção de crude — por fazer parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que reduziu as quotas de produção dos Estados-membros para contrariar a descida dos preços, mas também pelos problemas técnicos nalguns blocos referidos anteriormente. O cocktail composto de petróleo barato e produção de crude em baixa privou o país de vultuosos recursos financeiros que obrigaram a parar muitos programas de investimento público e estiveram na origem da acumulação de dívidas a fornecedores do Estado.

A partir de 2009, à medida que a economia mundial recuperava da recessão, mas também por factores de natureza geopolítica, como as convulsões no Norte de África, particularmente na Líbia, o crude voltou aos ganhos e atinge actualmente preços comparáveis aos anos pré-crise. O FMI prevê mesmo para 2011 um preço médio do petróleo acima dos 100 dólaressuperior aos 97 dólares registados em 2008 que constituem um recorde histórico.

A forte alta do ouro negro nos mercados internacionais não permitiu ainda ao país regressar às elevadas taxas de crescimento real, mas faz-se já sentir na riqueza nominal gerada em Angola. De acordo com cálculos da Exame a partir de dados oficiais, o PIB do país em dólares poderá ultrapassar a barreira psicológica de 100 mil milhões de dólares, 20% acima do pico de 84 mil milhões registado em 2008. Contudo, os petrodólares que diariamente entram em Angola graças ao elevado preço do crude ainda não foram suficientes para voltar a colocar a economia nacional nos carris.

 

Ascensão e queda do crescimento em Angola

– Angola iniciou o milénio a alta velocidade o que lhe permitiu ser por duas vezes vice-campeã mundial de crescimento: no triénio 2004-2006 com uma taxa de 17,1% e também no seguinte, 2005-2007, com 23,1%. O Azerbeijão foi o campeão nos dois períodos.

– Nos últimos três anos de guerra, 2000-2002, o país registou um crescimento médio anual de 6,9%, ocupando a 20.ª posição no ranking mundial liderado pela Guiné Equatorial.

– De 2001 a 2003, Angola caiu para 27.º lugar (com os mesmos 6,9% de crescimento), mas a partir daí foi sempre a subir: 13.º de 2002 a 2004 (9,7%) e 9.º no período 2003-2005 (11,7%).

A queda de Angola no ranking de crescimento mundial começou em 2006-2008 com o afundanço do petróleo. Neste trénio e no seguinte, 2007-2009, o país ainda se aguentou no pódio, com taxas de 19,1% e 13,4%, respectivamente. O Qatar foi primeiro. Seguiu-se um trambolhão para 33.º da classificação em 2008-2010 (6,5%) e nova quedou para 66.º no período 2009-2011 (3,1%).

 

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Por: Carlos Rosado de Carvalho

Fonte: Exame

Foto: Exame

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