Preferido na Tunísia, partido islâmico causa preocupação

Rached Ghannouchi, líder do partido tunisiano Ennahda, faz o sinal da vitória após votar.
Rached Ghannouchi, líder do partido tunisiano Ennahda, faz o sinal da vitória após votar.

A possibilidade de que as eleições levem radicais islâmicos ao poder, o que poderia causar a interferência da religião nas recém abertas vidas políticas tunisiana e líbia, causa preocupação aos países ocidentais e à imprensa internacional. Os resultados da apuração dos votos dos tunisianos que vivem no exterior são uma amostra de como o partido islâmico Ennahda desponta na preferência dos eleitores: metade das 18 cadeiras destinadas aos emigrantes foi para os islâmicos.

Em reação às inquietudes dos ocidentais, um dirigente do partido afirmou, nesta manhã, que a prioridade dos islamistas será “restaurar a estabilidade e as condições de vida com dignidade na Tunísia e a construção de instituições democráticas”. Abdelhamid Jlass, diretor-executivo do Ennahda (Renascimento, em árabe), ressaltou que o partido respeita “os direitos dos tunisianos, das minorias religiosas e das mulheres”.

Partidos concorrentes, como os laicos de esquerda, parecem não partilhar as preocupações sobre a ascensão da religião islâmica ao governo. O líder do partido Congresso para a República, que briga pela segunda colocação com o Ettakatol, declarou que “o que conta é que agora temos uma verdadeira cartografia política, e que “o povo tunisiano concedeu a cada um o seu peso”.

Passo atrás

Na Líbia, o Conselho Nacional de Transição anunciou no domingo que o novo regime será regido pela charia, a lei islâmica. O divórcio, por exemplo, deve ser proibido e a poligamia voltará a ser autorizada.

Abdelrahman al-Chater, um dos fundadores do Partido da Solidariedade Nacional (centro-direita) criticou as declarações do presidente do CNT, Mustafa Abdel Jalil. “Esse é um assunto que precisa ser discutido pelas diferentes correntes políticas e pelo povo líbio”, disse. “Essas declarações provocam uma sensação de dor e amargura nas mulheres líbias, que sacrificaram suas vidas para combater o antigo regime”, acrescentou.

“A anulação da lei do casamento fará com que as mulheres percam o direito de ficar com a casa e os filhos em caso de divórcio. É uma catástrofe para as mulheres”, denunciou al-Chater.

Ontem, a França e a União Europeia fizeram um apelo pelo respeito aos direitos humanos na Líbia, após as declarações de Jalil. Também a Federação Internacional das Ligas dos Direitos Humanos lamentou “a ameaça de regressão” na Líbia, e teme por “um passo atrás como no Irã”.

O chefe do CNT tentou acalmar a comunidade internacional. “Eu quero que a comunidade internacional fique assegurada do fato de que na condição de líbios somos muçulmanos, mas muçulmanos moderados”, declarou, durante uma coletiva de imprensa.

 

Lúcia Muzell

Fonte: RFI

Foto: REUTERS/Jamal Saidi

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