Transportes escolares: perigo à espreita

Perigo à espreita
Perigo à espreita

Através de uma ronda efectuada nos bairros Benfica, Futungo de belas, Talatona, Morro Bento, Corimba, Gamek e Rocha Pinto, município da Samba, em Luanda, entre Segunda e Quinta-feira desta semana, O PAÍS constatou que as crianças, que fazem uso de mini-autocarros escolares, são transportadas de qualquer maneira, o que as coloca quase sempre em situação de risco iminente.

A pressa para o cumprimento do horário escolar dos pequenos e o consequente reconhecimento profissional por parte dos empregadores foram invocados por alguns motoristas abordados por este jornal como os factores que determinam o seu modo de agir.

“É que se você não conduz assim, perde a reputação no serviço e atrasa sempre com os miúdos” disse José, admitindo que se referia ao tipo de condução baseada nas ultrapassagens à direita, passagem por ruas alternativas não asfaltadas e esburacadas, com a agravante de, muitas vezes, o fazer a uma velocidade acima dos 60 quilómetros/hora. Segundo explicou, não faltam vezes em que as crianças, na inocência que lhes é característica, aplaudem e incentivam essas manobras perigosas, gritando as expressões, “dá mbaya, não maya e pisa, nduta”, para dizer “ultrapassa; não durmas; motorista, acelera!”.

Interrogado sobre os perigos que tais procedimentos podem acarretar, o homem do volante justificou-se com as histórias de engarrafamento e falta de opções viárias.
Há seis anos no ofício, o jovem de 33 anos, que já passou por três escolas particulares, não acredita na existência de colegas de profissão que obedeçam “ao pé da letra” as regras de trânsito e as recomendações das direcções.
“Se proceder desse jeito, no mínimo, chega sempre tarde com os alunos, tanto na escola, quanto em casa, correndo o risco de ser demitido”, frisou, lembrando que, no seu caso, os meninos devem estar na escola meia hora antes das oito ou das 13, para a parada.

Miguelito, outro motorista, disse que muitos colegas valem-se do facto de os mini-autocarros escolar dificilmente serem travados pela Polícia, para andarem a alta velocidade
e desrespeitarem outras regras de trânsito.

“Não há outro jeito senão substituir algumas regras de trânsito por aquilo que aprendemos a fazer enquanto taxistas”, disse abertamente, reiterando que tudo faz para nunca ser culpado pela chegada tardia dos miúdos.
Por sua vez, João Manuel não hesitou em dizer que desempenha o papel de transportador escolar por ser o único emprego para o qual foi contratado.

“A minha intenção era fazer táxi, mas o proprietário do carro fez um contrato com o colégio e o motorista sou eu”, relatou, para admitir a seguir que a adaptação está a ser muito difícil, porque nunca trabalhou com crianças.
Para ele, esse tipo de trabalho devia ser feito por pessoas mais adultas e todas semanas deviam ser chamadas, a fim de ouvirem as reclamações vindas dos encarregados, dos próprios alunos e da sociedade em geral.
João Manuel disse isso, porque no seu carro está timbrado o número de telefone do colégio, com o apelo “informe como estou a conduzir”, algo que acontece em outras viaturas com o trabalho de apoio.

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Atropelado pelo carro da própria escola, Yuran Franco era o único filho de seus pais.O garoto de oito anos de idade andava na 3a Classe e estudava no Colégio de aplicação 28 de Agosto há apenas quatro meses.
MORTE DE YURAN COBRA JUSTIÇA

Apesar de o condutor do colégio de aplicação 28 de Agosto, que atropelou mortalmente na última semana Yuran Franco se encontrar detido na Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC), a família do petiz clama por justiça.
O desejo resulta do facto de os familiares considerarem que o processo está a andar de forma muito lenta, isso de acordo com a mãe da vítima, Vissolela Franco, que adiantou não notar indícios que a levem a acreditar num desfecho do caso a seu favor.
“Não sei onde isso vai parar, mas preocupa-me saber que ainda não houve julgamento do culpado, o que devia ditar uma sentença”, disse entre soluços contidos.
Desconsolada, Vissolela Franco desabafou que a ajuda recebida da instituição escolar em que estudava o seu Yuran não paga nem apaga a dor imensa que o vazio deixado pelo filho causou à família.
Por isso, minimizava um pouco saber que o criminoso já se encontra na cela de uma das cadeias de Luanda e com registo devidamente assegurado.
Diligências feitas junto da Polícia Judiciária não amainaram a inquietação da família, como por exemplo um telefonema feito àquela instituição para tentar obter o número do processoe o nome do inspector que se ocupa do caso.
Entretanto, O PAÍS confirmou, de fontes ligadas à DPIC, que a ocorrência que envolveu o atropelamento mortal de Yuran foi registada com o número 9189/011 e que o procurador do processo orientou a família a manter-se em contacto com o instrutor delegado para tal.

