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Resolvido, mas nada Resolvido
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Resolvido, mas nada Resolvido

Presidente Barack Obama

“Quando o burro luta com o elefante, o bem-estar de muitos outros países também está na zona de impacto.” Foi assim que a Xinhua, a agência de notícias oficial da China, descreveu a crise que quase levou os Estados Unidos a um inimaginável calote. Não foi uma piada nem uma alfinetada, muito pelo contrário: o “burro “é o símbolo do Partido Democrata; e o “elefante”, o do Partido Republicano.

Barack Obama durante uma conferência em Washington: refém das disputas ideológicas entre os democratas e os republicanos

Os chineses, maiores detentores de títulos do Tesouro americano, e o resto do mundo respiraram de alívio quando o Presidente Barack Obama assinou o plano que permitirá ao país continuar a pagar as suas contas. O acordo, fechado aos 45 minutos do segundo tempo, pode ter evitado uma nova catástrofe na maior economia do mundo, mas o problema da gigantesca dívida americana, que vai passar dos 15 biliões de dólares, está muito longe de uma solução. O braço-de-ferro entre burros e elefantes vai regressar em força nos próximos meses, com o arranque oficial da campanha presidencial de 2012 e o risco é que a reputação dos Estados Unidos se perca pelo caminho.

A esperança representada pela eleição de Barack Obama hoje é uma memória distante. O candidato prometeu aos americanos transformar Washington. Mas a verdade é que o Presidente é um refém das disputas políticas que acontecem nos corredores do Congresso. O aperto fiscal vai exigir novas e complicadas negociações e, se o que se viu nas últimas semanas for um sinal, o drama vai continuar por mais algum tempo. A meta é cortar 2,4 biliões de dólares do défice nas contas públicas do país. A palavra-chave, nos próximos tempos nos Estados Unidos, é “austeridade” — e isso pode representar uma diminuição da sua influência internacional. O que significa menos dinheiro para investidas militares no estrangeiro (e a diminuição considerável nos gastos no Iraque e no Afeganistão) e para eventuais novos pacotes de estímulo económico (tal como o de 2009).

Perda de confiança nos títulos de dívida

 

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Protesto de desempregados na cidade de Chicago:a demora na recuperação económica será o grande tema da eleição presidencial do próximo ano

Mas a preocupação imediata ao redor do mundo é com a capacidade do país de continuar a honrar os seus compromissos. A China tem quase 1,2 biliões de dólares a receber dos Estados Unidos. Depois vêm o Japão, o Reino Unido, um grupo dos países exportadores de petróleo e o Brasil. Por enquanto, o risco de um calote foi afastado, mas isso não quer dizer que a credibilidade do maior — e até agora melhor — devedor do mundo se tenha mantido intacta. “Os títulos do Tesouro americano sempre foram considerados como uma aplicação segura e sem risco”, disse a nova directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde. “A crise actual está a minar essa confiança ilimitada.” Das três grandes agências de análise de risco, apenas uma delas, a Fitch, já se pronunciou, afirmando que não haverá mudança na nota dos papéis americanos. A expectativa é que Moody’s e Standard & Poor’s façam o mesmo (embora esta última tenha notado no passado que seria necessária uma redução de 4 biliões do défice para a manutenção da nota máxima). “A consequência de uma perda de confiança nos títulos americanos é tão grande que é difícil de imaginar”, diz Ricardo Reis, professor de Economia da Universidade Columbia. “Uma quantidade tremenda de contratos baseia-se na existência de um ‘papel seguro’ — os papéis do Tesouro americano. Se houver uma mudança repentina, podemos ter um colapso pior do que o que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers”, argumenta.

 

Mesmo que as notas AAA sejam mantidas, as expectativas mudaram. Por trás dessa mudança de humor está um jogo político que fará “correr muita tinta” até Novembro de 2012. A ala radical dos republicanos, conhecida como o movimento Tea Party, obteve ganhos expressivos nas eleições legislativas do fim do ano passado e tem levado os deputados e senadores do partido cada vez mais à direita. O resultado disso é uma recusa feroz da oposição em aceitar aumentos nos impostos. Para os integrantes do Tea Party, quanto menos governo melhor: só assim as empresas vão voltar a investir e a economia vai voltar a recuperar. Alguns, como a pré-candidata à presidência Michele Bachmann, chegaram ao ponto de defender um calote, na prática. “Em todos os lugares a que eu fui no país, as pessoas querem menos impostos, para criar empregos, e não querem que aumentemos o tecto da dívida”, disse Bachmann. Do lado do Partido Democrata, a visão é diametralmente oposta: é hora de cobrar mais impostos, especialmente dos mais ricos, e manter os benefícios sociais intocados, pois só com estímulos do governo a economia vai crescer.

