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Trauma afecta família feita refém no Hoji-Ya-Henda
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Trauma afecta família feita refém no Hoji-Ya-Henda

Katcha Juliana tenta recuperar do trauma

O movimento de viaturas e de pessoas no bairro Hoji-Ya-Henda, em Luanda, era frenético na tarde de quarta-feira, 5 de Outubro. As vendedeiras comercializam à berma da estrada produtos adquiridos nos armazéns. Vendem a retalho, umas sentadas em latas, outras caminham.
“Estão aqui os pratos, as panelas e baldes. Estou a fazer um bom preço”, apregoa uma vendedeira que traja uma calça elástica, uma camisola branca e calça um par de chinelos. Essa actividade, no bairro Hoji-Ya-Henda, começa por volta das sete horas da manhã e termina às dezoito. Aquele foi um dia triste para gerentes de armazéns, zungueiras, kínguilas e transeuntes.
Os empregados de um armazém grossista conferiam a receita do dia, por volta das 16 horas, quando foram surpreendidos por três indivíduos armados com pistolas, que se deslocavam em duas motos de 125 centímetros cúbicos.
O objectivo era tomar de assalto o estabelecimento comercial Plaza. O local tem várias lojas que vendem produtos diversos, tendo como proprietários chineses, malianos e indianos, entre outros.
Quando os três meliantes tentavam assaltar o armazém, minutos depois viram-se confrontados com a presença de agentes da Polícia Nacional que faziam trabalho de patrulhamento, pertencentes à 13ª Esquadra da Divisão do Cazenga.
Frustrada a tentativa de assalto, os marginais meteram-se em fuga. Começou assim uma perseguição sem tréguas. Dois meliantes foram capturados pouco depois.
O chefe do grupo, um jovem franzino identificado como “Cover”, de 28 anos de idade, durante a fuga pulou vários quintais e refugiou-se no interior de uma residência próxima do armazém, pertencente à cidadã Liliana Madalena, de 48 anos, onde fez reféns cinco membros da mesma família.

Como num filme de acção à Hollywood, “Cover” ainda tentou disparar contra dois agentes da Direcção de Investigação Criminal, mas a arma ficou encravada. Perante a iminência de ser detido pelos agentes policiais, “Cover” refugiou-se na casa de Liliana Madalena.

Ameaças de morte

“Cover” tem vários antecedentes criminais. Quando percebeu que não tinha hipóteses de fuga, fez reféns cinco membros da mesma família e ameaçou-os de morte, caso não colaborassem na sua fuga.
Já no interior da residência, houve troca de tiros entre o meliante e os agentes da Polícia. “Cover” atingiu o agente Alerto Bumba na cabeça, que teve morte imediata.
Os agentes que se encontravam no local, mesmo com uma baixa, não ficaram desmotivados. Via rádio, entraram em contacto com o comandante da Divisão do Cazenga, sub-comissário Felipe Massala, que participou a ocorrência à comandante provincial, comissária chefe Elizabeth Ranque Franque.
A comandante provincial ordenou o reforço dos efectivos, com agentes da Polícia de Intervenção Rápida e Ordem Pública, e dos Serviços de Bombeiros.
Além de Elizabeth Ranque Franque, o ministro do Interior, Sebastião Martins, o comandante-geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, e o comandante da Divisão do Cazenga, Filipe Massala, estiveram no local da ocorrência.
O ministro do Interior chegou por volta das 23 horas e estava sereno. Através de um telemóvel, “negociou” a rendição do meliante. Inicialmente, o comandante da Divisão do Cazenga, Filipe Massala, tentou convencer “Cover” a render-se, mas ele recusou-se.
Seguiram-se outras tentativas, como a do segundo comandante provincial de Luanda, comissário Dias do Nascimento.  Depois de “Cover” se render, Sebastião Martins, emocionado, disse à imprensa que “a vida dele estava salvaguardada e estava mais preocupado com as crianças”. Ao meliante disse: “Estás consciente do que fizeste. Agora vais responder pelo teu crime.”