Receio da FESA

Vale lembrar que a tia materna do falecido, que cuida de acompanhar o processo, trabalha há mais de cinco anos na FESA (Fundação Eduardo dos Santos), a organização a que pertence o colégio de aplicação 28 de Agosto, no bairro Morro Bento.
Embora não o tenha dito, ela demonstrou estar claramente dividida, ao ponto de não saber quando deve agir como tia e quando deve fazê-lo enquanto funcionária da FESA.
Atenta à situação, sua mãe e avó da vítima, recordava-lhe, durante a entrevista, que “aqui deves agir como tia e não como trabalhadora da Fundação”.

 

PASCOAL ETOMBA
“Faltou amor de pai”

Pascoal Etomba, de 46 anos de idade é um dos dois condutores que inauguraram os serviços de transportação das crianças no colégio de aplicação 28 de Agosto.
Face ao atropelamento mortal do pequeno que, em vida, se chamou Yuran Franco Queirós, pela viatura da própria escola (trágica notícia avançada por O PAÍS na edição passada), a nossa equipa de reportagem procurou ouvi-lo, para se debruçar sobre o assunto.

Na ocasião, o veterano do volante começou por considerar o espírito de paternidade como a primeira responsabilidade que faltou ao seu colega de profissão, para em seguida se questionar sobre o papel da vigilante.
“Você no volante tem de ter muito cuidado, mas cuidado de pai, ao ponto de considerar que todas crianças são seus filhos”, disse, argumentando que fora disso o trabalho não avança.

Para exemplificar circunstâncias em que o motorista tem de assumir a paternidade dos alunos, Pascoal Etomba fez menção a situações de meninos que encontrava a tomarem a refeição, ao mesmo tempo pressionado por seus encarregados para levarem a merenda ao carro.
“Se encontras a criança a tomar o pequeno-almoço ou outra refeição, tens de esperar uns minutinhos, para ele acabarem de comer, controlando, porém, o seu tempo, a fim de não fazer o miúdo chegar tarde à sala de aulas”, explicou, referindo outras ocasiões em que teve de ser ele a ajudá-los a vestir-se e arrumar o material, em função do horário escolar.

A impaciência da pessoa que guia os meninos dentro da viatura constituiu outra questão de Pascoal Etomba já que o colégio 28 de Agosto tem sempre uma vigilante, cuja função é acompanhar as crianças antes, durante e depois da viagem, ajudandoas a subir, descer do carro e atravessar a estrada, quando a situação impõe, bem como orientar atitudes e condutas dos petizes dentro do veículo.
Profundamente sentido com o incidente mortal envolvendo o pequeno Yuran, Pascoal Etomba não teve meias medidas para se recusar a aceitar qualquer justificação que fosse a favor do motorista e da vigilante do transporte escolar.

“Não pode haver nenhum argumento que lhes tire a culpa, a não ser que aluno e guia fossem atropelados
juntos, ao tentarem atravessar a estrada”. Na sua avaliação, “o aluno foi entregue ao perigo”.
Embora tenha reconhecido que a responsabilidade de entregar o estudante à família não seja do chauffer, o nosso entrevistado preferiu dividir a culpa para os dois, já que é dever do condutor obrigar a colega a levar as crianças até às mãos dos familiares, independentemente desta se sentir bem ou mal.
“Trata-se de um dever profissional assumido por ela, quando contratada pela instituição”, reforçou, evidenciando a possibilidade de tal função ser compensada por gesto voluntário do motorista, que para tal deverá parar adequadamente o carro.

Para demonstrar o peso de responsabilidade que o cargo exige, Pascoal Etomba lembrou que, na eventualidade de não haver ninguém em casa de um garoto, recomenda-se voltar com o rapaz para a escola.
O profissional do volante, hoje ligado a outra empresa, espanta-se com a informação que lhe chegou, segundo a qual o miúdo tropeçou e ficou debaixo do carro, tendo sido atropelado quando a viatura avançou, o que, para ele, demonstra uma total desatenção dos responsáveis pelo regresso em segurança dos rapazes.
No tempo em que trabalhou no colégio, lembra que foi submetido a um teste de condução de um miniautocarro de marca Volkswagen, versão brasileira, o qual conduziu cerca de dois anos, adaptando-se às condições técnicas do automóvel “não muito favoráveis”.