 

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Michele BachMann, rosto dos radicais do movimento tea party: a pré-candidata do Partido Republicano à Presidência não queria elevar o tecto da dívida

Essa disputa ideológica levou os Estados Unidos à beira do calote e, para muitos analistas, está a desviar a atenção do problema real, que é acertar as contas do governo de uma vez por todas. O acordo, escreveu o Nobel da Economia, Paul Krugman, é um desastre. “Vai prejudicar uma economia já deprimida; vai provavelmente piorar o problema do défice de longo prazo; e, acima de tudo, por demonstrar que a extorsão funciona e não cobra um preço político, vai levar a América em direcção a uma república das bananas.” O cenário pode não ser tão extremo como o que prevê Krugman, mas está claro que a distância cada vez maior entre os partidos — e a falta de escrúpulos das lideranças políticas num assunto tão delicado — aponta para um futuro preocupante para o país mais poderoso do mundo.

 

A economia, é claro, está a ajudar (ou, no caso, a atrapalhar). Se as guerras no Iraque e no Afeganistão foram dois dos principais temas da eleição passada, na campanha de reeleição de Obama a recuperação económica do país será o tema central — e, por enquanto, não há nem sinal dela. De acordo com os economistas, a recessão pós-bolha imobiliária já acabou, mas na vida real a crise dá poucos sinais de abrandamento. O PIB americano cresceu apenas 0,4% no primeiro trimestre do ano e 1,3% no segundo. Dos 8,7 milhões de empregos que desapareceram nos últimos três anos e meio, apenas 1,8 milhões foram recuperados. Em Junho, os consumidores americanos reduziram os seus gastos pela primeira vez em dois anos, e a poupança aumentou, sinais de que a população do país ainda espera tempos difíceis pela frente.

O acordo que evitou a crise não apresenta nenhuma saída para esses problemas. O que está decidido é que o Presidente poderá aumentar o tecto da dívida em 900 mil milhões de dólares para chegar até o fim do ano (com um novo aumento de até 1,5 biliões de dólares que garante um novo fôlego até o fim de 2012). Depois disso, será preciso colocar as contas em ordem. Um comité de seis republicanos e seis democratas tem até o dia 23 de Outubro para decidir a questão mais importante do imbróglio: cortar ainda mais os gastos sociais e os investimentos em educação e infra-estruturas ou aumentar os impostos? Essa é a resposta mais difícil, e justamente a que os eleitores americanos e o resto do mundo querem ouvir.

 

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O argumento pelo corte de investimentos sociais dá ideia da complexidade do problema. As despesas com saúde pública aumentarão, em média, 5,8% entre 2010 e 2020, segundo um estudo recém-publicado, o que significa um crescimento 1,1 ponto percentual superior ao crescimento do PIB. Uma parcela significativa da população
— a geração dos baby boomers — vai poder desfrutar do programa Medicare, oferecido à população com mais de 65 anos de idade. E a participação do governo federal no pagamento desses serviços aumentará. Mesmo com taxas de crescimento populacional superiores às da Europa e do Japão, já se vislumbra o buraco na segurança social — sem haver nenhuma solução concreta para tapá-lo, pelo menos por enquanto.

 

Obama em apuros para ser reeleito

 

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O presidente chinês, hu Jintao, com Dilma Rousseff: o Brasil e a China, estrelas do mundo emergente, são dois dos maiores credores da dívida americana

“Todas as grandes economias do mundo estão a tentar adaptar-se a este novo cenário económico do século xxi”, diz Walter Russell Meade, professor de Relações Internacionais da Universidade Bard e autor de vários livros sobre a decadência americana. “Apesar de tudo, os Estados Unidos têm lidado melhor com os novos problemas do que a União Europeia ou o Japão.” Ele aponta que não houve até agora uma corrida contra o dólar, nem mesmo uma fuga dos títulos da dívida americana. Mas, mais do que confiança nos Estados Unidos, isso talvez indique outra coisa: a insolvência da Grécia (e potencialmente de outros europeus, entre eles a Itália) e o impacto do terramoto e do tsunami no Japão deixam poucas alternativas para os investidores. Ou seja: Meade é um dos poucos optimistas, ou um dos menos pessimistas.

 

A verdade é que a ansiedade sobre até que ponto os políticos de Washington estão dispostos a insistir na sua intransigência, deixou de ser um assunto que interessa apenas aos americanos. O plano aprovado em Agosto evitou uma catástrofe financeira global. Mas as decisões realmente importantes foram empurradas para a frente. Seja Obama reeleito ou repita ele o exemplo de Jimmy Carter, o último Presidente democrata a falhar uma tentativa de reeleição, a polarização política do país ainda vai ser objecto de muita preocupação, quer em Washington quer no resto do mundo.

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Por: Sérgio Teixeira Jr., em Nova Iorque

Fonte: Exame

Foto: Exame

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