Pistola em riste

A residência onde ocorreu esta acção está localizada na rua da Mãe Preta, frequentada por cidadãos que fazem compras nas imediações. Katcha Juliana, 19 anos, conversava com os irmãos mais novos, quando o meliante entrou armado.
Katcha Juliana disse que o meliante apontou-lhe uma arma de fogo à cabeça e proferiu ameaças de morte. Perante a situação, implorou para não lhe fazer mal. “Eu ainda lhe pedi para ir ao quarto de banho, para fazer xixi, mas ele negou, pelo que tive que urinar no local, mas com a arma apontada para mim”, contou a jovem.
Ela livrou-se do meliante, quando este começou a vomitar e pediu-lhe água gelada. Atendido o pedido, “Cover” queria mais água. Quando a refém foi buscar água pela segunda vez, saltou pela janela e livrou-se do meliante.
Katcha Juliana, que frequenta um curso de informática, disse que enfrentou um dos momentos mais dramáticos que já viveu e que não consegue dormir desde que ocorreu o crime. “Quando penso no polícia que encontrei morto e o bandido apontou-me a arma e ameaçou-me de violação, não consigo dormir”, adiantou Katcha.
Uma agente da Polícia Nacional, que não quis identificar-se, deu apoio psicológico a Katcha Juliana. A mãe da refém, Liliana Madalena, ainda manifesta um estado de consternação pelo sucedido.
O psicólogo Augusto Cabunde disse que a falta de sono enfrentado por Katcha Juliana deve-se ao facto de ter sido ameaçada de morte e salientou que, devido a esta situação, a vítima adquiriu transtorno de personalidade ou síndrome de medo, que é curável com uma terapia de curta duração.Augusto Cabunde mostrou disponibilidade para dar apoio psicológico à família, para que o problema seja ultrapassado. “Podemos trabalhar com a família no sentido de corrigirmos aquilo que ela cimentou no seu subconsciente, tendo em conta o trauma adquirido com esse assalto”, disse Augusto Cabunde, realçando que as igrejas e a família podem também jogar um papel fundamental na recuperação da mente humana.
Por sua vez, a comandante provincial de Luanda da Polícia Nacional, Elizabeth Ranque Franque, afirmou que o meliante “Cover” é altamente perigoso e tem antecedentes criminais.
“Cover”, segundo informações recolhidas pela corporação, é autor de inúmeros assaltos em residências e na via pública no município de Viana.
O marginal é ainda investigado por crime de homicídio voluntário, que resultou na morte de um oficial da Direcção de Investigação Criminal de Viana.

Homenagem póstuma

Alberto Bumba, 29 anos, ingressou na Polícia Nacional com 19 anos, em 2001, na província de Cabinda. Dois anos depois, deslocou-se a Luanda para frequentar uma acção formativa na Escola Nacional de Polícia de Ordem Pública Capolo I, tendo sido colocado na Divisão da Maianga e posteriormente transferido para a 13ª Esquadra da Divisão do Cazenga.
Pela entrega e dedicação à carreira policial, Alberto Bumba  foi promovido a titulo póstumo ao grau policial de sub-inspector, deixando mulher e quatro filhos.
O ministro do Interior, Sebastião Martins, rendeu homenagem ao agente e apresentou os sentimentos de pesar à esposa e familiares na Unidade Operativa de Luanda.
A cerimónia contou com a presença de altas figuras do Ministério do Interior. Estiveram ainda presentes membros do Conselho Consultivo do Comando Geral da Polícia Nacional, do Comando Provincial de Luanda e colegas da 13ª Esquadra da Divisão do Cazenga.
“Viemos prestar uma sentida e merecida homenagem ao efectivo, dar o nosso conforto à família enlutada e transmitir com a nossa presença o encorajamento aos efectivos para que continuem a cumprir com brio o dever, mas não gostaríamos que fosse nessas circunstâncias”, declarou o ministro Sebastião Martins à imprensa.
Alberto Bumba, lembrou o ministro do Interior, vai ser uma referência para os efectivos, por ter sido um quadro com uma boa perspectiva em termos de evolução na carreira policial.

 

André da Costa

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: João Gomes

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