“Pediram-me para conduzir das imediações da escola Heróis de Cangamba, bairro da Coreia até ao colégio 28 de Agosto, no Morro Bento, ambos no município da Samba, isso para além de observarem e consentirem e aprovarem o averbamento das minhas cartas de condução, um procedimento que desconfio não constar mais das preliminares dos contratos”, referiu.
Questionado sobre a nova classe dos transportes escolares, “Papá Pascoal”, como é carinhosamente tratado no seio da família, disse não ter nada contra a juventude que tutela os serviços, mas sublinhou que a referida ocupação “requer mesmo idoneidade, experiência comprovada e vocação, acima de tudo”.

ALUNA VIGILANTE
Se a moda pega

Durante a ronda de Quarta-feira, 28, a nossa reportagem acompanhou o processo de transportação de alguns estudantes do período da tarde dos colégios 28 de Agosto, Episalque e Os Brilhantes, localizados todos na circunscrição da Samba.
A viatura não trazia guia, obrigando o motorista a desempenhar esse papel, impondo ordem quando os alunos disputavam ferreamente os assentos.
Para entender o relacionamento que envolve os discentes antes, durante e depois da viagem, O PAÍS dirigiu-se ao colégio Eritlândia Magna, do mesmo município, onde conversou com crianças que se servem do transporte escolar.
Primeiro, saltou à vista a atitude de Isabel Benedita Carlos, de 10 anos de idade e residnete em Talatona, que, verificando com regularidade a ausência de vigilantes na viatura escolar, resolveu ela própria fazer este papel.
“Eu vi que nós vínhamos e íamos sempre sozinhos, comecei a cuidar de orientar e animar os meus colegas”, referiu, sublinhando que viaja sempre com crianças mais novas em relação à sua idade.
Isabel Carlos pareceu estar a gostar tanto da ocupação que conseguiu detalhar o comportamento e a necessidade dos seus colegas, durante o trajecto Talatona-Eritlândia Magna.
Em relação à ausência dos guias, ela sugeriu que o colégio os arranjasse, mas chamou atenção para serem pessoas com vontade de dedicarem a sua vida às crianças.
Em jeito de conselho, a menina pediu a todos estudantes que fazem uso dos transportes escolares para não colocarem os braços ou a cabeça à janela, muito menos se deslocar de um sítio do automóvel, quando em marcha.

CULPA
Responsabilização do guia

Dona Lurdes, avó materna do falecido Yuran Franco, exige que haja uma responsabilização do guia que acompanhou as crianças na Terça-feira fatídica, já que cabia a esse funcionário fazer descer o garoto, atravessar a estrada com ele e entrega-lo aos familiares.
“Eu sinto pena do motorista, porque ele está a pagar sozinho uma culpa dividida, pois o guia devia cumprir o seu trabalho, para depois orientar o seu colega a seguir em frente”, acrescentou, realçando ter conhecimento da desculpabilização absoluta do assistente dos meninos, quer por parte da escola, quer por parte da polícia de investigação criminal.
Na senda do trágico incidente que lhe roubou o neto, Dona Lurdes aproveitou para apelar às direcções de escolas privadas ou públicas para não entregarem estes serviços a pessoas irresponsáveis, que durante a viagem deixam as crianças abandonadas à sua sorte.
“Tenho notado com frequência que, enquanto levam as crianças para a escola ou de volta às suas casas, motorista e vigilante ficam entretidos em conversas pouco recomendáveis para os pequenos, quando este último devia ficar no meio dos alunos durante o percurso, animando-os até
chegarem ao destino.No seu entender, essa figura desempenha a função de assistente social para as crianças e até para o próprio condutor, assegurando as relações entre os encarregados e a direcção da escola, por meio do impacto do seu trabalho, no caso, transmitido pelos miúdos ao seu cuidado.
“Não podemos esperar pelas mortes das nossas crianças pelos seus próprios protectores para avaliarmos as insuficiências que o transporte escolar tem”, aconselhou, revelando não se tratar da primeira morte no colégio, já que ainda este ano -segundo denunciouum rapaz foi atropelado por um taxista, ao atravessar a estrada, depois de descer do carro da instituição sem acompanhamento do vigilante.
Quem também apontou falhas daqueles que considerou “supostos protectores dos alunos”, foi a empregada doméstica de Vissolela Franco, que fez saber a esta reportagem ter havido vezes sem conta em que abria o portão se deparava com Yuran sozinho.
Natália, a empregada, já algumas vezes chamara a atenção do vigilante para este aspecto, para que houvesse mais segurança e confiança dos serviços.

Alberto Bambi
Fonte: O Pais
Fotografia: O País

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