Preço dos medicamentos preocupa doentes crónicos

Farmacêutica faz a verificação da dosagem e o preço do medicamento para controlo das doenças crónicas não transmissíveis
Farmacêutica faz a verificação da dosagem e o preço do medicamento para controlo das doenças crónicas não transmissíveis

O elevado preço dos medicamentos que os doentes crónicos têm de tomar para o resto da sua vida, está a pôr em perigo a capacidade destes pacientes em conseguirem seguir à risca as indicações médicas.
João Vicente, 45 anos, funcionário público, foi acometido por um paludismo que o deixou acamado durante uma semana. Depois de vários exames, os resultados revelaram que é hipertenso crónico. Actualmente, passados cinco anos, João luta, com muito esforço, para fazer a medicação e ter uma dieta regrada para controlar a hipertensão, que é uma doença crónica não transmissível e acarreta muitos gastos.
Prestes a entrar na farmácia para comprar mais medicamentos, João Vicente, que não aceitou ser fotografado, explicou à nossa reportagem que desde há cinco anos que sentia muitas dores de cabeça, problemas nos olhos, tonturas, palpitações no coração, fadiga, inquietação, zumbido no ouvido e algumas vezes chegou mesmo a sangrar do nariz. Depois de lhe apresentarem as causas destes sintomas, a sua vida nunca mais foi a mesma.
“No princípio, não dava muita importância à doença, porque não sabia em concreto os sérios riscos que correia, até que um dia, quase sem sentir qualquer dor, desmaiei e bati com a cabeça no chão. A partir dessa data, resolvi esforçar-me mais para comprar os medicamentos e tentar cumprir a dieta para controlar o nível da minha tensão arterial”, conta.
João Vicente explica que nas farmácias há sempre os medicamentos de que precisa, mas o grande problema é a falta de dinheiro para cumprir à risca a medicação, porque “eu trabalho na função pública e ganho apenas 30 mil kwanzas, tenho filhos a estudar e a casa para sustentar, se for a comprar todos os medicamentos necessários, a minha família vai morrer de fome” explicou. O funcionário acrescentou que “entre comprar os medicamentos e sustentar a minha família, vou preferir sustentar a minha família e, como consequência, acabo por piorar o meu estado de saúde. Muitas vezes, fico de mãos atadas porque os meus filhos também precisam”, lamentou.
Para controlar a hipertensão, quando consegue dinheiro, compra “Renitec” e “Amlopina”, cuja caixa de 60 comprimidos de 10 miligramas custa, na farmácia, 289 e três mil kwanzas, respectivamente. Estes comprimidos devem ser tomados todos os dias. “Quando não tenho dinheiro, não consigo mesmo comprar”, sublinha João Vicente.
Patrícia Luís, 30 anos, desempregada, padece de diabetes e hipertensão em simultâneo. Por essa razão, tem de fazer consultas de rotina regulares no Hospital Américo Boavida, para saber como está o nível de açúcar no sangue, uma vez que “luta” com a diabetes há 10 anos. Como está desempregada e doente, tiveram de ser os pais a assumir as despesas do tratamento. “Os meus pais são aposentados e vivem da pensão de reforma e de pequenos negócios que realizam defronte à nossa casa. Com esse pequeno rendimento conseguem pagar as minhas consultas”, explicou. A jovem, que por vergonha também não quis ser fotografada, explicou que no princípio da doença sentia muita sede e uma frequente vontade de urinar, ao ponto de acordar várias vezes durante a noite, e estava a engordar muito.

“Quando fui consultar um médico, mesmo antes de fazer os exames, só pela minha explicação e pelo excesso de peso que tenho, ele disse-me logo de antemão que era diabética. Depois dos exames feitos, só confirmei tudo aquilo que ele já tinha dito”, contou.
Como primeira medida, o médico aconselhou Patrícia a praticar muito exercício físico, eliminar qualquer bebida que leve açúcar, comidas com gordura e a cumprir a medicação prescrita. “A dieta consigo cumprir porque sou eu mesma que cozinho, mas não consigo comprar todos os medicamentos por falta de dinheiro”, salientou.
A título de exemplo, Patrícia explicou que há medicamentos, como a insulina, que dificilmente consegue comprar. “E sem este medicamento, muitas vezes fico aflita porque não consigo controlar ou diminuir o nível de açúcar no meu organismo”, realça. A insulina é uma proteína responsável pela redução da glicemia (taxa de açúcar no sangue) ao promover o acesso da glicose nas células. Quando a produção de insulina é deficiente, a glicose acumula-se no sangue e na urina, destruindo as células. Para pacientes nestas condições, a insulina é providenciada através de injecções. Patrícia está consciente de que, se a diabetes e a hipertensão não forem devidamente controladas, podem evoluir para outras patologias, como insuficiência renal ou até mesmo provocar problemas de coração, levando assim à morte rápida. A diabetes e a hipertensão são doenças crónicas e, como tal, não têm cura. Ela tem de conviver com essas patologias o resto da vida.
Patrícia e João, apesar de serem de famílias diferentes, enfrentam os mesmos problemas ligados ao controlo da doença. E por falta de dinheiro, muitas vezes ficam sem saber o que fazer. Por isso, consideram que a única solução para eles e para tantos outros doentes crónicos passa pelo Executivo concretizar a ideia de os medicamentos passarem a ser subvencionados para aligeirar o peso que eles têm no orçamento familiar desse tipo de doentes.

Preços nas farmácias

O Jornal de Angola fez uma ronda por algumas farmácias da Baixa de Luanda e inteirou-se do preço dos medicamentos mais usados para o controlo da hipertensão e da diabetes. Na Farmácia Tropical, existente há 36 anos e localizada próximo da Clínica da Mutamba, os preços são: para o controlo da diabetes, a caixa de comprimido “Daonil” de cinco miligramas com 60 compridos custa 1.611 kwanzas, o “Residon” de 850 miligramas, a caixa de 60 comprimidos 1.224 kwanzas e a “Metformina” de 850 miligramas, uma lâmina custa 1.240 kwanzas.
Na Farmácia dos Coqueiros, 20 comprimidos de “Daonil” de cinco miligramas custam 598 kwanzas, o “Residon” de 850 miligramas 20 comprimidos custam 461 kwanzas, a “Metformina” de 850 miligramas custa 124 kwanzas.
Para o controlo da hipertensão, os medicamentos mais procurados nas farmácias são o “Renidur” de cinco miligramas, a “Amlodipina” de 10 miligramas e o “Renitec” de 20 miligramas.

Dificuldades com a dieta

A endocrinologista e directora clínica do Hospital Geral de Campanha, Eunice Sebastião, esclareceu que, além da medicação, o doente que padece de diabetes e hipertensão deve, também, cumprir uma dieta para que a doença possa ser devidamente controlada.
“Muitos reclamam dizendo que não têm dinheiro para seguir à risca a dieta, tendo em conta que, uma vez diagnosticada a doença, terão de conviver com a doença a vida toda”, conta a médica.
De acordo com a endecrinologista, a dieta não é tão difícil quanto isso, razão pela qual define a palavra dieta como sendo “um programa regrado de alimentação que deve ser mantido de forma regular, no qual o paciente deve ingerir pouca gordura, pouco açúcar, pouco sal, comer sempre a horas certas, fazer seis a sete refeições ao longo do dia em intervalos não superiores a três horas”.
“A prática do exercício físico deve fazer parte da actividade diária do paciente. A pessoa com diabetes deve também ter muito cuidado com o seu corpo, pelo facto de tender a ficar mais sensível e qualquer feridinha pode alastrar-se, acabando por ser fatal”.

Formas de prevenção

Eunice Sebastião explica que quando um paciente sofre de uma doença crónica não transmissível necessita de um controlo bastante rigoroso e se não é acompanhado isso pode originar um agravamento no quadro do paciente. Nessa situação, o melhor a fazer é investir na prevenção, porque quando assim é, a possibilidade da pessoa vir a adquirir uma DCNT é menor, além da redução do custo para o tratamento dessas doenças.
Como forma de prevenção, a endocrinologista aconselha as pessoas que estiverem com peso acima do normal a esforçarem-se por perder peso, consumir álcool muito moderadamente, manter uma actividade física saudável, diminuir o consumo de sal, comer muita fruta, verduras, legumes e cereais, porque esses alimentos são ricos em fibras alimentares, como cálcio, potássio e magnésio, que são muito pobres em gorduras saturadas.

 

Alexa Sonhi

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: João Gomes

DEIXE UMA RESPOSTA